O governador Renato Casagrande cumpriu agenda em Anchieta na quarta-feira, 22 de outubro, e o balanço do dia reuniu duas coisas diferentes: obras concluídas, que já podem ser usadas, e assinaturas de repasse de dinheiro para obras que ainda não começaram. Foram inaugurados o Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Tia Ireni Amaral e a nova Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Nova Anchieta. E foram assinados os repasses para a reforma de uma escola municipal e para a construção de um Centro de Reabilitação — dois projetos que, na data da agenda, existiam no papel.
A distinção não é detalhe de redação. Quem lê que o município recebeu tudo isso e vai ao balcão procurar o serviço encontra a UBS construída, mas não encontra o Centro de Reabilitação, cuja previsão de conclusão é setembro de 2027. Abaixo, item por item, o que já existe, o que só tem verba assinada e o que segue apenas em construção.
Já está pronto: o CMEI Tia Ireni Amaral
O centro de educação infantil foi inaugurado na própria agenda — é obra entregue, não promessa. A unidade tem capacidade para 140 crianças e conta com sete salas de aula com solário, brinquedoteca, laboratório de informática, lactário, sala de amamentação, consultório, refeitório, pátios coberto e descoberto, além de cozinha, lavanderia, sala dos professores e coordenação.
O dinheiro veio do Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil (Funpaes): cerca de R$ 4 milhões para a execução da obra e mais de R$ 1 milhão para a compra do mobiliário. Um ponto que costuma se perder na leitura rápida: esses R$ 4 milhões foram repassados ao município para que ele executasse a obra. O recurso é estadual; a execução, municipal. A ação integra o conjunto de medidas da Secretaria da Educação (Sedu) para ampliar vagas na educação infantil em parceria com as prefeituras.
Já está pronto: a UBS de Nova Anchieta
A segunda entrega do dia foi a nova Unidade Básica de Saúde do bairro Nova Anchieta, apresentada pelo governador e pelo vice-governador Ricardo Ferraço. Foram R$ 2,66 milhões na construção, dentro do Plano Decenal APS +10, da Secretaria da Saúde (Sesa).
A unidade foi projetada para abrigar duas equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF), o formato em que um time fixo fica responsável por um território e pelas famílias que moram nele, o que sustenta acompanhamento contínuo em vez de atendimento avulso. O comunicado do Governo do Estado não informa se as duas equipes já estão completas e em atividade nem a partir de que dia a unidade começa a atender.
Inauguramos o CMEI Tia Ireni, que ficou lindo, oferecendo mais qualidade no ensino para as crianças que estão em uma das fases mais importantes de suas vidas. É fundamental garantirmos uma educação adequada para o futuro dessas crianças. Também entregamos a Unidade Básica de Saúde em Nova Anchieta. Assim como essa, estamos construindo mais de 100 unidades em todo o Espírito Santo
A declaração é do governador Renato Casagrande. As mais de 100 unidades citadas por ele estão, pela própria fala, em construção — um terceiro estágio, diferente tanto da UBS já erguida em Anchieta quanto das obras que ainda nem começaram.
Entregue, assinado e em construção não são a mesma coisa
Balanços de agenda de governo costumam empilhar num único texto atos que estão em fases muito distintas. Vale separar:
- Entregue — a obra acabou e o equipamento existe. É o caso do CMEI Tia Ireni Amaral e da UBS de Nova Anchieta. Ainda assim, o termo entregue descreve o prédio: o início do atendimento depende de equipe, mobiliário e abertura ao público.
- Em construção — a obra começou, há canteiro e cronograma, mas ainda não há serviço funcionando. Nenhum item desta agenda em Anchieta está nessa fase; as mais de 100 unidades de saúde citadas pelo governador estão.
- Repasse assinado — existe a decisão de destinar o dinheiro e o documento que a formaliza. Não significa obra contratada. Entre a assinatura e a primeira máquina no terreno ainda cabem projeto executivo, licitação, contrato com uma empresa e ordem de serviço. É a fase da reforma da escola Zuleika Flores Purificação e do Centro de Reabilitação.
