NRF 2026: o que a feira de varejo deixa para a loja pequena

A maior feira de varejo do mundo já passou, e o que interessa a quem toca uma loja não é o tamanho do evento. A NRF 2026 reuniu em Nova York cerca de 40 mil participantes de 98 países, representantes de 19 mil empresas e mais de 6 mil marcas, em mais de 175 sessões. O que sobra de aproveitável é o conjunto de dados e de práticas apresentado ali — e a parte dele que não exige orçamento de multinacional para ser testada no balcão.

Abaixo, tema por tema, o que foi mostrado de concreto na edição de 2026, o número que sustenta cada ponto e o que ele muda na rotina de um comércio pequeno.

A loja física voltou ao centro, agora com dado para provar

Durante anos o mercado anunciou o fim do ponto de venda. Os números levados à feira apontam o contrário: segundo a Mintel, sete de cada dez libras (£7 de cada £10) gastas no varejo em 2025 passaram por uma loja física. Depois de um período de retração, 2025 marcou a retomada dos investimentos em varejo físico, sobretudo em ruas e locais de alto tráfego.

Mudou o papel da loja, não a sua importância. Pesquisa da Salesforce mostrou que 59% dos varejistas físicos já oferecem serviços dentro do ponto, como customização e reparos, e que 46% reservam espaço para eventos e encontros da comunidade — de aulas de culinária a grupos de bairro. Na prática, o que se vende passa a ser também o serviço em volta do produto: a loja que apenas registra a venda disputa preço com a internet.

Inteligência artificial cobrada em aplicação, não em promessa

A edição estreou um palco dedicado só a inteligência artificial, robótica e tecnologias emergentes, com sessões sobre uso concreto em personalização, previsão de demanda e atendimento. A projeção da Gartner apresentada no evento é de que os gastos de tecnologia da informação no varejo alcancem US$ 240,7 bilhões até 2026, empurrados por pressão de margem e necessidade de eficiência.

“Há muitos relatórios mostrando que varejistas que começaram a testar IA estão muito à frente daqueles que estão esperando. Nosso objetivo é fazê-los se mover.”

A avaliação é de Andy Szanger, diretor de indústrias estratégicas da CDW.

Testar, para uma loja pequena, não significa comprar sistema caro. Significa escolher uma tarefa repetitiva e entregá-la à ferramenta: responder sempre a mesma dúvida de horário e entrega, estimar quanto pedir do item que mais gira, escrever a descrição de produto. O que a feira cobrou foi exatamente isso — sair da conversa sobre a tecnologia e usá-la em algo medível.

Vídeo ao vivo converte até dez vezes mais que a loja on-line comum

O comércio por vídeo foi um dos avanços mais destacados, puxado pelas transmissões do comércio asiático, pelo TikTok Shop e pela consolidação do vídeo como motor de venda nas redes sociais. As taxas de conversão em compras por transmissão ao vivo ficam entre 10% e 30%, contra 1% a 3% do e-commerce tradicional. O mercado global do formato deve sair de US$ 19,86 bilhões em 2025 para US$ 258,76 bilhões até 2034, e a Geração Z tem de 1,6 a 1,7 vez mais probabilidade de comprar por uma transmissão.

A diferença de conversão explica o entusiasmo: na transmissão, quem assiste tira a dúvida na hora, vê o produto em uso e fecha a compra sem sair dali — atritos que uma página de catálogo parada não resolve.

Retail media: o varejo virou vendedor de anúncio e superou a TV

Retail media é a venda de espaço publicitário pelo próprio varejista — no site, no aplicativo, na tela dentro da loja, na lista de e-mails — para as marcas que já vendem ali. Deixou de ser experimento: o setor deve gerar US$ 179,5 bilhões no mundo em 2025, alta de 15,4% em um ano, superando pela primeira vez a receita total da televisão e respondendo por 15,9% de toda a publicidade.

A concentração é alta. A Amazon mantém cerca de 75% de participação de mercado, com receita publicitária estimada em US$ 60 bilhões em 2025, e o Walmart Connect cresceu 31,6% em 2024. Kroger, CVS, Target e Costco também converteram suas propriedades digitais em redes de anúncio. Mais de 80% dos anunciantes digitais já reservam verba para o formato. A programação reservou uma sessão inteira ao assunto, sob o título “What’s in Store for Retail Media Networks”.

