Eu Quero Passar Com Minha Cor: alunos votam nomes em Cariacica — Direto Notícias

Eu Quero Passar Com Minha Cor: alunos votam nomes em Cariacica

A votação já aconteceu e quem votou foram os próprios estudantes. A Escola Estadual de Ensino Fundamental (EEEF) Stellita Ramos, em Cariacica, passou a chamar seus ambientes internos por nomes de personalidades negras brasileiras, resultado do projeto Eu Quero Passar Com Minha Cor. O relato oficial da atividade saiu em 13 de setembro de 2024 e situa o trabalho na semana anterior, sem precisar o dia.

Como o projeto Eu Quero Passar Com Minha Cor escolheu os nomes

O ponto de partida foi um livro. A escola separou 15 personagens negras brasileiras que aparecem em Enciclopédia Negra e, em seguida, abriu um formulário para que os professores indicassem outros 15 nomes. Os escolhidos vieram de áreas diferentes: da política ao jornalismo, das artes à medicina.

Cada personalidade virou material de apresentação — cartaz, foto e um texto curto de biografia — e quem apresentou foram os alunos. Depois disso os nomes foram a voto, para decidir quais batizariam os espaços da escola.

O material oficial não diz quantas indicações o formulário recebeu, nem se as sugestões dos professores entraram na votação ao lado das 15 tiradas do livro. Também não informa quais nomes venceram nem quais ambientes passaram a levá-los. Vale registrar uma diferença dentro do próprio texto: a linha de apresentação afirma que as personalidades já deram nome aos ambientes, enquanto o corpo descreve a eleição como finalidade do trabalho.

Oficina, roda de samba e declamação de poemas

A parte artística tem nome próprio no material: a oficina Tons de Pele, realizada em parceria com integrantes do Museu de Arte das Paneleiras do Espírito Santo. Entraram no mesmo bloco de atividades uma roda de samba, a declamação de poemas escritos por Machado de Assis e canções que o material atribui a intérpretes como Sandra de Sá e Tim Maia.

O texto não diz quem conduziu a roda de samba, quem declamou, quem cantou, nem se as apresentações foram feitas pelos estudantes, pelos professores ou pelos convidados da oficina.

Quem são as pessoas homenageadas? O material não conta

Sobre Machado de Assis, Sandra de Sá e Tim Maia — os três únicos nomes citados —, o relato oficial não escreve uma única linha de apresentação. Não diz quem foram, o que fizeram, em que época viveram nem por que entraram na programação. E os três aparecem como autor dos poemas declamados e como intérpretes das músicas tocadas: o material não afirma que eles estejam entre as personalidades escolhidas para nomear os ambientes.

Quanto às 15 personagens retiradas do livro e aos 15 nomes sugeridos pelos professores, nenhum é citado. Quem lê o comunicado sabe que houve homenagem, mas não sabe a quem. É a maior lacuna do material: uma homenagem sem os homenageados.

A única fala do material é de uma professora de Arte

Não podemos permitir que a história apague isso, cabe a todos nós fortalecer a contribuição do povo negro na sociedade

A frase é de Sayonara Abreu, professora de Arte da escola. Segundo ela, levar atividades como essa para a comunidade escolar serve para mostrar à sociedade que há intelectualidade no povo negro.

É a única declaração atribuída em todo o material. Nenhum estudante, nenhuma família e ninguém da direção da unidade foi ouvido. O relato também não identifica nenhum aluno pelo nome — proteção correta, mantida aqui.

Nenhuma lei é mencionada no comunicado

O texto oficial não cita legislação nenhuma. Não há referência a norma sobre ensino de história e cultura afro-brasileira, a diretriz curricular, a documento normativo da rede nem a programa estadual. O projeto aparece exclusivamente como iniciativa da escola, e o comunicado não informa se ele nasceu de uma exigência legal, de uma orientação da rede ou de decisão do corpo docente.

A distinção não é detalhe burocrático. Iniciativa que depende das pessoas que estão na escola termina quando essas pessoas mudam de unidade; obrigação prevista em norma acompanha o currículo e sobrevive à troca de equipe. Com o que está publicado, não dá para dizer em qual dos dois casos o trabalho da Stellita Ramos se encaixa.

Continuidade: o material não declara nenhuma

Nada no comunicado indica se o projeto terá nova edição, se os nomes escolhidos permanecem identificando os ambientes de forma permanente ou se as atividades entram no calendário da escola. Em setembro de 2024, o que estava documentado era o registro de uma semana de trabalho — não um programa com prazo, meta ou orçamento.

Falta também qualquer número de participação: o texto fala em alunos e professores sem dizer quantos, não informa o total de estudantes da escola e não diz quantas turmas foram envolvidas. Os únicos números do material são os dois blocos de 15 nomes.

Um lado só, e é o lado que divulga

O relato foi distribuído pela própria rede estadual de ensino, que é parte interessada na repercussão do que suas escolas fazem. Não há avaliação externa, manifestação de famílias nem qualquer registro de crítica ou dificuldade — e ausência de crítica em material oficial não é o mesmo que consenso.

Para quem procura o que efetivamente mudou na escola, o material sustenta pouco: os espaços passaram a ter nomes escolhidos por votação, houve oficina com parceria externa e houve apresentações. Tudo o mais — quais nomes, quantas pessoas, com que continuidade — segue sem resposta no que foi publicado.

Compartilhe essa publicação, clicando nos botões abaixo:

Sobre Redação

Portal Direto Noticias - Imparcial, Transparente e Direto | https://diretonoticias.com.br | Notícias de Guarapari, ES e Brasil. Ative as notificações ao entrar e torne-se um seguidor. Caso prefira receber notícias por email, inscreva-se em nossa Newsletter, ou em nossas redes:

Veja Também

Única: Educação no Brasil Ganha Impulso com Novidades em 2026

O cenário educacional brasileiro atravessa uma fase de transformações significativas neste início de março. Primeiramente, …