O governador Renato Casagrande inaugurou, na manhã do sábado (14), a obra que o Governo do Estado chama de revitalização das rodovias ES-261 e ES-355, no trecho que liga Santa Teresa a Caldeirão e a Santa Maria de Jetibá, na microrregião Central Serrana. São 22 quilômetros e uma cifra de R$ 39 milhões — que o material oficial apresenta em voz passiva, sem dizer de qual caixa o dinheiro saiu. Na mesma agenda o governador entregou uma unidade de saúde e uma escola, ambas municipais.
A palavra que dá nome à obra não descreve nada. Revitalização pode significar recapear a pista, alargar, duplicar, construir ponte, refazer drenagem ou apenas repintar faixa. Como o valor anunciado é alto e a extensão é longa, vale abrir o termo antes de qualquer outra coisa — porque é isso que separa uma estrada nova de uma estrada remendada.
O que foi feito nas rodovias ES-261 e ES-355, serviço por serviço
Pelo que o Estado descreve, a intervenção tem quatro frentes, e nenhuma delas muda o desenho da estrada:
- Nova camada asfáltica na pista de rolamento. O Estado declara ter espalhado ali mais de 37 mil toneladas do que chama de Concreto Betuminoso Usinado a Quente (CBUQ) — a massa asfáltica espalhada e compactada ainda quente, o revestimento usual de rodovia. O termo mais de fixa um piso, não um total fechado.
- Drenagem refeita do zero. As estruturas antigas foram demolidas e deram lugar a 18 mil metros de sarjetas, meios-fios e bueiros novos. Sarjeta é a calha rente ao acostamento que recolhe a água da chuva; o bueiro a atravessa por baixo da pista. Drenagem malfeita é o que faz o asfalto novo afundar no primeiro inverno.
- Sinalização. Placas novas e pintura horizontal, que é a marcação feita no próprio piso — eixo, bordas e faixas.
- Acessos. As entradas ao longo do trecho receberam reforço de massa asfáltica.
Fora dessa lista, nada. O material não menciona duplicação, alargamento, terceira faixa, ponte nova, ciclovia, calçada nem passarela. Ou seja: a estrada segue com o mesmo traçado e a mesma quantidade de faixas que tinha antes, agora com piso, drenagem e sinalização renovados. Há ainda um item que quase passa despercebido e vale mais que muita cifra: o contrato assinado cobre também a conservação das duas pistas até o fim de outubro de 2028. Quem executou segue responsável por manter o que fez.
O pacote da agenda, linha a linha
Três itens diferentes foram apresentados juntos, e eles não se somam. As entregas são de naturezas distintas, uma delas não tem valor divulgado e o Estado não apresenta total nenhum — qualquer número global aqui seria conta do portal, não informação da fonte.
| Item entregue | Estágio declarado | Cifra divulgada | Quem executa e quem paga |
|---|---|---|---|
| Revitalização das rodovias ES-261 e ES-355, trecho Santa Teresa x Caldeirão x Santa Maria de Jetibá, 22 quilômetros | Entregue — inaugurada na agenda | R$ 39 milhões | Executada pelo Departamento de Edificações e de Rodovias do Espírito Santo (DER-ES), órgão estadual. O pagador não aparece: o texto diz que foram investidos, sem sujeito. |
| Unidade Básica de Saúde (UBS) de Alto São Sebastião, em Santa Maria de Jetibá | Entregue — inaugurada na agenda | R$ 1.390,931,51, como divulgado | Dinheiro estadual repassado fundo a fundo ao município, pela Secretaria da Saúde (Sesa). A unidade é municipal e o material não nomeia quem tocou a obra. |
| Reforma e ampliação da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental (EMEIEF) São Sebastião | Entregue — obras entregues na agenda | Nenhuma. O material não divulga valor para este item | Recursos do Fundo Estadual de Apoio à Ampliação e Melhoria das Condições de Oferta da Educação Infantil no Espírito Santo (Funpaes). A escola é municipal; o executor não é declarado. |
Duas observações que a tabela deixa à vista. A primeira: das três entregas, a única sem preço é a escola — e ela é justamente a que envolve criança em sala de aula. A segunda: a maior cifra que aparece no texto oficial, mais de R$ 317 milhões, não pertence a esta agenda nem a estes municípios, como se explica adiante.
Duas rodovias, uma extensão só, e um trecho sem começo nem fim
O material trata de duas rodovias e informa uma medida: 22 quilômetros de extensão da via, no singular. Não há como saber quanto desse total cabe à ES-261 e quanto cabe à ES-355, nem se os 22 quilômetros somam as duas ou descrevem apenas uma delas. Quem lê corrido pode contar 22 quilômetros em cada estrada, o dobro do que foi declarado.
