Duas escolas estaduais do Espírito Santo trocaram o livro didático por um filme e por um álbum de família para fazer os alunos falarem do que sentem. Uma delas fica em Guarapari: a Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) Dr. Silva Mello. A outra é a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Profª Aldy Soares Merçon Vargas, em Conceição do Castelo. Nos dois casos o objetivo declarado foi o mesmo — trabalhar o autoconhecimento na escola para reduzir o peso que fatores de fora da sala exercem sobre a aprendizagem.
São duas atividades pontuais, já realizadas, cada uma conduzida pela própria unidade. O material que as divulga não as apresenta como etapa de um programa, não fixa meta, não traz calendário de repetição e não menciona verba. Quem lê o plural e imagina uma política válida para toda a rede estadual de ensino está lendo mais do que está escrito: o texto descreve exatamente duas escolas, em dois municípios, com propostas diferentes uma da outra.
Autoconhecimento na escola: em Guarapari, um filme abriu a conversa
Na EEEM Dr. Silva Mello, o público foi o dos educandos do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Eles assistiram à animação Divertidamente, escolhida porque aborda emoções e sentimentos em fases distintas da vida e o peso de saber administrá-los para levar uma vida equilibrada e sociável.
Depois da exibição veio o debate, conduzido pela Equipe Apoie Escola e representado ali pela dupla psicossocial Arianne Matos e Gilvan Lopes. A conversa saiu do enredo e foi para a rotina de cada um: onde as emoções aparecem no dia a dia e o que elas atrapalham ou destravam. O material não informa quantos alunos participaram, quanto tempo durou o encontro nem em que dia ele ocorreu.
O que dizem as educadoras do atendimento especializado
Para as educadoras do AEE, reconhecer o que o aluno sente é parte do trabalho pedagógico, e não um acréscimo simpático a ele. Uma das professoras defende que a sala precisa ser um lugar onde o estudante se sinta acolhido antes de qualquer conteúdo:
É essencial reconhecer as emoções deles e ajudá-los a desenvolver estratégias para lidar com frustrações e ansiedades
A avaliação é da professora Cintia Harlen, do Atendimento Educacional Especializado.
A segunda professora citada no material, apresentada como especializada em educação inclusiva, liga a segurança emocional diretamente ao que o aluno consegue aprender:
quando os estudantes se sentem emocionalmente seguros, estão mais abertos para aprender e explorar novas habilidades
A frase é da professora Lidiane Correa. O material não informa em qual das duas escolas ela atua.
Em Conceição do Castelo, a aula de Filosofia pediu foto de infância
Na EEEFM Profª Aldy Soares Merçon Vargas, a proposta partiu da professora de Filosofia Vanessa Ribeiro Morelo. Cada aluno levou para a aula uma fotografia da própria infância e apresentou à turma a lembrança ligada àquela imagem. A partir daí a discussão girou em torno de autenticidade, do valor da história de cada um e dos sonhos e momentos que os estudantes consideram marcantes na própria trajetória.
Essa atividade destacou a importância de manter viva a pureza e a magia de sonhar, mesmo diante dos desafios da vida adulta. Ao refletir sobre o passado, os alunos puderam entender melhor quem são e valorizar suas histórias. Meu desejo é que eles continuem inspirados a sonhar grande e a buscar a autenticidade em tudo o que fizerem. Que a essência de seus desejos infantis continue a guiá-los e a contagiar suas vidas com a mesma pureza e alegria que trouxeram para a aula
A avaliação é da professora de Filosofia Vanessa Ribeiro Morelo.
Nenhum estudante é identificado — nem no material de origem, nem aqui. As falas publicadas são de quem responde profissionalmente pela iniciativa, que são as professoras e a equipe que conduziu as atividades.
Três expressões que o material usa e não explica
O texto de origem trabalha com um vocabulário corrente dentro da escola e opaco fora dela:
- AEE — a sigla é aberta uma vez, como Atendimento Educacional Especializado, e nada mais é dito. O material não explica o que esse atendimento faz no dia a dia, quais estudantes têm direito a ele nem como a família pede o encaminhamento.
- Equipe Apoie Escola — o nome aparece uma única vez, sem informação sobre o que a equipe faz, desde quando existe, quantas unidades atende ou quem pode acioná-la.
- Dupla psicossocial — a expressão nomeia os dois profissionais que conduziram a conversa em Guarapari, mas o material não descreve a formação de cada um nem a quem eles respondem.
O que o material não informa
- A data das duas atividades. Nada no texto indica quando aconteceram.
- Quantos estudantes participaram em cada escola.
- Se as dinâmicas serão repetidas, ampliadas ou levadas a outras unidades.
- Se houve orientação, recurso ou verba por trás delas, ou se cada escola decidiu por conta própria.
- Que resultado se pretende alcançar e como ele seria medido. Não há indicador, avaliação nem acompanhamento descrito.
- Se outras escolas do Estado fazem algo parecido, e quantas.
- Em qual escola atua a segunda professora citada.
Um lado só, e isso precisa ficar dito
Todas as falas vêm de profissionais que conduziram as atividades. Não há avaliação de estudante, de família, de especialista de fora nem de quem eventualmente discorde do método. Ausência de crítica em um texto divulgado pela própria rede não é sinal de consenso: é o formato do material, que existe para contar o que a rede fez.
Para a família de Guarapari que quiser saber se a experiência da EEEM Dr. Silva Mello teve continuidade, ou se chegou a outras turmas da unidade, o caminho é perguntar na própria escola. Nenhum canal de atendimento, telefone ou endereço eletrônico foi divulgado junto com o texto.
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