A Avenida Transamazônica, no bairro Barramares, em Vila Velha, foi inaugurada com asfalto novo e sistema de escoamento de água de chuva no domingo, 24 de agosto de 2025. O governador Renato Casagrande esteve na entrega, ao lado do prefeito Arnaldinho Borgo. O que foi inaugurado é a avenida — uma peça do pacote de macrodrenagem do Canal do Congo, e não o pacote inteiro, que a nota oficial descreve como alcançando 13 bairros da Região 5 do município canela-verde.
O que foi entregue, e o que a nota não conta sobre o resto
A divulgação oficial encaixa a via dentro de um conjunto maior de investimentos em macrodrenagem no Canal do Congo. Desse conjunto, o que foi inaugurado naquele domingo foi a Transamazônica. O material não diz quantas outras frentes já estão concluídas, quantas seguem em execução, se alguma ainda depende de autorização ou de assinatura de ordem de serviço, nem estabelece prazo para as demais. Também não separa o que é obra do Estado do que é obra do município dentro desse pacote.
Não há uma cifra sequer no texto. Fala-se em investimento e em repasse de recursos, sem valor da obra, sem valor do pacote e sem quanto coube a cada parte.
Para onde vai a água da chuva na Avenida Transamazônica
O destino da água está declarado: o que for captado na avenida segue para o Canal da Costa. Estes são os itens que a nota oficial lista, com o nome técnico que ela usa e, ao lado, o que cada um é em linguagem comum:
- Bueiro Simples Celular de Concreto — galeria de concreto enterrada, que conduz a água sob a via;
- poços de visita — câmaras de acesso à tubulação, por onde se inspeciona e se desobstrui;
- caixas ralo — as bocas de captação por onde a água da rua entra no sistema;
- boca de concreto ciclópico — a estrutura de saída do sistema;
- pavimentação asfáltica com Concreto Betuminoso Usinado a Quente (CBUQ) — o asfalto usinado aplicado na superfície;
- sinalização vertical e horizontal — placas e pintura de pista;
- meio-fio, passeio em concreto e ladrilho hidráulico podotátil — guia, calçada e o piso com relevo que orienta pessoas com deficiência visual.
A lista descreve as peças instaladas. Ela não informa a capacidade de escoamento do conjunto, o volume de chuva que ele foi projetado para suportar nem em quanto tempo a água desce até o Canal da Costa. Sem isso, não é possível dizer, pelo material, o que a avenida passa a suportar num temporal.
Quem paga e quem entrega não são a mesma coisa
O anúncio junta as duas pontas, mas o corpo do texto as separa. O dinheiro é estadual: veio de repasse do Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas, do Governo do Estado — um fundo estadual cujo nome, por si só, é a única marca de adaptação climática que aparece no material.
Sobre quem executou, o texto é menos firme. Ele fala em repasse de recursos, forma usual de o Estado bancar intervenção em via de um município; já a fala da secretária de Estado do Governo atribui as obras ao próprio Governo do Estado, em parceria com a Prefeitura de Vila Velha. A nota não nomeia o órgão contratante, não nomeia a empresa executora, não diz quanto tempo durou o serviço e não detalha a divisão de responsabilidades entre Estado e prefeitura.
O que a obra promete resolver — e a palavra que a própria nota escolheu
As obras realizadas pelo Governo do Estado, com recursos do Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas, em parceria com a Prefeitura de Vila Velha, são fundamentais para garantir mais tranquilidade e qualidade de vida aos moradores da Região 5, minimizando áreas de alagamentos, enchente e inundações
A avaliação é da secretária de Estado do Governo, Emanuela Pedroso.
Vale reparar no verbo: minimizando. Nem a divulgação do órgão que financiou a obra promete o fim dos alagamentos — fala em reduzir. E essa é a única frase do material inteiro que trata de efeito prático. Não há no texto histórico de alagamento em Barramares, não há número de famílias ou de moradores atingidos em chuvas anteriores, não há comparação de antes e depois. O que existe é a expectativa declarada por quem entregou a obra, e ela vale como expectativa.
A fala do governador e o que ela não detalha
Uma nova rodovia toda drenada e pavimentada com recursos do Fundo Cidades.
A frase é do governador Renato Casagrande, dita na inauguração, ao lado do prefeito Arnaldinho Borgo. Na sequência, ele projeta transformação da Região 5, mais dignidade aos moradores, atração de novos empreendimentos e uma nova rota de desenvolvimento — projeções sem prazo, meta ou número no material. Há ainda uma oscilação dentro do próprio texto oficial: a via é tratada como avenida na descrição e como rodovia na fala.
Um lado só: o que não foi ouvido
Este registro parte de uma nota do Estado, que é ao mesmo tempo quem bancou a obra e quem a inaugurou. Nela não há morador de Barramares contando o que muda na rua onde vive, não há técnico independente avaliando o projeto de drenagem e não há voz de oposição. Ausência de crítica em material oficial não é sinal de consenso — é característica do documento.
Material do dia da entrega, sem avaliação de desempenho
A inauguração é de agosto de 2025 e o que se tem é o texto do dia. Ele não acompanha o comportamento do sistema em períodos de chuva posteriores e não traz vistoria, medição ou balanço. Obra de drenagem se avalia depois, quando chove forte, e essa avaliação não foi divulgada junto com a entrega.
No planejamento estadual, o tema teve etapa seguinte meses depois: já em novembro de 2025, quase três meses após a entrega em Barramares, o Plano de adaptação climática do ES foi à consulta pública — fase de coleta de contribuições, posterior a esta obra e voltada ao planejamento, não a esta avenida.
O que a nota oficial não informa
- o valor da obra na Avenida Transamazônica e o valor do pacote do Canal do Congo;
- a extensão pavimentada, em metros ou quilômetros;
- quantos moradores, imóveis ou famílias são atendidos;
- o histórico de alagamento no bairro e a frequência das ocorrências;
- a capacidade de escoamento do sistema instalado;
- quantas frentes dos 13 bairros da Região 5 estão concluídas e qual o prazo das demais;
- qual empresa executou o serviço e qual órgão o contratou;
- quanto tempo a obra levou e se houve interdição no período;
- qualquer medição de desempenho após a entrega.
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