Na loja pequena o equivalente existe em outra escala: vitrine, embalagem, tela do caixa e lista de clientes são espaço de exposição — e é sobre eles que se negocia apoio com fornecedor.

Conquistar cliente novo ficou 40% mais caro entre 2023 e 2025

O custo de aquisição de cliente — quanto se gasta em publicidade e esforço para trazer um comprador novo — subiu cerca de 40% no e-commerce entre 2023 e 2025. Pesquisas apresentadas mostram que a maioria dos negócios de comércio eletrônico perde US$ 29 em média por cliente novo, já descontados marketing e devoluções, contra uma perda de US$ 9 em 2013: aumento de 222%.

Levantamento da Ecwid apontou que mais de 65% dos varejistas ouvidos viram esse custo subir, sendo 30% com alta significativa. A reação foi dividida: 45% aumentaram preços e mais da metade passou a priorizar a retenção de quem já compra. Esse é o ponto que independe de porte. Quem anota contato, data da última compra e o que a pessoa levou consegue chamá-la de volta sem pagar por anúncio; quem não anota recomeça do zero a cada mês.

Retirada na loja e pagamento rápido: o balcão vira ponto de entrega

Dados da Placer.ai mostraram que 73% dos compradores se movem entre canais antes de comprar, e 75% usam uma combinação de canais on-line e físicos, com jornadas que frequentemente envolvem três ou mais pontos de contato por compra. Quem transita entre canais gasta 1,5 vez mais por mês do que quem usa um canal só.

Daí a força do BOPIS — comprar pela internet e retirar na loja — e das entregas no mesmo dia. O Walmart testa as chamadas dark stores, pontos convertidos em centro de entrega local, que aceleram o envio e permitem retirada rápida. A Colliers projeta que o varejo baseado em lojas nos Estados Unidos cresça 1,5% em 2025, mantendo 76% de participação nas vendas totais.

Em meios de pagamento, a comparação foi favorável ao Brasil: o Pix mostrou que fluidez, escala e adoção em massa são possíveis sem transformar complexidade em sofisticação. No mundo, os sistemas de pagamento em tempo real caminham para 27,8% dos pagamentos eletrônicos e o modelo compre agora, pague depois deve movimentar US$ 450 bilhões até 2026. Nas lojas, mesas de caixa com etiqueta por radiofrequência já fecham pagamento em menos de um minuto.

Tecnologia acelera, mas é a equipe que entrega a experiência

Em meio à atenção dedicada à automação, a edição reservou sessões específicas sobre reter e desenvolver quem trabalha dentro da loja e sobre preservar a cultura da empresa diante de mudanças. O evento destacou que entregar experiência de cliente de próximo nível exige gente com conhecimento e suporte para ter sucesso — quem atende é quem transforma tecnologia em venda. O tema escolhido para a edição foi “The Next Now”.

O que dá para aplicar numa loja pequena

  • Dar à loja uma função além da venda: conserto, ajuste, montagem, oficina rápida. Foi o que 59% dos varejistas físicos passaram a oferecer dentro do ponto.
  • Manter uma lista de clientes com contato, data da última compra e o que foi levado. Com o custo de atrair gente nova 40% maior, chamar quem já comprou é o caminho mais barato.
  • Aceitar retirada no balcão para quem fecha pelas redes sociais: três em cada quatro compradores misturam canais na mesma jornada.
  • Testar vídeo ao vivo com o estoque que já existe, sem produção cara. A conversão apresentada para o formato vai de 10% a 30%.
  • Escolher uma tarefa só para a inteligência artificial, de preferência repetitiva, em vez de esperar pelo sistema completo.
  • Cuidar de quem atende: a experiência que diferencia o ponto físico depende de equipe treinada e que permaneça.

Vale lembrar o que esses números são. Os valores vêm de pesquisas de consultorias e de empresas de tecnologia citadas nas sessões, e boa parte deles é projeção — estimativa de mercado, não resultado fechado. Servem para indicar direção e ordem de grandeza, e é assim que devem entrar em qualquer decisão de compra ou de investimento na loja.

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