Evidência clínica: 70% dos veterinários já trocaram de produto — Direto Notícias

Evidência clínica: 70% dos veterinários já trocaram de produto

Sete em cada dez veterinários brasileiros já deixaram de usar um produto por não encontrar informação atualizada sobre como ele se comporta na rotina do consultório. O dado — 70% — vem de levantamento da consultoria VCM Advisors & Consulting e aparece em uma análise de mercado assinada por Adriano Souza, CEO do Grupo Animal Health e sócio líder de saúde animal da VCM Consulting. Para quem leva um cão ou um gato ao atendimento, o número tem um efeito prático: a evidência clínica que o profissional consegue reunir pesa na hora de decidir o que entra na receita, tanto quanto o material de divulgação do fabricante.

O que o número de 70% diz e o que ele não diz

O levantamento mede uma decisão de escolha e de prescrição, não a segurança dos produtos. Trocar de item por falta de evidência recente não significa que o anterior fizesse mal ao animal: significa que o profissional não reuniu informação suficiente sobre o desempenho daquele produto no dia a dia da clínica e preferiu outro caminho. É uma decisão de quem prescreve, tomada com base no que consegue verificar.

A análise descreve um efeito que o tutor não enxerga do lado de cá do balcão: produtos tecnicamente superiores podem ter baixa incorporação nos protocolos das clínicas, enquanto boa parte das decisões da indústria continua ancorada em volume de vendas, e não em uso real. Segundo o autor, o problema raramente está na formulação da estratégia; está nas bases de execução, como a maturidade dos canais de distribuição e a coerência entre o portfólio e o discurso técnico.

Perguntas para fazer antes de aceitar um tratamento

Nada disso substitui a orientação profissional: quem examina o animal e responde pela conduta é o médico-veterinário. Mas a consulta rende mais quando o tutor chega com perguntas. Estas cabem em quase todo atendimento:

  • Para que serve exatamente? Qual é o diagnóstico ou a suspeita que justifica esse produto neste caso.
  • O que se espera ver, e em quanto tempo? Qual sinal de melhora observar em casa e em que prazo o quadro deve ser reavaliado.
  • Existe outra opção? Se houver mais de uma alternativa para o mesmo problema, por que esta foi a escolhida.
  • Quais efeitos podem aparecer? O que é esperado, o que pede um telefonema no mesmo dia e o que pede retorno imediato.
  • Já usou em casos parecidos? A experiência do próprio profissional com animais de porte, idade ou condição semelhantes.
  • Dá para deixar por escrito? Nome do princípio ativo, dose, intervalo e duração registrados na receita, e não apenas combinados de viva-voz.
  • Interfere no que o animal já toma? Incluindo antipulgas, suplementos, ração terapêutica e medicação contínua.
  • E se não funcionar? Quando parar, quando voltar e o que anotar até lá.

Perguntar não é desconfiar do profissional. Boa parte dessas respostas já faz parte da conduta de quem atende, e anotá-las cria o registro que permite comparar o antes e o depois na próxima consulta.

Por que a evidência virou o centro da conversa

Nos últimos 15 anos, a veterinária tornou-se altamente técnica e especializada, em um cenário que a análise compara ao da medicina humana. Com essa mudança, a comunicação genérica de produto perdeu força diante de um público profissional que cobra prova de uso prático. O descompasso entre a estratégia das empresas e a realidade do consultório é apresentado como um risco observado em vários mercados — Estados Unidos, Europa, Japão e América Latina —, nos quais a inovação avança mais rápido do que a adoção no ponto em que o animal é atendido.

O paradoxo brasileiro

O Brasil aparece entre os maiores mercados pet do mundo, com crescimento consistente e profissionais de alto nível técnico. Ao mesmo tempo, a integração estruturada entre indústria e prática clínica é descrita como fragmentada e dominada por interações comerciais. Em mercados mais maduros, segundo a análise, existem conselhos consultivos que se reúnem com regularidade e fóruns permanentes em que as empresas ouvem quem atende. Aqui, esse canal é pontual, e o resultado apontado é um setor que investe e cresce, mas aprende pouco e devagar com o próprio mercado.

De onde vem o diagnóstico

Vale registrar quem assina a avaliação. Adriano Souza é CEO do Grupo Animal Health e sócio líder de saúde animal da VCM Consulting, ou seja, presta serviço às empresas do setor que ele analisa. As estimativas de ganho também são da própria casa: conforme análises da VCM, quando governança, gestão de portfólio e cadeia de suprimentos são tratadas de forma sistêmica, os ganhos superam 20%. É um número de consultoria sobre o efeito do próprio trabalho, e é assim que ele deve ser lido.

O desafio não é crescer — é crescer mantendo relevância onde as decisões acontecem.

A avaliação é de Adriano Souza, autor da análise.

Prova também pesa fora do consultório

A exigência de comprovação não aparece só na escolha de um produto. Em episódio distinto e sem relação com este, a mesma régua valeu para a conduta profissional: uma apuração terminou com denúncias contra médicos-veterinários invalidadas por falta de materialidade no Rio de Janeiro. Materialidade, nesse contexto, é a prova de que o fato ocorreu como descrito; sem ela, a acusação não se sustenta.

Para o tutor, a conclusão prática é curta. A decisão continua sendo de quem examina o animal, mas quem convive com o paciente todos os dias é a casa: anotar o que mudou, quando mudou e o que não mudou é a informação que falta com mais frequência na consulta seguinte.

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