- Anunciado — o estágio mais frágil: existe a intenção declarada, sem documento, sem valor empenhado e sem prazo. Um anúncio pode virar repasse assinado meses depois, ou não virar.
Na prática, o que muda para o morador é simples: no primeiro caso ele usa o serviço; nos demais, o que existe é uma previsão. Em dezembro de 2024, em outra agenda no mesmo município, o governador inaugurou a Praça São Pedro e anunciou outro pacote de investimentos em Anchieta — comparar aquela lista com esta é a forma mais direta de acompanhar o que saiu do anúncio e chegou à entrega.
Só assinado: a reforma da escola Zuleika Flores Purificação
O governador assinou o repasse de recursos para a reforma e a ampliação da Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental (EMEIEF) Zuleika Flores Purificação. O valor previsto é de quase R$ 5 milhões, e as intervenções listadas são reforço estrutural, novas instalações elétricas e hidrossanitárias, climatização das salas, substituição do telhado e reforma da quadra poliesportiva, atendendo alunos da creche e do ensino fundamental.
A obra não começou. O comunicado não traz data de início, data de conclusão, empresa responsável nem cronograma de licitação. Por se tratar de escola municipal custeada por repasse estadual, a condução da obra tende a caber ao município, mas o texto oficial não detalha esse ponto.
Só assinado: o Centro de Reabilitação
Também foi assinado o repasse para a construção de um Centro de Reabilitação que deve atender moradores de Anchieta e de municípios vizinhos, com foco em reabilitação física e neurológica. A unidade está prevista para oferecer fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e psicologia, e os públicos apontados são idosos com limitações de mobilidade, pessoas com sequelas de acidentes ou doenças crônicas e crianças com necessidades especiais.
Aqui está o dado que mais falta nas versões curtas dessa agenda: o repasse foi dividido em três parcelas, ao longo de três anos.
- R$ 2,5 milhões em 2025;
- R$ 1,7 milhão em julho de 2026;
- o mesmo valor, R$ 1,7 milhão, em novembro de 2026.
A previsão de conclusão é setembro de 2027. O comunicado oficial não apresenta um valor total somado para o centro, não informa a data de início das obras, não cita empresa executora nem etapa de licitação e não indica onde a unidade será construída. Enquanto isso, quem precisa de fisioterapia ou fonoaudiologia continua dependendo da rede já existente e dos deslocamentos que o novo centro promete reduzir.
Como ler os valores desta agenda
As cifras citadas cobrem coisas diferentes, vêm de fundos e secretarias diferentes e estão em estágios diferentes. Somar tudo num número único produz um total que não corresponde a nenhum compromisso real, porque mistura dinheiro já aplicado em obra pronta com dinheiro previsto para 2026 e 2027. O quadro fica assim:
- Cerca de R$ 4 milhões (Funpaes) — construção do CMEI Tia Ireni Amaral, repassados ao município, obra concluída.
- Mais de R$ 1 milhão (Funpaes) — mobiliário do mesmo CMEI, entregue.
- R$ 2,66 milhões (Plano Decenal APS +10, Sesa) — construção da UBS de Nova Anchieta, concluída.
- Quase R$ 5 milhões — reforma e ampliação da EMEIEF Zuleika Flores Purificação, repasse assinado, obra não iniciada.
- R$ 2,5 milhões em 2025 e duas parcelas de R$ 1,7 milhão em 2026 — Centro de Reabilitação, repasse assinado, obra não iniciada, conclusão prevista para 2027.
O município já havia recebido obra concluída do Estado em outra área: em setembro de 2024, o Governo do Estado entregou a nova sede da Delegacia Regional de Anchieta, episódio distinto e sem relação com as obras de educação e saúde desta agenda.
O que ficou sem resposta
Para quem mora em Anchieta e vai depender desses equipamentos, quatro perguntas seguem em aberto no material divulgado: quando a UBS de Nova Anchieta passa a atender e com quantas equipes efetivamente instaladas; quando começa a reforma da Zuleika Flores Purificação e se as aulas serão remanejadas durante as obras; onde ficará o Centro de Reabilitação e quando sai a licitação; e quem executa cada uma das duas obras assinadas. Nenhuma dessas informações consta do comunicado do Governo do Estado sobre a agenda.
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