A Ação Psicossocial e Orientação Interativa Escolar — a APOIE — completou cinco anos em novembro de 2024, com equipes psicossociais nas escolas estaduais e nas 11 regionais de ensino do Espírito Santo. O balanço divulgado pela Sedu está atualizado até 2024 e o material não traz nada posterior a essa data: quem chega ao texto hoje lê a fotografia do aniversário, não a situação de agora.
Antes de tudo, o que a sigla quer dizer, porque ela costuma ser lida como um pedido ao leitor e não é. APOIE é o nome de uma política da rede estadual de ensino, criada pela Portaria SEDU Nº 108-R, de 8 de novembro de 2019. Ela coloca psicólogos e assistentes sociais para trabalhar dentro da escola pública estadual, com estudantes, famílias e educadores, em vez de deixar essa frente só com professor e direção.
Cinco anos em quatro atos: o que cada norma mudou
O balanço oficial mistura criação, expansão e regulamentação num fluxo só. Separados item por item, e com a norma de cada um, os cinco anos ficam assim:
- 2019 — criação. A Portaria SEDU Nº 108-R, de 8 de novembro de 2019, institui a APOIE na rede estadual.
- 2021 — chegada às regionais. A primeira expansão dá a cada Superintendência Regional de Educação (SRE) uma dupla psicossocial — são 11 regionais no estado. O material não informa quantos profissionais isso somou, nem se o quadro se manteve depois.
- 2023 — gerência própria e equipes na escola. O Decreto nº 5971-R cria a Gerência da APOIE, a G-APOIE, que passa a comandar o programa. No mesmo ano, o programa começa a instalar equipes dentro das próprias escolas, e não só na estrutura regional. Em quantas escolas, o balanço não diz.
- 2024 — regras de trabalho. A Portaria SEDU Nº 234-R, de 16 de setembro de 2024, fixa a metodologia e as atribuições dos assistentes sociais e dos psicólogos que compõem as equipes.
Vale marcar a fase, que num balanço de aniversário passa batido: os quatro atos são normas publicadas e em vigor à época, não anúncios nem promessas. A G-APOIE é a gerência criada dentro do programa, e não um segundo programa — o material a apresenta como a estrutura administrativa da própria APOIE.
O que os números contam — e o que eles não contam
São quatro números, todos com corte declarado em 2024. Cada um mede uma coisa diferente, e nenhum mede a mesma coisa que o leitor supõe ao ler o total mais alto:
- mais de 420 mil estudantes, educadores e responsáveis impactados diretamente. São três públicos somados num número só, e o material não separa quanto cabe a cada um nem define o que conta como impacto.
- mais de 12 mil demandas psicossociais atendidas. Conta demandas, não pessoas: um mesmo estudante pode gerar mais de uma ao longo do ano.
- mais de 13 mil ações coletivas realizadas. Conta ações, não participantes.
- 148 fóruns de diálogo em escolas do estado. É o único número exato do balanço, e conta eventos, não público.
A expressão mais de, que abre os três primeiros, fixa um piso e não um total — e a referência a escolas do estado, sem quantidade, também não fecha a lista. Somar 12 mil demandas com 13 mil ações não produz um número novo: são unidades diferentes, e a conta seria do portal, não do órgão. O que nenhum dos quatro responde é quantas pessoas distintas a APOIE atendeu em cinco anos.
Há uma segunda distância, mais de fundo: o balanço mede atividade — ações, demandas, fóruns, alcance — e não resultado. Não aparece nenhum indicador de frequência escolar, de permanência do estudante, de aprendizagem ou de encaminhamento concluído. Para efeito de comparação, os índices do ensino médio capixaba divulgados em agosto de 2024, três meses antes deste balanço, vêm de avaliação externa e de metodologia própria; o material da APOIE não relaciona uma coisa à outra, e aproximar as duas seria conclusão de quem lê.
Também não há cifra alguma. Em cinco anos de programa, o texto oficial não informa quanto foi gasto, quanto custa manter as equipes nem quantos profissionais estão contratados e sob que vínculo.
Um registro necessário: nenhum estudante, responsável ou família aparece identificado no material, e nada aqui liga um atendimento a alguém. Acompanhamento psicossocial é informação sensível, e o dado de quem passou por ele não se publica associado a pessoa — nem quando a fonte é oficial.
Como uma família aciona as equipes psicossociais nas escolas
Esta é a lacuna central do balanço, e é a pergunta que leva alguém a procurar o assunto na internet. O material diz onde os profissionais estão — nas 11 Superintendências Regionais de Educação desde 2021 e em unidades escolares desde 2023 — mas não diz como se chega até eles.
Não há telefone, e-mail, formulário nem horário. Não há critério de atendimento: o balanço não informa se o estudante procura a equipe por conta própria, se depende de encaminhamento da direção da escola, se o responsável pode solicitar, nem o que acontece quando a unidade não tem equipe própria. Também não há lista das escolas atendidas.
O que o material sustenta é apenas o caminho indireto: a própria escola e a Superintendência Regional de Educação da região são os dois pontos onde ele localiza os profissionais. Qualquer canal além desses dois seria invenção, e por isso não está escrito aqui.
Quem avaliou os cinco anos
O balanço é da Sedu sobre um programa da Sedu. Não há no material uma única fala de estudante, de responsável, de professor de sala de aula, de psicólogo ou de assistente social da equipe — e nenhuma avaliação externa, acadêmica ou de órgão de controle. A liderança, essa, está registrada: quem responde pelo programa desde 2019, segundo o texto oficial, é a analista do Executivo Priscila Maria do Nascimento.
Ausência de crítica num documento assim não é sinal de consenso; é o formato do documento. Um balanço de aniversário é peça de comunicação institucional, e o órgão que o assina é o mesmo que executa o que está sendo avaliado.
E depois de 2024?
Sobre a continuidade, o material nada diz — e silêncio não é o mesmo que encerramento. O texto oficial para no quinto aniversário: não informa metas para os anos seguintes, não anuncia nova expansão e não registra se as equipes implantadas em 2023 seguiram nas mesmas escolas.
Do que veio depois na rede estadual, e já em outra frente, com outro público e outro mecanismo, o portal registrou em julho de 2025 o edital Rede Abraço, que premiou 30 projetos com R$ 300 mil. São iniciativas distintas: o balanço da APOIE não menciona relação entre as duas, e a proximidade aqui é cronológica, não de política pública.
O que o balanço de cinco anos não informa
- quantos psicólogos e assistentes sociais compõem a APOIE, e sob que vínculo;
- em quantas das escolas da rede estadual existe equipe própria, e quais;
- quanto o programa custou em cinco anos;
- como estudante, responsável ou professor aciona o atendimento;
- quantas pessoas distintas foram atendidas, já que a contagem é por demanda e por ação;
- o que o programa considera uma demanda resolvida;
- o que mudou depois de 2024.
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