Parque Cultural Casa do Governador: a programação de 2025

O Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha, teve sua agenda anual apresentada em 9 de abril de 2025, numa cerimônia com o governador Renato Casagrande e o pensador e ativista indígena Ailton Krenak. Quem apresentou a agenda foi a Secretaria da Cultura (Secult) do Governo do Estado, ao lado do Instituto ArteCidadania, com a promessa de mais de 750 atividades gratuitas ao longo daquele ano. Fase: o que foi divulgado ali é o calendário de 2025, e esse ano já se encerrou. As datas reunidas a seguir explicam o que o espaço ofereceu e como ele funciona — não são convite para eventos que ainda vão acontecer.

A distinção não é preciosismo. O material de divulgação foi escrito no futuro, e texto no futuro envelhece mal: quem lê hoje uma promessa de estreia pode sair de casa atrás de atração encerrada há mais de um ano. Do anúncio, o que continua descrevendo o espaço é a parte estrutural — gratuidade, horário de funcionamento, bairro, canal de retirada de ingresso e o formato das visitas guiadas. O restante era plano de execução: obra de acesso, sinalização nova, catálogo do acervo, compra de esculturas. Anúncio de calendário não é entrega de calendário, e o material do Governo do Estado descreve intenção, não resultado.

O que o anúncio de abril de 2025 colocou no calendário

O pacote apresentado misturava atividades de naturezas bem distintas, do show ao curso de formação de professor. Em números, era este o desenho anunciado para o ano:

  • Mais de 750 atividades previstas para 2025, entre espetáculos, oficinas, cursos, visitas ao acervo de esculturas e exposições;
  • expectativa de receber mais de 120 mil visitantes ao longo do ano, num terreno de 93 mil metros quadrados;
  • acervo de 32 obras, a ser ampliado com a compra de cinco novas peças destinadas ao Bosque de Esculturas;
  • 12 edições de um programa quinzenal gravado no parque e levado ao ar aos domingos, em TV aberta, pela TV Educativa do Espírito Santo, com shows e entrevistas aos artistas;
  • quatro edições mensais do talk-show De Conversa em Conversa, de abril a julho, com curadoria de Julio Diniz, alternando música, leitura e conversa;
  • o festival Parque Aberto duas vezes por mês aos domingos, com cinco atividades por edição, subindo para seis e ganhando também o sábado a partir de junho;
  • abertura dos Ciclos de Formação de Educadores da Escola Viva de Artes (EVA) em 24 de abril de 2025;
  • seminários semestrais, o primeiro deles em maio;
  • o primeiro catálogo do acervo de esculturas e uma galeria para exposições temporárias, esta última na sala que servia de gabinete do governador, segundo o próprio Casagrande;
  • obras de acesso: troca do muro de pedra por um gradil e uma nova entrada, a partir de projeto arquitetônico da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), além de nova sinalização interna.

Cada edição do festival de domingo, segundo a descrição divulgada, reunia duas atrações artísticas, a feira de economia criativa Feira Curva com empreendedores capixabas, atividades de corpo com aulas e vivências, visita ao acervo com a equipe de educadores e oficina criativa.

Ingresso, horário e visita no Parque Cultural Casa do Governador

Toda a programação do espaço é gratuita. Gratuito, porém, não significa entrar sem ingresso: a retirada é feita on-line, pela plataforma Inti, na página de ingressos do parque. É ali, e não no material de divulgação, que se confere quais atividades estão com retirada aberta em determinada semana.

Os horários informados no anúncio são estes:

  • Portões abertos: terça, quarta, quinta, sexta e sábado, entre 8h e 17h; no domingo o fechamento é mais cedo, às 15h;
  • Visita mediada: às 15h30 nos dias de quarta até sábado; domingo e feriado, às 10h;
  • Grupo com agendamento: em dia útil, quarta, quinta ou sexta, em três horários — 8h30, 10h30 e 13h30.

Vale traduzir o termo que aparece em quase toda a agenda: visita mediada é o percurso acompanhado por um educador do próprio espaço, que apresenta as obras e conduz a conversa com o grupo — diferente da visita livre, em que o público circula por conta própria. É o formato usado tanto no atendimento a escolas quanto na programação de fim de semana.

O endereço é o da Residência Oficial do Governo do Estado, na Praia da Costa, em Vila Velha, aberta à visitação em maio de 2022. A agenda se organiza em três eixos declarados — arte, sustentabilidade e educação — e o Governo do Estado apresenta o local como a maior galeria a céu aberto do Espírito Santo, somando obras fixas e mostras temporárias.

