O governador Renato Casagrande inaugurou na sexta-feira (31) o prédio administrativo do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo, o NOTAER, unidade ligada à Secretaria da Casa Militar (SCM), e incorporou à frota do Núcleo um helicóptero H130, da linha Airbus. A nova sede do NOTAER está pronta e a aeronave já foi entregue — mas as outras duas obras anunciadas no mesmo pacote ainda não terminaram. A ampliação do hangar de aeronaves e a reforma e ampliação do pátio aparecem na nota oficial como obras em andamento, com entrega prevista para o segundo semestre daquele mesmo ano.
É uma distinção que muda o que o leitor pode esperar. Quem lê o anúncio corrido sai com a impressão de que o conjunto todo foi entregue de uma vez. Não foi: no mesmo evento havia estrutura pronta, aeronave incorporada, veículos entregues e canteiro de obra aberto — quatro situações diferentes, apresentadas lado a lado.
A nova sede do NOTAER e o resto do pacote, item por item
Separando o que o material oficial afirma sobre cada item, e em que estágio cada um estava no dia do evento:
- Prédio administrativo do NOTAER — ENTREGUE. Foi o que se inaugurou. O material não informa o valor isolado da construção.
- Helicóptero H130 — INCORPORADO À FROTA. Já entregue. O material não informa quanto custou, quando foi comprado nem por qual modalidade.
- Ampliação do hangar de aeronaves — EM ANDAMENTO. Obra aberta, sem conclusão declarada.
- Reforma e ampliação do pátio — EM ANDAMENTO. Também sem conclusão declarada. Para essas duas obras, e só para elas, a nota fala em entrega no segundo semestre.
- Três ambulâncias de suporte avançado do SAMU 192 — ENTREGUES. Estágio de entrega, mas de outra origem: os veículos foram remetidos ao Estado pelo Ministério da Saúde, por meio de Termo de Doação com a Secretaria da Saúde (Sesa), no valor de R$ 867 mil.
O nome do Núcleo aparece em quatro desses cinco itens, em dois estágios opostos. Quem soma sem separar conta quatro entregas onde havia duas, e trata canteiro de obra como estrutura pronta.
As cifras do dia não se somam, e a maior não é obra concluída
Três valores diferentes aparecem no anúncio, e cada um responde a uma pergunta distinta. Nenhum deles pode ser somado aos outros, porque não cobrem o mesmo período nem o mesmo pagador:
- R$ 7,5 milhões — apresentado como investimento total ligado às duas obras que seguem em execução, o hangar e o pátio. A redação do material não deixa claro se essa cifra cobre também o prédio já entregue. É a maior cifra do dia, e não corresponde a nada concluído.
- Mais de R$ 60 milhões — valor citado pelo secretário-chefe da Casa Militar, coronel Jocarly Aguiar, como o que o Núcleo recebeu em investimentos nos últimos anos. É um acumulado retrospectivo, não dinheiro anunciado naquela sexta-feira, e o material não abre o período nem os itens que o compõem.
- R$ 867 mil — valor das três ambulâncias, atribuído a doação federal, não a gasto do Estado.
O que é o NOTAER, segundo a própria nota oficial
A sigla raramente vem explicada, e o material a explica pela metade. NOTAER é o Núcleo de Operações e Transporte Aéreo, vinculado à Secretaria da Casa Militar, com 33 anos de atividade. É a estrutura que opera as aeronaves do Governo do Estado em três frentes declaradas: Segurança Pública, Voos Aeromédicos e Defesa Civil, em todo o território capixaba. A equipe citada é formada por pilotos, mecânicos e operadores aerotáticos, e a frota já vinha empregando os modelos Esquilo e H125 há mais de três décadas.
A obra inaugurada existe porque a estrutura física ficou para trás da frota. A explicação é do próprio secretário-chefe da Casa Militar:
Ao longo das últimas décadas foram adquiridas novas aeronaves, no entanto, a estrutura predial se manteve praticamente a mesma, não comportando a complexidade do serviço.
A avaliação é do coronel Jocarly Aguiar, secretário-chefe da Casa Militar.
Aí termina o que o material informa. Ele não diz onde fica a nova sede — nenhum município aparece no texto oficial —, não diz quantas aeronaves o Núcleo tem hoje, não descreve como um serviço aéreo se aciona nem quem pode acionar, e não informa quantos profissionais trabalham na unidade. Para emergência médica, o número que aparece no próprio material é o do SAMU, o 192.
