Na foto, jovens atendidos pelo CRJ de Aracruz durante o curso de barbearia.
Jovens atendidos pelos Centros de Referência das Juventudes (CRJs) de Cachoeiro de Itapemirim, Aracruz, Linhares, Vitória, Cariacica, Colatina e Vila Velha entraram no primeiro ciclo de cursos gratuitos do EmpregaJUV, nome curto do Programa de Empregabilidade e Qualificação Profissional para Jovens Capixabas. O comunicado oficial que descreve esse ciclo é de setembro de 2024, registra turmas que já estavam rodando e não informa nada sobre o que veio depois delas.
O número que abre o anúncio precisa de uma leitura cuidadosa: 1.120 vagas em 56 turmas não é o tamanho deste primeiro ciclo, e sim o total previsto para dois anos de parceria. Quantas dessas vagas já estavam ocupadas quando o texto foi divulgado, o material não diz.
Vaga não é jovem: o que os números do EmpregaJUV medem
O comunicado conta oferta, nunca pessoas. As 1.120 aberturas são assentos em turma, distribuídos ao longo de todo o período de parceria; não há no material o número de jovens diferentes matriculados, nem quantos chegaram ao fim do curso. Assento oferecido e pessoa formada são medidas distintas, e só a primeira aparece.
Vale o mesmo cuidado com o acréscimo anunciado para aquele mês: seis turmas a mais eram previsão, escrita no verbo da possibilidade, sem data de início e sem dizer em quais unidades entrariam. O texto oficial nunca voltou para confirmar se elas começaram.
Quem são as juventudes de que o texto oficial fala
A palavra no plural atravessa o comunicado sem uma linha que a explique. O que o material efetivamente delimita é uma faixa etária: os cursos são destinados a jovens de 15 a 29 anos, e o público alcançado é o que já frequenta os CRJs. Nada além disso — não há perfil de escolaridade, de renda, de bairro, de ocupação nem qualquer descrição de quem preencheu as turmas.
A faixa começa aos 15 anos, portanto antes da maioridade, e aí mora uma lacuna prática: o comunicado não diz se quem tem menos de 18 precisa de autorização de responsável para se matricular. Também não descreve seleção: quem se interessa procura um CRJ e se inscreve, e o texto não informa o que acontece quando aparecem mais interessados do que assentos na turma.
Uma decisão o material atribui explicitamente aos jovens: a escolha dos cursos, que segundo o texto saiu do diálogo dentro dos próprios CRJs. Não há registro de como esse diálogo funcionou, quem participou nem se houve votação.
Os cursos citados são exemplos, e a lista não fecha
O texto oficial diz que a oferta inclui os nomes abaixo e encerra a enumeração com entre outros — ou seja, quem procura um curso específico não pode concluir que ele está fora só porque não aparece aqui:
- Operador de Computador
- Jovem programadora
- Programador Web
- barbeiro
- cabelereiro
- assistente administrativo
As aulas foram divididas entre as unidades do Senac nos municípios e as próprias sedes dos CRJs. A formação não tem custo para o participante e, ao final, o comunicado promete certificado. O que ele não traz: carga horária, duração de cada curso, calendário e quem emite e valida o documento entregue no fim.
Qualificação profissional para jovens: a porta de entrada é o CRJ
A orientação divulgada é direta: procurar um dos 14 CRJs do Estado, ver as opções disponíveis e fazer a inscrição no local. Ao todo, essas unidades estão instaladas em dez municípios capixabas.
Aqui aparece a informação de serviço que falta. O comunicado não diz quais dos 14 CRJs nem quais dos dez municípios tinham turma neste primeiro ciclo — cita apenas os que aparecem no começo do texto. E não divulga endereço, telefone, horário de funcionamento ou página na internet de nenhuma unidade. Quem lê hoje precisa confirmar antes de sair de casa: o material tem quase dois anos e não há, nele, informação sobre novos ciclos.
Para quem busca formação gratuita e não encontra turma aberta no CRJ, o Estado manteve outras frentes: dois meses depois desta divulgação foi aberta outra chamada estadual de cursos gratuitos de qualificação, em novembro de 2024, e mais adiante turmas de outro programa estadual de qualificação se formaram em 2025. As duas são etapas posteriores a este primeiro ciclo, com regras próprias.
Quem organiza, quem dá aula e quem divulga não são o mesmo
Quatro instituições assinam o programa. Do lado público, o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Direitos Humanos (SEDH). Do outro, três entidades ligadas ao comércio: Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Serviço Social do Comércio (Sesc) e Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-ES). É essa repartição de papéis que leva a turma para dentro de uma escola do Senac, em vez de uma repartição estadual.
O EmpregaJUV é mais uma iniciativa que permitirirá às juventudes a qualificação profissional e, para isso, contamos com a experiência e técnica do Senac na formação de profissionais de diversas áreas e o apoio da Fecomércio na inserção no mercado de trabalho
A declaração é da secretária de Estado de Direitos Humanos, Nara Borgo. Ela anuncia dois compromissos — a formação e o apoio para entrar no mercado de trabalho —, e o comunicado descreve apenas o primeiro. Como se dá esse encaminhamento ao emprego, quantas contratações são esperadas ou quais empresas participam, o material não detalha em nenhum ponto.
Um dado de origem que costuma passar despercebido: o texto divulgado pelo Estado foi produzido com informações da assessoria de comunicação de uma das entidades parceiras, e a única voz ouvida pertence à secretaria que coordena o programa. Nenhum jovem matriculado, nenhum instrutor e nenhuma avaliação de fora da parceria aparecem. Isso não indica que falte quem elogie ou quem critique: indica que este material não procurou ninguém dos dois lados.
Por que os CRJs existem — e o que a divulgação não afirma
Os CRJs são equipamentos públicos voltados à autonomia e ao protagonismo do próprio jovem, com equipe multidisciplinar e atendimento moldado à demanda de cada localidade. Eles compõem o eixo social do Programa Estado Presente em Defesa da Vida, iniciativa do Governo do Estado do Espírito Santo que tem, como financiador, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O objetivo declarado desse eixo é prevenir e combater a violência.
Duas informações que ficam lado a lado no comunicado e não se ligam: o programa de origem trata de prevenção à violência, e os cursos atendem quem frequenta os CRJs. O material não classifica os participantes de nenhuma forma, não os associa a ocorrência alguma e não descreve território de risco. Aproximar as duas coisas seria conclusão de quem lê, não informação de quem divulgou.
As perguntas que o comunicado deixa em aberto
- Quantos jovens diferentes estavam nas turmas do primeiro ciclo, e quantas das 1.120 vagas já haviam sido preenchidas.
- Quanto custa o programa e de onde sai o dinheiro dos cursos.
- Carga horária, duração e validade do certificado prometido.
- Como funciona o apoio para entrar no mercado de trabalho anunciado pela secretária.
- Se quem mora longe da unidade recebe algum auxílio para transporte ou refeição.
- Endereço, telefone e horário de cada um dos 14 CRJs.
- Se as seis turmas previstas para setembro de 2024 chegaram a começar, e se houve ciclo seguinte.
Enquanto essas respostas não vêm, o caminho continua sendo o mesmo que o comunicado indica: procurar o Centro de Referência das Juventudes do município e perguntar, no balcão, o que está aberto.
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