As festas de fim de ano mudam a casa inteira: mais gente circulando, mais barulho, horários fora do lugar e mesa cheia de comida que o resto do ano não aparece. Para cães e gatos, essa combinação não é festa — é uma sequência de riscos concretos que costuma terminar em intoxicação, crise de ansiedade ou acidente doméstico. A médica-veterinária Luciana Oliveira, com doutorado na área de nutrição pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal e integrante do Colégio Brasileiro de Nutrição Animal (CBNA) e da Sociedade Brasileira de Nutrição e Nutrologia de Cães e Gatos (SBNutripet), aponta o caminho: prevenir antes, porque quase tudo o que machuca nessa época é evitável.
Os alimentos da ceia que fazem mal a cães e gatos
A lista dos itens típicos das comemorações que podem causar dano sério aos animais é curta e vale decorar:
- Chocolate, em qualquer versão;
- Uvas e uvas-passas, comuns em farofas, arroz e sobremesas;
- Produtos temperados com cebola ou alho — o que inclui praticamente todo prato salgado da ceia;
- Preparações gordurosas, como pele de ave, molhos e frituras;
- Ossos cozidos.
esses itens contêm substâncias capazes de provocar alterações importantes no organismo
A explicação é da médica-veterinária Luciana Oliveira. Os efeitos descritos não são leves: os alimentos gordurosos podem desencadear vômitos, diarreia e até pancreatite, e os ossos assados favorecem fraturas dentárias, obstruções e perfurações.
O detalhe que passa despercebido é o tempero. Um pedaço de carne branca aparentemente inofensivo pode ter sido preparado com cebola ou alho, e a ave assada carrega gordura em quantidade bem maior que a ração do dia a dia. Por isso a recomendação é objetiva: para incluir o animal no clima da data, frutas, legumes e carnes magras cozidas sem tempero são as alternativas seguras.
Vale lembrar que a exposição também acontece longe da mesa. Sobras deixadas ao alcance, sacos de lixo com restos da ceia e pratos esquecidos no chão são as mesmas comidas em outro formato.
Fogos de artifício: o barulho que causa medo profundo
Ruídos inesperados podem causar medo profundo em cães e gatos. Isso não é exagero de tutor nem manha do animal: é uma reação a um estímulo que ele não escolheu, não entende e não tem como evitar. A orientação para reduzir o impacto é criar um ambiente silencioso, com pouca movimentação e sons suaves.
Quando a sensibilidade é acentuada, o conselho é buscar orientação profissional — e buscar cedo, não na noite da virada.
Em animais que apresentam ansiedade intensa, o ideal é iniciar o manejo com antecedência para preparar o tutor e o próprio pet
A avaliação é da médica-veterinária Luciana Oliveira.
Quando o estresse vira emergência
Há sinais que indicam que a situação passou do desconforto e exige acompanhamento veterinário:
- tremores;
- vocalização persistente;
- tentativas de se esconder;
- vômitos;
- convulsões.
Tremores intensos, vocalização exagerada, vômitos, convulsões e qualquer resposta desproporcional ao estímulo exigem atendimento imediato. Diante de qualquer um desses quadros — ou da suspeita de que o animal comeu algo da lista acima —, o caminho é procurar atendimento veterinário de urgência, sem esperar para ver se melhora sozinho.
Um aviso necessário: o material de orientação não detalha nenhuma conduta a ser feita em casa nessas horas. Não há indicação de medicamento, de dose, de chá, de leite ou de qualquer manobra para fazer o animal vomitar. Tentar resolver por conta própria pode agravar o quadro e atrasa o único passo que ajuda de verdade, que é chegar ao profissional.
Decoração, visitas e crianças
A árvore e os enfeites são novidade dentro do território do animal, e novidade se investiga com boca e patas. Cabos, luzes, laços e plantas decorativas podem causar enroscamentos, choques ou intoxicação.
quanto mais cuidado houver no momento de montar a decoração, menor o risco de acidentes
O reforço é da médica-veterinária Luciana Oliveira. Na prática, isso significa pensar no que fica ao alcance já na hora de montar — e não depois do primeiro susto.
As visitas são o outro ponto sensível. Ambientes com muita circulação podem ser desconfortáveis, principalmente para animais sensíveis, e a chegada de pessoas desconhecidas — especialmente crianças — costuma aumentar o nível de estresse. Com a casa cheia, é comum que convidados ofereçam comida por conta própria, o que favorece intoxicações e distúrbios gastrointestinais. Avisar os convidados antes, em voz alta e sem constrangimento, resolve boa parte do problema.
Rotina preservada é o que acalma
Mudanças bruscas no dia a dia podem provocar ansiedade. Sempre que possível, devem ser preservados os horários de alimentação, descanso e passeios, mesmo com a agenda da família virada do avesso.
Para animais muito ativos, aumentar as atividades físicas ajuda a liberar energia, melhorar o sono e diminuir a tensão — estratégia útil especialmente nos dias de maior movimentação ou barulho. Um passeio mais longo antes da noite mais agitada trabalha a favor do descanso.
Nenhuma dessas medidas depende de compra, de equipamento ou de decisão de última hora. Dependem de antecedência: montar a decoração pensando no animal, combinar com a família o que ninguém oferece ao pet, separar o cômodo mais silencioso da casa e ter em mãos, antes da data, a referência de um atendimento veterinário de urgência que funcione em feriado.
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