
O uso do vape entre não fumantes cresceu de forma consistente no Reino Unido nos últimos anos. Dados recentes do Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS, na sigla em inglês) mostram que mais de 1 milhão de pessoas que nunca fumaram cigarros agora usam cigarros eletrônicos — e esse número sobe a cada ano.
Gracey Mungulu, de 21 anos, é um exemplo desse perfil. Ela chegou a criticar colegas que vapavam na escola. No entanto, a prática foi se tornando tão comum ao redor dela que, aos 16 anos, acabou experimentando também. Hoje, compra um vape recarregável todos os dias e usa o aparelho sempre que as mãos não estão ocupadas com o trabalho.
Hábito que começa pela ansiedade social
Para Gracey, o vape funciona como um suporte emocional. Ela diz que ter algo nas mãos ajuda em momentos de ansiedade social. A médica de família Helen Wall confirma que esse padrão é frequente entre seus pacientes: trata-se de uma dependência psicológica de algo externo para regular as emoções.
Malin Andersson, de 33 anos, ex-participante do reality show Love Island e ativista contra violência doméstica, também desenvolveu o hábito durante um período de estresse. Ela descreve o vape como uma versão adulta de chupeta — um estímulo de dopamina que, com o tempo, foi reduzindo sua motivação. Em maio de 2025, ela decidiu parar.
Vape entre não fumantes e o papel do marketing
A professora Sarah Jackson, do University College London, alerta que parte dos não fumantes que vapam provavelmente nunca teria fumado cigarros. Um estudo de 2024 do UCL mostrou que o uso de nicotina cresceu entre jovens adultos na Inglaterra, embora o tabagismo tenha caído.
Hazel Cheeseman, da organização Action on Smoking and Health, aponta que o marketing agressivo dos vapes — com cores chamativas e sabores adocicados — contribui diretamente para atrair esse público. O NHS (Serviço Nacional de Saúde britânico) recomenda que não fumantes e menores de 17 anos nunca usem vapes. A venda para menores de 18 anos já é proibida, e os vapes descartáveis foram banidos no ano passado.
Parar de vaporizar também é difícil
Assim como ocorre com o cigarro, abandonar o vape exige esforço. O NHS sugere reduzir gradualmente a concentração de nicotina ou recorrer a terapias de reposição. Porém, menos de 45% dos profissionais de saúde na Inglaterra oferecem suporte específico para quem quer parar. O custo do hábito também pesa: Gracey gasta cerca de £35 por semana com o vape e já considerou parar por isso.
Helen Wall resume o problema: o vape foi criado como substituto do cigarro, não como porta de entrada para a nicotina. Para quem nunca fumou, a mensagem original se perdeu.
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