O Governo do Estado apresentou o resultado de 2024 para os homicídios no Espírito Santo: 852 assassinatos no ano, contra 976 no ano anterior, em 2023. Os dados foram divulgados em coletiva de imprensa no Palácio Anchieta, em Vitória, na segunda-feira, dia 30 de dezembro. O balanço fechou naquele dia e é o que este texto registra: os números valem para o ano de 2024, e para nada depois disso.
O número exato estava na primeira linha do material oficial. Ainda assim, a notícia circulou pelo teto: menos de 900. Teto e contagem não são a mesma afirmação. Um teto admite qualquer valor abaixo dele; a contagem que o Estado declarou é uma só, e é 852.
852 é a contagem dos homicídios no Espírito Santo; 900 é o teto
O material oficial usa as duas formas no mesmo texto: informa 852 assassinatos e, logo em seguida, diz que pela primeira vez o Estado registra menos de 900 casos em um ano. A segunda formulação é a que virou manchete, e é a que perde informação — quem lê apenas o teto não sabe se faltaram dezenas de mortes para chegar nele ou se faltou uma.
Há um segundo dado que não veio do governo. A expressão 28 anos, que apareceu no título com que a matéria circulou, não tem uma única ocorrência no material oficial. O que o Estado escreve é que 1996 é o início da série histórica e que 2024 é o melhor resultado desde então. A conta de quantos anos separam um ponto do outro foi feita por quem escreveu o título, não por quem divulgou o dado.
Os números do próprio balanço não fecham entre si
O material apresenta quatro grandezas para descrever a mesma queda: 852 assassinatos em 2024, 976 em 2023, uma redução de 12,8% contando os 12 meses do ano, e 125 homicídios a menos que no mesmo período do ano anterior. A diferença entre os dois totais publicados não é a que o texto declara, e o descompasso fica sem explicação no comunicado, que não diz se os dois anos foram contados pelo mesmo critério, se algum dos totais foi revisado depois de fechado, nem a qual das grandezas o percentual se refere.
O mesmo acontece com a taxa. Na prosa do comunicado, o Estado passa a apresentar 20,8 homicídios por 100 mil habitantes. Na fala do governador reproduzida no mesmo material, o número vira 20 homicídios a cada 100 mil habitantes. São dois valores, na mesma página, para o mesmo indicador do mesmo ano. Nenhum dos dois vem com a população que serviu de base para o cálculo.
A taxa de 20,8 aparece comparada a uma média nacional de 24 assassinatos por 100 mil habitantes, e é essa comparação que sustenta a afirmação de que o Estado ficou, pela primeira vez desde 1996, abaixo da média do país. De que ano é essa média nacional, quem a apurou e por qual método, o comunicado não diz — e sem esses três dados ninguém consegue refazer a comparação por conta própria.
Quatro palavras para a mesma contagem, e nenhuma definição
Ao longo de poucos parágrafos, o balanço chama o que está contando de assassinatos, casos, mortes, homicídios e, ao falar de um município específico, mortes violentas. Não há no material uma linha dizendo se as cinco palavras designam exatamente o mesmo conjunto.
E não há definição de critério. O comunicado não informa se entram na conta apenas as mortes intencionais diretas, se entram também as mortes ocorridas durante roubo, as decorrentes de ação policial ou as agressões que levaram à morte tempos depois. São recortes distintos, e cada um deles produz um total diferente — o que significa que os 852 homicídios no Espírito Santo não são comparáveis a nenhum outro número publicado por outra instituição sem que se saiba o que cada um conta. O texto oficial não usa sigla técnica nenhuma, o que evita um problema; mas isso não substitui a definição que ele deixou de dar.
As regiões que caíram, e os municípios que ninguém nomeia
O balanço abre o resultado por região e chama esses dados de consolidados. As maiores quedas, segundo o governo, foram no Norte, com 25,8%, e na Grande Vitória, com 12,7%; somadas, as duas regiões representam 119 homicídios a menos que no ano anterior. O Noroeste caiu 5,9% e o Sul, 3,3%.
Quatro regiões são nomeadas, e as quatro caem. O material não diz em quantas regiões o Estado foi dividido para esta contagem, quais municípios compõem cada uma, nem se alguma região ficou de fora da lista por ter registrado alta. Sem isso, essa lista de quatro nomes tanto pode ser o balanço inteiro quanto apenas a parte dele que caiu, e o texto oficial não permite distinguir uma coisa da outra.
Abaixo da região, o dado simplesmente não existe. O comunicado informa que em oito municípios do Espírito Santo não houve assassinatos em 2024 e nomeia apenas um deles: Muqui, apresentado como o lugar com o maior período sem registros, 1266 dias sem mortes violentas. Os outros sete não são citados. Não há, em todo o material, uma tabela, uma lista ou uma linha com o número de qualquer cidade — e é exatamente esse recorte que interessa a quem quer saber o que aconteceu onde mora. A pergunta fica sem resposta no documento que anuncia o resultado.