Desnaturada: três dias de maio de 2025 com curadoria de Ailton Krenak

O destaque do anúncio era o seminário Desnaturada: Chamado Ancestral, marcado para 14, 15 e 16 de maio de 2025, no Bosque de Esculturas. O evento já foi realizado — a abertura está registrada no relato do primeiro dia do ciclo no parque, com o que foi discutido ali.

Eram 500 ingressos gratuitos por dia, com inscrição aberta a partir da quinta-feira, 10 de abril de 2025, pelo site. A proposta reunia oficinas, vivências, debates, apresentações musicais e jogos indígenas, num encontro que aproximava cientistas de artistas e de pensadores indígenas e quilombolas. Os nomes divulgados como convidados, além do curador, eram Sidarta Ribeiro, Fabio Scaran e Nuriti Bensusan. Era a segunda edição: a primeira ocorreu no Ceará, em 2023.

O nome do ciclo aponta para a perda de naturalidade da vida no planeta, e a proposta era debater o que permitiria devolver ancestralidade à existência humana. O curador explicou o recorte assim:

O planeta é um único organismo. Quando a gente convoca a ideia de falar dessa natureza, e usando o termo desnaturada, é uma chamada para o afastamento que as nossas práticas e as nossas experiências, inclusive culturais, produziram ao longo de todo período moderno, desde a industrialização.

A definição é de Ailton Krenak, curador do seminário.

Ter Ailton Krenak com a gente nessa nova fase do Parque Cultural, trazendo de forma tão especial a segunda edição do ciclo Desnaturada, tem um peso muito especial.

A avaliação é do secretário de Estado da Cultura, Fabrício Noronha.

Quem administra o parque e quem banca a programação

A gestão do Parque Cultural Casa do Governador não é feita diretamente pelo Governo do Estado. Está a cargo do Instituto ArteCidadania, uma organização da sociedade civil escolhida por chamamento público realizado em 2024. Chamamento público é o processo em que o poder público abre inscrição para que entidades sem fins lucrativos apresentem propostas e disputem em condições conhecidas de antemão a execução de um serviço — no lugar de escolher a dedo quem vai administrar. O material não informa quantas entidades concorreram, nem por quanto tempo vale a parceria.

Na cerimônia, o governador tratou a abertura do espaço como decisão de política cultural:

Tomamos a decisão de compartilhar esse espaço com a sociedade. Um espaço maravilhoso em que a população tinha curiosidade no que tinha atrás desses muros. Poder apresentar uma programação com diversas atividades culturais é uma grande alegria.

A declaração é do governador Renato Casagrande, que também comparou o estágio atual ao dos primeiros anos:

Iniciamos a gestão do Parque Cultural de forma amadora, mas agora estamos profissionalizando.

Pelo lado de quem passou a administrar, o compromisso anunciado foi de alcance:

A missão é ampliar o impacto que o espaço tem na vida das pessoas, oferecendo uma programação inclusiva, acessível e transformadora.

A frase é do diretor do Instituto ArteCidadania, Sérgio Sá Leitão.

O custeio da agenda vem de patrocínio privado, e é o próprio Governo do Estado quem detalha as cotas: patrocínio ouro da EDP e patrocínio prata do Instituto Cultural Vale, cujo aporte passa pela Lei Rouanet, do Ministério da Cultura (Governo Federal), além do patrocínio prata da ArcelorMittal. A Lei Rouanet é o mecanismo federal pelo qual projetos culturais previamente aprovados podem captar patrocínio de empresas com incentivo fiscal; o material não traz o número do projeto, o valor aprovado nem o quanto cada cota representa — e também não explica o que diferencia uma cota ouro de uma cota prata. João Bosco Reis da Silva, que dirige a área de Sustentabilidade e Relações Institucionais da ArcelorMittal, associou o apoio aos 41 anos de presença da empresa no Espírito Santo. Dominic Schmal, à frente da área de ESG da EDP na América do Sul, e Hugo Barreto, que preside o Instituto Cultural Vale, também enviaram declarações institucionais sobre suas estratégias de investimento em cultura, sem informação nova sobre a agenda em si.

