A inscrição do Nossa Bolsa 2025 fechou no fim do dia 17 de janeiro de 2025 e nunca foi reaberta. O que segue é o registro do edital nº 18/2024, lançado em 18 de dezembro de 2024 pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) — a agência estadual que financia pesquisa e bolsas no Espírito Santo. Ele pôs em disputa mil bolsas integrais de graduação em faculdades particulares capixabas, com a mensalidade paga pelo Governo do Estado. Nenhuma dessas vagas está aberta hoje.
A janela foi curta: abriu às 9h de 03 de janeiro de 2025 e durou catorze dias. O programa, porém, não terminou com aquele edital — a própria Fapes descreve o Nossa Bolsa como uma seleção que se repete a cada ano, e o portal já registrou uma edição posterior, cujo resultado de primeira chamada foi remarcado por uma pane no sistema federal de consulta de notas. Quem quer disputar bolsa agora precisa procurar o edital em vigor, não este.
O que o Nossa Bolsa 2025 oferecia, em números
- Mil bolsas integrais, com 100% das mensalidades custeadas pelo Governo do Estado.
- 40 opções de curso, segundo o anúncio oficial.
- 29 instituições de ensino privadas, nenhuma delas nomeada no material.
- 14 municípios capixabas, também sem nomes divulgados.
- Aproximadamente R$ 46 milhões, verba do Fundo Estadual de Ciência e Tecnologia (Funcitec) e da Secretaria da Educação (Sedu).
- Graduações que, pela conta do próprio governo, duram em média cinco anos.
Duas coisas ficam de fora dessa contabilidade. A primeira: o anúncio não diz se os R$ 46 milhões cobrem um ano de mensalidades ou os cinco anos de curso das mil bolsas. A segunda: bolsa integral, ali, significa mensalidade paga — matrícula, taxas, material didático e estágio não são mencionados em nenhum momento.
A relação de cursos publicada não fechava
O aviso citou Medicina, Enfermagem, Pedagogia, Administração, Direito, Arquitetura e Urbanismo, Educação Física, Engenharias, Farmácia, Sistemas da Informação, Nutrição, Geografia, Publicidade e Propaganda e Jornalismo — e encerrou a enumeração com um e muito mais. Ou seja: das 40 opções declaradas, o material tornou públicas apenas algumas, e o leitor não tinha como saber quais faltavam sem abrir o edital.
Faltava também a distribuição. Nada no anúncio informa quantas das mil bolsas cabiam em cada curso, em cada uma das 29 faculdades ou em cada um dos 14 municípios. Para quem morava longe das cidades onde ficam as faculdades, essa era a informação que decidia se valia a pena concorrer.
Como a nota do Enem era usada
A seleção não tinha prova própria. Ela reaproveitava o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e o candidato podia escolher qualquer edição entre 2020 e 2024 — inclusive a mais recente, aplicada semanas antes, nos dois domingos de novembro de 2024, cujas regras de portão, horário e documento o portal registrou na época.
Os pisos divulgados eram dois: média global de 450 pontos nas provas objetivas e na redação, e nota mínima de 400 pontos na redação. Sobre renda, o corte era familiar per capita de até um salário mínimo e meio.
É aqui que o texto oficial fica ambíguo, e a ambiguidade importa para quem estava na faixa. O anúncio afirma que a seleção seria feita pela média global de 450 pontos, sem esclarecer se esse número era apenas o mínimo para entrar na disputa ou o critério de classificação entre os inscritos. Também não diz se a redação, cobrada à parte com 400 pontos, entrava no cálculo da média global — a frase a inclui, e o piso separado sugere o contrário. E o critério de desempate não aparece em lugar nenhum do comunicado.
Quem quisesse chegar preparado ao exame tinha, pela rede estadual, um curso preparatório gratuito: o Pré-Enem que a Secretaria da Educação abriu a estudantes da rede pública em fevereiro de 2025 — aviso posterior a este e igualmente com prazo já encerrado.
Cinco condições de escolaridade, e uma definição que cobre duas
O edital admitia cinco percursos escolares. Podia concorrer quem tivesse:
- cursado todo o Ensino Médio em escola pública localizada no Espírito Santo;
- cursado todo o Ensino Médio em instituição privada do Espírito Santo, sempre como bolsista integral da própria escola;
- dividido o Ensino Médio entre rede pública e instituição privada, e na parte privada como bolsista integral;
- concluído curso técnico em um dos Centros Estaduais de Educação Técnica (CEET) do Espírito Santo;
- cursado Ensino Médio e/ou curso técnico nas Escolas do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo.
Estavam fora duas situações: quem já havia sido beneficiário do Nossa Bolsa em edição anterior e quem já tinha concluído qualquer curso de graduação.
A lista das cinco condições não bate com a definição que o próprio material dá do programa mais abaixo. Ali, o Nossa Bolsa aparece como destinado a quem concluiu o Ensino Médio na rede pública ou em escola privada na condição de bolsista integral — dois caminhos. A quarta e a quinta condições acrescentam outros dois, e a quinta, referente às Escolas do Movimento de Educação Promocional, não repete a exigência de bolsa integral que a segunda e a terceira carregam. O anúncio não explica a diferença nem diz qual das duas redações prevalece.