O helicóptero H130, e o apelido que aparece sem aviso
A nova aeronave é descrita pelo material oficial como um helicóptero monoturbina leve de última geração, cuja lógica de operação seria parecida com a dos modelos já usados pelo Núcleo — o que, ainda segundo o material, reduz o tempo de adaptação de quem já pilota e mantém os equipamentos. A capacidade declarada é de cinco passageiros e dois pilotos. O que essas características mudam na prática do resgate ou da operação policial aérea, o material não explica, e não há técnico de fora do governo no texto para dizer.
Um detalhe de redação vale registro: mais adiante o mesmo texto passa a chamar a aeronave de Harpia 9, sem antes informar ao leitor que esse é o nome ou o indicativo dado ao helicóptero. Quem lê pela primeira vez encontra um segundo aparelho onde há um só.
A nova aeronave vai reforçar a frota e deve ser mais utilizada no transporte de pacientes e na captação de órgãos, trazendo mais agilidade e ajudando a salvar vidas.
A afirmação é do governador Renato Casagrande.
Capacidade não é atendimento a mais
Os números do anúncio descrevem capacidade instalada, e capacidade não é o mesmo que ganho de atendimento. Cinco passageiros e dois pilotos é o que cabe na aeronave, não missão adicional. E o material não informa se o H130 soma-se à frota ou substitui um aparelho antigo — como o total de aeronaves nunca é dito, não há como saber se a capacidade de resposta cresceu, e em quanto.
O mesmo cuidado vale para o número mais concreto do texto. As 111 operações de salvamento citadas são do ano anterior ao evento, feitas com a frota que já existia. São o que já se fazia, não o que passa a ser feito.
Três ambulâncias: quem entrega no palco e quem pagou a conta
No mesmo evento foram entregues três ambulâncias de suporte avançado do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o SAMU 192. Aqui a distinção importa: quem entregou não é quem pagou. A origem está no próprio material: as três, avaliadas em R$ 867 mil, chegaram ao Estado como doação federal formalizada entre o Ministério da Saúde e a Sesa, e integram a renovação de frota feita ao longo do ano anterior — ou seja, não são compra nova daquele dia.
Cada veículo, informa o material, conta com ressuscitador manual, circuito de ventilação mecânica, monitor-desfibrilador, cardioversor e outros equipamentos voltados a pacientes em situação mais grave. Não há informação sobre para quais bases ou municípios os três veículos foram destinados, nem sobre se eles substituem ambulâncias antigas ou ampliam a frota.
Em todo o ano passado, foram realizadas muitas operações de transporte de órgãos junto com o NOTAER e ainda 111 operações de salvamento do Samu utilizando as aeronaves.
O balanço é do secretário de Estado da Saúde, Tyago Hoffmann. Note-se que a mesma frase quantifica com precisão os salvamentos e deixa o transporte de órgãos apenas como muitas operações, sem número.
O que o material não informa
- O endereço ou o município da nova sede do NOTAER.
- O custo isolado do prédio inaugurado.
- O preço do helicóptero, a data da compra e a forma de contratação.
- Se os R$ 7,5 milhões cobrem apenas hangar e pátio ou também a sede já entregue.
- Quantas aeronaves compõem a frota, e se a nova soma ou substitui.
- Quantas missões o Núcleo cumpre por ano no total, e quantas foram de transporte de órgãos.
- O que compõe os mais de R$ 60 milhões investidos nos últimos anos e a que período se referem.
- Se as obras do hangar e do pátio foram concluídas no prazo anunciado.
- Para onde foram as três ambulâncias doadas.
Um lado só: o anúncio vem de quem executa e de quem paga
Todo o material que sustenta esta matéria é comunicação oficial do Governo do Estado, e as três falas são de integrantes do próprio governo: o governador, o secretário-chefe da Casa Militar e o secretário de Estado da Saúde. Não há morador ou usuário do serviço, não há especialista independente em operação aérea, não há voz da oposição e não há manifestação do órgão federal que doou as ambulâncias sobre a destinação delas.
Ausência de crítica no material oficial não é consenso, e o anúncio de uma obra pelo órgão que a executa e a paga é ponto de partida da apuração, não o seu fim. As obras do hangar e do pátio seguem como a parte a cobrar: enquanto não houver entrega declarada, o que existe ali é canteiro.
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