Encontrar cristais no exame de urina do cão ou do gato não significa que o animal tenha um cálculo urinário — nem que vá desenvolver um. A eliminação de cristais na urina, chamada de cristalúria, e a formação de pedras no trato urinário, a urolitíase, são condições diferentes, e confundir uma com a outra é o que leva muitos tutores a tratar um animal que não precisa de tratamento algum. Quando o cálculo existe, porém, a decisão entre dissolver com dieta ou remover com cirurgia não depende do palpite de ninguém: depende de saber de que mineral o cálculo é feito, e principalmente do que há no centro dele.
Cristal na urina não é pedra no trato urinário
O termo urolitíase vem do grego: uro remete a urina e lithos significa pedra. Corresponde, portanto, à formação de cálculos no trato urinário. Já o urólito — o nome técnico dessa pedra — é definido como a agregação de cristais e matriz orgânica que se forma em um ou mais pontos do trato urinário quando a urina fica supersaturada de substâncias cristalogênicas. Um mesmo cálculo pode ser composto por um ou por vários tipos de minerais.
A distinção é o ponto central do material. A cristalúria não é sinônimo de formação de urólitos e, sozinha, também não é evidência irrefutável de tendência a formar cálculos. Em animais com trato urinário anatômica e funcionalmente normal, a presença de cristais costuma ser inofensiva, clinicamente irrelevante e não justifica tratamento. É o oposto do reflexo comum de mudar a alimentação assim que o laudo cita cristais: iniciar tratamento precipitado pode prejudicar mais do que ajudar.
Estruvita lidera os levantamentos brasileiros em cães e em gatos
Vários tipos de urólito aparecem em cães e gatos: estruvita, oxalato de cálcio, urato, xantina, cistina e sílica, entre outros. Dois levantamentos brasileiros dão a proporção de cada um.
- Em estudo conduzido na Universidade de São Paulo com cães, a estruvita foi o tipo mais frequente, com 47,6% dos casos, seguida do oxalato de cálcio, com 37,9%.
- Em gatos, pesquisa realizada na Universidade Federal de Goiás também apontou predominância da estruvita, com 47%, seguida do urato, com 38,3%, e do oxalato de cálcio, com 14,7%.
A informação tem consequência prática: como a estratégia nutricional muda conforme o mineral, saber qual tipo é mais provável não substitui saber qual tipo aquele animal tem.
Por que não existe uma causa única
O desenvolvimento da urolitíase é considerado multifatorial. Segundo o material, podem influenciar a nutrição, os medicamentos, as infecções, o manejo, a genética, características anatômicas, o sexo, a idade e alterações metabólicas. Nenhum desses fatores explica sozinho o quadro, e é por isso que a mesma casa, com a mesma comida, pode ter um animal afetado e outro não. A consequência é direta: sem diagnóstico preciso, não há como definir conduta.
O núcleo do cálculo é o que decide entre dieta e cirurgia
Um urólito não é uma peça maciça e uniforme. Ele é formado por camadas — núcleo, pedra, parede e cristais de superfície. O núcleo, na região central, é o ponto onde o cálculo começou a se formar, e é ele que orienta o tratamento e a prevenção. Conhecer a composição mineral de cada camada é o que permite definir se o caso é de dissolução nutricional ou de remoção cirúrgica.
Aí está a diferença entre dois exames que, para o tutor, têm nome parecido. A análise quantitativa feita por maceração do cálculo revela quais minerais estão presentes, mas não diferencia as camadas. Em cálculos mistos ou compostos, esse método pode ser pouco útil justamente porque não identifica a composição específica do núcleo. Por isso a análise qualitativa e quantitativa por camadas é apontada como padrão-ouro para orientar a conduta clínica. Na prática, é o exame que responde à pergunta que interessa: esse cálculo pode ser dissolvido ou precisa sair.
O que o material não responde — e o que fazer enquanto isso
O texto de referência trata de classificação, diagnóstico laboratorial e escolha de conduta. Ele não descreve sinais clínicos, sintomas de alerta nem quadros de emergência, e não indica dieta, ração ou medicamento para nenhum caso específico — a estratégia nutricional depende do tipo de urólito, e o tipo só se conhece pelo exame.
Por isso, nada do que está descrito acima substitui a avaliação presencial. Alteração no hábito de urinar do animal — inclusive esforço para urinar, ida repetida à caixa de areia ou ausência de urina — é motivo para procurar atendimento veterinário imediatamente, sem esperar resultado de exame e sem testar mudança de alimentação por conta própria. Dificuldade urinária em cão ou gato é situação para ser avaliada com urgência por um profissional, não em casa.
Fonte: Lulich JP et al. – Canine and Feline Urolithiasis, Wiley
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