A prioridade estava anunciada; o mecanismo, não
O processo, diz o material, priorizava dois grupos: quem mora em bairro classificado como de alto índice de vulnerabilidade social e quem se autodeclarasse afrodescendente no ato da inscrição. Por isso o formulário pedia o Código de Endereçamento Postal (CEP) — servia para checar se o endereço do candidato ficava em bairro atendido pelo Programa Estado Presente em Defesa da Vida.
O que o anúncio não informa é como a prioridade operava na prática: se havia percentual de vagas reservado, pontuação adicional, fila separada ou apenas critério de desempate. Nem publica a relação de bairros do Estado Presente, nem indica onde consultá-la. Um candidato não tinha, pelo texto, como saber de antemão se o próprio CEP contava a favor dele.
O que disseram os dois dirigentes
Rodrigo Varejão, diretor-geral da Fapes, descreveu o desenho do edital no momento em que ele foi lançado:
São mil vagas em instituições particulares de Ensino Superior, numa parceria entre a Fapes, a Secti [Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional], Sedu [Secretaria da Educação] e Sinepe [Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Estado do Espírito Santo]. Oportunidade para realizar a primeira graduação e, com isso, preparar os nossos capixabas para profissões que demandam uma formação qualificada. Estamos dando um destaque especial nesse edital a formações na área de Tecnologia, Engenharia e Saúde. De maneira geral, o potencial das vagas em cursos de alta empregabilidade
A fala está reproduzida como o Governo do Estado a publicou, inclusive a última frase, que fica sem verbo e sem fecho no material original. E o destaque anunciado para Tecnologia, Engenharia e Saúde aparece apenas como intenção: o comunicado não o converte em número de bolsas nem em regra do edital.
Bruno Lamas, secretário de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional, tratou do programa em termos gerais, sem citar cifra alguma:
Este programa transforma vidas ao oferecer oportunidades de acesso ao Ensino Superior para àqueles que não teriam condições de custear seus estudos. Estamos ampliando horizontes e construindo um futuro melhor, com mais qualificação e igualdade de oportunidades aos capixabas
Quatro parceiros na fala do diretor, dois no parágrafo do dinheiro
Varejão descreve o Nossa Bolsa como parceria de quatro partes: Fapes, Secti, Sedu e Sinepe, este último o sindicato que reúne as escolas particulares do Estado. Poucas linhas depois, o mesmo texto apresenta o programa como parceria da Fapes com a Sedu, e credita o dinheiro ao Funcitec e à própria Sedu.
São duas composições diferentes no mesmo comunicado, e ele não as concilia. Pelo material, não dá para saber se Secti e Sinepe entram com recurso, com vaga ou com articulação — nem se a segunda frase fala só de quem paga a conta.
O número do edital muda entre o texto e o arquivo
O comunicado chama o documento de edital nº 18/2024 duas vezes, no corpo e no bloco de serviço. O arquivo em PDF que a Fapes disponibiliza no link, porém, está salvo com outra numeração no nome — 18/2025. A observação vale para quem for procurar o documento por número, em busca ou em protocolo: o texto oficial diz 2024, e é essa a numeração que o comunicado sustenta.
O anúncio dá o total de bolsas e para por aí
Além das lacunas já citadas, o material lançado em dezembro de 2024 deixou sem resposta:
- quantos candidatos disputaram as mil bolsas, e qual foi a nota de corte por curso;
- como se comprovava a renda familiar per capita, com quais documentos e em que etapa;
- se havia lista de espera ou chamadas seguintes para as vagas não preenchidas;
- o calendário posterior à inscrição — data do resultado, da matrícula e do início das aulas;
- o que acontecia com a bolsa em caso de reprovação, trancamento ou troca de curso;
- se o benefício acompanhava o estudante até o fim da graduação ou precisava ser renovado;
- quais eram as 29 instituições e os 14 municípios;
- quantas edições anteriores o programa já teve e quantos bolsistas formou.
As duas vozes do material saem do mesmo governo
O comunicado é do Governo do Estado e ouve duas pessoas: o diretor-geral da agência que executa o programa e o secretário a quem essa agência responde. Não há um estudante bolsista, um candidato que ficou de fora, um reitor ou coordenador de qualquer das 29 faculdades, nem o Sinepe — citado como parceiro e nunca consultado. Ninguém no texto avalia se mil bolsas dão conta da procura capixaba por graduação gratuita, e ninguém discute a opção de custear vaga em rede privada.
O prazo venceu; os canais, não
Os endereços publicados no bloco de serviço foram conferidos em agosto de 2026:
- a página do programa no site da Fapes, fapes.es.gov.br/nossabolsa, continua no ar e é onde a fundação reúne o material do Nossa Bolsa;
- o PDF do edital daquela seleção continua sendo entregue pelo servidor da fundação, para quem quiser conferir as regras que valeram;
- o atendimento a candidatos segue publicado no e-mail programanossabolsa@fapes.es.gov.br e no WhatsApp (27) 99824-6168, com respostas em dias úteis, das 9h às 18h.
Um alerta necessário: nada disso reabre o edital nº 18/2024, encerrado em janeiro de 2025. Os canais servem a quem procura o histórico daquela seleção ou quer saber qual edital do Nossa Bolsa está valendo agora.
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