Do anúncio ao que o calendário de 2025 confirmou

Parte do que foi prometido em abril de 2025 deixou rastro público ao longo do ano, e é isso que separa promessa de execução:

  • Seminário: o ciclo com curadoria de Krenak aconteceu em maio, nas datas anunciadas;
  • Acervo: a ampliação saiu do papel ainda em maio, quando o parque recebeu a escultura de José Carlos Vilar, uma das peças incorporadas ao bosque;
  • Parque Aberto aos sábados: a mudança prometida para junho se confirmou no segundo semestre, com o festival ocupando sábado e domingo em julho;
  • Espetáculos: a agenda musical seguiu ao longo do ano, como no show do Mundo Livre S/A, em 29 de junho de 2025.

Já os itens de infraestrutura e de documentação do acervo — o gradil no lugar do muro, a nova entrada com projeto da Ufes, a sinalização unificada e o primeiro catálogo das esculturas — foram anunciados sem prazo, sem valor e sem indicação de quem executa. Nada no material analisado confirma se foram concluídos.

O que o material oficial não informa

Uma agenda cultural é lida como serviço, e é pela ausência que ela costuma falhar. O que o anúncio do Governo do Estado deixou de fora:

  • Classificação etária. Nenhuma atividade — seminário, show, oficina ou visita — tem faixa etária informada;
  • Endereço completo e como chegar. O material cita apenas o bairro Praia da Costa, em Vila Velha, e não traz rua, número, ponto de referência, linha de ônibus ou informação sobre estacionamento;
  • Acessibilidade. Não há menção a interpretação em Libras, audiodescrição, piso acessível ou atendimento a pessoas com deficiência, ainda que a programação seja descrita como inclusiva e acessível;
  • Regras do ingresso gratuito. Não se informa se há limite por pessoa, até quando o ingresso pode ser retirado, se sobra vaga na hora nem o que acontece com quem reserva e não comparece;
  • Segunda-feira. O horário divulgado vai de terça a domingo; o material não diz o que ocorre às segundas;
  • Datas exatas. O talk-show aparece como quatro edições entre abril e julho, sem os dias e sem os convidados; o festival de domingo, sem o calendário das edições; o seminário, sem horário de início;
  • Dinheiro. Não há valor do contrato de gestão, do patrocínio de cada cota nem do custo das obras previstas;
  • Plano B. Tratando-se de programação ao ar livre, o material não diz o que acontece em caso de chuva.

Vale registrar, ainda, que o material de origem é institucional: nele falam o Governo do Estado, a entidade que administra o espaço e as empresas que patrocinam. Não há avaliação independente, manifestação de artistas de fora do projeto nem qualquer contraponto sobre o uso da residência oficial ou sobre o modelo de gestão por organização da sociedade civil. Ausência de crítica num documento oficial não é sinal de consenso: é apenas o formato do documento.

O vocabulário do anúncio, traduzido

Parte do que dificulta a leitura de uma agenda oficial é o vocabulário de bastidor, usado sem explicação. Os termos que aparecem no material do Parque Cultural Casa do Governador significam o seguinte:

  • Curadoria. É quem escolhe e organiza o conteúdo: define convidados, define a ordem e dá unidade ao conjunto. No seminário de maio, essa função coube a Ailton Krenak; no talk-show, a Julio Diniz;
  • Bosque de Esculturas. A parte arborizada do terreno onde ficam as obras tridimensionais do acervo, ao ar livre — foi ali que o seminário foi montado e para onde iriam as cinco peças novas;
  • Escola Viva de Artes (EVA). O braço de formação do espaço, que reúne curso para educadores, oficina, roda de conversa, palestra, visita mediada, o programa voltado aos vizinhos do parque e projetos ambientais;
  • Feira Curva. A feira de empreendedores capixabas de economia criativa que compõe cada edição do festival de domingo;
  • Cota de patrocínio. Faixa de contribuição financeira, com contrapartidas de marca proporcionais ao valor. O anúncio usa ouro e prata sem dizer a que valores correspondem.

O que continua valendo hoje

Para quem pretende visitar o Parque Cultural Casa do Governador agora, o que sobrevive do anúncio é o funcionamento do espaço: gratuidade, horários de terça a domingo, visitas mediadas em horário fixo, agendamento de grupo em dias úteis e retirada de ingresso pela plataforma indicada pelo Governo do Estado. Toda atração com data — o seminário de maio, o talk-show de abril a julho, as edições do festival — pertence ao calendário de 2025 e já se encerrou. A agenda vigente precisa ser conferida na plataforma de ingressos, único canal de programação que o material oficial indicou.

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