A Divisão de Promoção Social (DPS) da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) levou uma edição do projeto DPS Itinerante à 2ª Delegacia Regional de Vila Velha na sexta-feira, dia 08 de novembro de 2024. O atendimento foi dirigido aos policiais e colaboradores lotados na própria unidade — a nota oficial não descreve nenhum serviço aberto ao cidadão, e a ação não funcionou como posto de saúde para quem passasse pela delegacia.
Aviso de data: a edição descrita aqui aconteceu em 08 de novembro de 2024 e já se encerrou. O material oficial não anuncia nova data, novo local nem inscrição — nada aqui convoca ninguém a comparecer.
Uma divisão de promoção social, não um serviço de saúde
A própria nota abre a sigla, e vale reter: DPS é a Divisão de Promoção Social da Polícia Civil capixaba. É uma estrutura de assistência ao efetivo, chefiada por uma assistente social, e não uma unidade de saúde da corporação. A condução da ação em Vila Velha coube a duas policiais civis que também são assistentes sociais, Ariane Martins e Dryelle Santos.
A diferença importa para entender o que a ação é: quem organiza é a área social da polícia; quem faz a parte técnica de saúde vem de fora. O material chama o conjunto de ciclo, e o descreve como uma sequência de edições que percorre unidades policiais.
O que foi oferecido, verbo por verbo
A nota usa três verbos diferentes, e cada um descreve uma coisa distinta. Os policiais receberam serviços; um treinamento foi ministrado; o encerramento contou com uma prática corporal. Separando:
- Medições e orientação. Aferição de pressão arterial, teste de glicemia, avaliação nutricional com cálculo do IMC e orientações sobre alimentação saudável.
- Treinamento de primeiros socorros. Ministrado pelos alunos de enfermagem, abordando parada cardiorrespiratória, engasgo e desmaio ou crise convulsiva.
- Prática de encerramento. Respiração e movimentação corporal baseada nos princípios da yoga, conduzida pelo curso de Educação Física.
Nenhuma dessas duas listas é fechada. O texto oficial escreve que os policiais receberam serviços como os citados, e que o treinamento abordou temas como os três mencionados. Quando a fonte usa esse recorte, o que está publicado é uma amostra, não a programação inteira — e contar os itens daria um total que ninguém informou.
Há também frentes de que a nota não trata: não aparece menção a consulta médica, exame laboratorial, vacinação, encaminhamento para tratamento nem atendimento psicológico. Isso não significa que essas frentes tenham sido descartadas — significa que o comunicado não fala delas.
Aferir e calcular não é diagnosticar
Vale traduzir o que cada procedimento faz, porque o vocabulário oficial dá a impressão de um pacote clínico maior do que o descrito. Aferir a pressão é medir um valor naquele instante. O teste de glicemia é uma verificação rápida, feita com uma gota de sangue. E o IMC é uma conta entre peso e altura, não um exame.
Os três funcionam como triagem: apontam quem talvez precise procurar acompanhamento. Nenhum deles fecha diagnóstico, prescreve remédio nem substitui consulta. É por isso que uma ação como essa se soma ao cuidado de saúde de quem foi atendido, e não o resolve.
Quem executou a parte técnica veio de uma universidade
A ação foi realizada em parceria com a Universidade Vila Velha (UVV), com participação de alunos e professores dos cursos de enfermagem, nutrição e educação física. É a UVV que aparece na nota executando os serviços descritos acima.
Esse papel está claro no material: a nota diz o que a universidade fez ali. O que ela não diz é sob qual instrumento a parceria se deu. A nota não diz se houve convênio, termo de cooperação, projeto de extensão ou atividade curricular supervisionada; não informa quem arcou com os custos; e não menciona valor algum. A universidade é instituição de ensino, não órgão da administração estadual — e a moldura formal do arranjo fica de fora do comunicado.
O que a nota conta e o que ela não mede
O comunicado descreve o que foi oferecido. Ele não descreve o que foi alcançado, e a diferença é grande para quem quer avaliar a política.
Não há número de policiais atendidos, nem número de atendimentos, nem número de procedimentos — e essas três contagens não são a mesma coisa. Um único policial pode ter passado pela aferição de pressão, pelo teste de glicemia, pela avaliação nutricional e pelo treinamento, gerando quatro registros. Sem que o órgão informe qualquer um dos totais, não há como dizer quantas pessoas o projeto alcançou naquela sexta-feira, e qualquer número aqui seria invenção.
Também não há indicador de resultado: quantos encaminhamentos foram feitos, quantos precisaram de acompanhamento, qual a duração da ação, em quantas unidades o ciclo já passou desde que começou. E não há qualquer dado de saúde individual ou agregado no material — o que, aqui, é acerto e não falha. Pressão, glicemia e peso de um grupo pequeno, identificável pelo local de trabalho e pela categoria profissional, são informação pessoal, e não caberia divulgá-la.
Desde 2015, sem calendário público
O projeto não nasceu nessa edição. A DPS o desenvolve desde 2015, com a finalidade declarada de cuidar da saúde e das condições de vida de quem trabalha na polícia civil capixaba. A lógica do nome está justamente aí: em vez de o policial procurar o serviço, o serviço vai até a unidade onde ele trabalha.
“O ‘DPS Itinerante’, implementado em 2015, é uma forma de levar essas ações às unidades policiais, além de promover a valorização do policial civil”
Quem afirma isso é Nísia Abreu, assistente social e chefe da Divisão de Promoção Social.
Sobre a continuidade, porém, o texto oficial se cala. Ele não informa a periodicidade do ciclo, não anuncia a próxima unidade, não diz quantas edições já ocorreram desde 2015 e não explica por qual canal um policial ou uma delegacia pede que a ação chegue até lá. Silêncio não é negativa: nada no comunicado indica que o projeto tenha parado — apenas não há, no papel, nenhuma porta de entrada informada.
O lugar do DPS Itinerante dentro da corporação
Ações voltadas ao próprio efetivo formam uma frente distinta do noticiário policial de ocorrências, e ela reaparece de outras maneiras. Meses depois desta edição, já em maio de 2025, a academia de polícia capixaba abriu inscrições para um curso de atualização profissional dirigido a oficiais investigadores — outra frente do mesmo cuidado com o quadro, e um fato sem relação com o que ocorreu em Vila Velha.
Fora da segurança pública, o poder público estadual mantém frente parecida em outra área: em novembro de 2024, o programa de bem-estar psicossocial da rede estadual de ensino completou cinco anos, com psicólogos e assistentes sociais atuando dentro das escolas. São públicos e estruturas diferentes, e o paralelo é só de método: levar o cuidado ao lugar onde a pessoa trabalha ou estuda.
O ponto cego do comunicado
- Quantos policiais e colaboradores foram atendidos, e por quanto tempo a ação durou.
- Se há calendário, com que frequência o ciclo se repete e qual unidade recebe a próxima edição.
- Como um policial ou uma delegacia solicita que o DPS Itinerante vá até lá.
- Quais serviços compõem a oferta completa, já que a nota publica apenas uma amostra.
- Que instrumento formalizou a parceria com a universidade e quem custeou a ação.
- Quantas unidades policiais o projeto já percorreu desde 2015.
- Se o cuidado com a saúde mental do efetivo integra o projeto — assunto que o comunicado não menciona em nenhum momento.
Nada disso está no material divulgado pela corporação, e o texto acima não preenche essas lacunas por conta própria.
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