O único indicador que piorou está dentro da fala do governador
O balanço não tem uma seção sobre o que não melhorou. O reconhecimento aparece dentro de uma citação, quando o governador Renato Casagrande passa do resultado geral ao que ele chama de desafio:
o trabalho que estamos fazendo é de reestruturação, reequipando, inserindo tecnologia e valorizando nossos profissionais da área da segurança que foram fundamentais para alcançarmos esses resultados. Será um desafio no ano que vem reduzirmos em cima do resultado deste ano, que já teve uma grande redução. O Programa Estado Presente vai ter sequência, mas ainda temos desafios como o feminicídio. Estamos trabalhando com educação, acolhimento e agora criamos a Companhia da Mulher. Quando comparado com 2011, nós reduzimos o feminicídio, mas comparado ao ano passado, tivemos um leve aumento, porque ainda temos uma cultura enraizada em alguns homens que acham que a mulher é sua propriedade
Ele falava a jornalistas na coletiva do Palácio Anchieta, no mesmo momento em que apresentava a queda do total. O aumento admitido ali não vem acompanhado de número algum: o material não diz quantos feminicídios foram registrados em 2024, quantos no ano anterior, nem de quanto foi o leve aumento. Também não informa quando a Companhia da Mulher foi criada, com que efetivo, onde atua ou o que ela faz de diferente do que já existia.
O feminicídio que o governador apontou como desafio tem um canal público próprio, e ele não aparece em nenhum ponto do balanço: o 180 atende mulher em situação de violência e acolhe relato também de quem testemunha, sem exigir que o pedido parta da vítima.
852 mortes, e nenhuma linha sobre quem morreu
Cada unidade dessa contagem é uma pessoa que morreu. O balanço não traz idade, cor, gênero, arma usada, dia, hora nem cidade de nenhuma delas, e não apresenta recorte de perfil algum — nem para 2024, nem para os anos com que se compara. Uma queda de 125 mortes é um resultado sobre pessoas, e o documento que a anuncia não permite saber quem eram nem quem deixou de estar entre elas.
Um balanço apresentado por quem é avaliado nele
Quem contou, quem divulgou e quem é avaliado pelo resultado são, aqui, a mesma administração. Isso não invalida o dado, mas precisa estar dito: não há no material nenhuma fonte independente de estatística criminal, nenhum estudo externo, nenhum instituto de pesquisa citado para conferir o número.
A explicação para a queda também é do próprio governo, e vem como atribuição, não como demonstração:
temos um programa que é o Estado Presente em Defesa da Vida, desde 2011, e que foi se aperfeiçoando. Nesses três mandatos já tivemos alguns secretários e vocês percebem que mesmo com as trocas, os números seguem melhorando, pois é um programa de todo o Governo. Chegamos ao final do ano e pela primeira vez na história encerramos o ano com menos de 900 homicídios. Em 2011, quando assumi pela primeira vez, tínhamos mais de 2 mil homicídios por ano e mais de 52 homicídios por 100 mil habitantes. Esse ano encerramos com menos de 900 e com 20 homicídios a cada 100 mil habitantes, um marco histórico
O governador dizia isso ao abrir a apresentação do resultado do ano, diante da imprensa. O material credita a queda ao programa e à reestruturação da área de segurança, e não apresenta evidência dessa relação — nenhuma avaliação, nenhuma comparação com lugares que não adotaram o mesmo desenho, nenhum indicador intermediário. Os números de 2011 que o governador cita, e que servem de ponto de partida da comparação, também não aparecem no corpo do balanço: existem apenas dentro da fala.
O coordenador do programa, o secretário de Estado de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc, descreveu a metodologia como clara e bem articulada — sem que o material a apresente em lugar nenhum. O secretário de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno, destacou investimentos em efetivo, tecnologia e equipamentos. Nenhum valor em reais aparece no balanço: não há orçamento, custo do programa, número de agentes contratados nem quantidade de equipamento comprado.
Ninguém de fora do governo é ouvido no material: não há pesquisador de segurança pública, parlamentar de oposição, entidade de defesa de direitos, familiar de vítima nem representante das corporações falando por conta própria. O documento é um comunicado de resultado, e é assim que precisa ser lido.
O que falta para 852 virar informação
- o critério de contagem: o que entra e o que não entra em cada uma das cinco palavras usadas;
- a data de fechamento dos dados e se eles podem ser revisados depois — o material chama de consolidados apenas o recorte por região;
- a série completa entre 1996 e 2024, que sustentaria a afirmação de melhor resultado; o texto entrega três pontos isolados, 2024, 2023 e 2011;
- a população usada para calcular a taxa de 20,8 por 100 mil, e a origem e o ano da média nacional de 24;
- o número de cada município, os nomes dos outros sete sem registro e a composição de cada região;
- os números do feminicídio, o único indicador que o governo admite ter piorado;
- qualquer cifra de custo, efetivo ou equipamento por trás do investimento citado;
- o perfil das 852 pessoas mortas.
O que veio depois da coletiva de 30 de dezembro
Este texto não apura nada sobre 2025 nem sobre 2026. O que existe aqui é o balanço apresentado no fim de 2024 e a conferência do que ele diz e do que deixa de dizer. Se os números foram revisados depois, e se os homicídios no Espírito Santo continuaram caindo ou voltaram a subir, este material não responde — e nenhum dado posterior foi consultado para escrevê-lo.
No acervo do portal há registros vizinhos, todos de outra data e de outro recorte. Nas semanas finais de dezembro de 2024, poucos dias antes desta coletiva, o Estado anunciou um reforço de policiamento para o período de veraneio, com efetivo extra e fiscalização em todo o Estado — anúncio anterior a este balanço, e que não se confunde com ele. Já em janeiro de 2025, dias depois desta publicação, uma delegacia especializada em crimes contra crianças e adolescentes divulgou o próprio balanço de 2024, aberto por inquérito e por prisão, num nível de detalhe que o balanço estadual de homicídios não traz. Meses mais tarde, já em maio de 2025, um curso de investigação de homicídios reuniu policiais civis no Estado — capacitação posterior a este resultado, e não parte dele.
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