Some-se a isso a forma como o trecho é localizado: Santa Teresa x Caldeirão x Santa Maria de Jetibá. São pontos de referência, não marcos de quilometragem. O texto não diz em que quilômetro a obra começa nem onde termina, e também não esclarece a que município pertence Caldeirão. Sem esses dados, o morador da região não consegue saber se o pedaço da estrada que ele usa todo dia entra ou não na conta.
Há ainda um 22 que reaparece em outra grandeza. Na fala do governador, o número volta como quantidade de calçamentos rurais no município — nada a ver com os 22 quilômetros de rodovia. São dois vinte e dois que medem coisas diferentes.
Todos os trechos dessa região estão reabilitados, mostrando a capacidade de investimento do Governo do Estado. Somente em Santa Maria de Jetibá, temos 22 calçamentos rurais, sete escolas, além de drenagem e pavimentação de ruas e ações no esporte, como o estádio municipal. Investir nas nossas cidades é uma alegria, pois ter uma unidade de saúde como a que inauguramos e uma escola como essa que entregamos, muda a vida de toda uma comunidade
A declaração é do governador Renato Casagrande. Ela merece uma leitura atenta em dois pontos. O primeiro é a troca de palavra: o corpo do material fala em revitalização, e o governador fala em trechos reabilitados. São dois nomes para a mesma intervenção, e nenhum dos dois descreve o serviço. O segundo é o alcance: todos os trechos dessa região é uma afirmação muito maior que os 22 quilômetros declarados, e o material não lista quais seriam esses outros trechos, quando foram feitos nem quanto custaram. O balanço de calçamentos, escolas e estádio também vem sem valor, sem data e sem nome de unidade.
A cifra da unidade de saúde vem escrita de um jeito que não existe
O investimento na UBS de Alto São Sebastião é divulgado como R$ 1.390,931,51. A pontuação não fecha: há duas vírgulas e nenhum ponto de milhar no lugar esperado. Pela ordem dos algarismos, o número compatível seria da ordem de um milhão e trezentos e noventa mil reais, mas essa leitura é interpretação, não é o que o Estado publicou. Por isso a cifra fica aqui como veio, atribuída a quem a divulgou, sem correção silenciosa. Quem for usar esse valor precisa buscá-lo na fonte oficial.
A obra faz parte do Plano Decenal de Atenção Primária à Saúde (APS+10), de dezembro de 2021, tocado pela Sesa. Decenal quer dizer de dez anos: é um plano de longo prazo para a porta de entrada do atendimento público, aquela que resolve o problema comum antes que ele vire caso de hospital.
O caminho do dinheiro tem nome técnico e efeito prático. A transferência fundo a fundo é o repasse do fundo estadual de saúde direto para o fundo do município, sem convênio a cada obra — quem constrói e quem depois opera a unidade é a prefeitura. Por isso a inauguração é do governador, mas a unidade é municipal.
E aqui entra o número que não é da agenda. O primeiro Ciclo do Componente de Infraestrutura, lançado em 2022, habilitou 108 UBS em 52 municípios, com mais de R$ 317 milhões dos cofres estaduais. Habilitar é liberar o direito ao repasse — é etapa de dinheiro destinado, não de prédio pronto. O material não informa quantas dessas 108 unidades já foram construídas, quantas estão em obra e quantas seguem só habilitadas, nem confirma que a unidade de Alto São Sebastião esteja entre elas. Somar esses R$ 317 milhões ao pacote do dia multiplicaria por muito o tamanho aparente da agenda.
A escola entregue e o fundo com nome de outra etapa de ensino
A EMEIEF São Sebastião recebeu reforma e ampliação pagas com recursos do Funpaes, cujo nome oficial completo se refere à oferta de Educação Infantil. A escola, porém, atende também Ensino Fundamental, como diz a própria sigla do nome dela. São etapas distintas da educação básica, e o material não explica como o fundo de uma financia a estrutura que abriga as duas. O registro fica como divergência de nomenclatura, sem palpite sobre a regra que a permite.
Do resto da obra escolar, quase tudo falta: não há valor, não há área construída, não há número de salas, não há prazo de execução e não há informação sobre quantos estudantes a unidade atende — nem se a ampliação abre vagas novas ou apenas substitui espaço já existente. Ampliar prédio e ampliar matrícula não são a mesma coisa, e só a segunda muda a vida de quem está na fila. Vale lembrar que a rede da cidade já rendeu outras notícias, como quando estudantes de Santa Maria de Jetibá debateram gestão, liderança e desenvolvimento financeiro, em episódio anterior e sem relação com esta obra.
Quem inaugura, quem executa e quem paga são três respostas diferentes
O título oficial atribui as três entregas ao governador, e isso achata a divisão real de responsabilidades:
- Rodovias: quem executou foi o DER-ES, órgão do próprio Estado. Quem pagou não está escrito. A frase usada é que foram investidos R$ 39 milhões, construção sem sujeito que dispensa o emissor de nomear a origem do recurso. Registrar essa ausência é parte da notícia.
- Unidade de saúde: recurso estadual, obra e operação municipais.
- Escola: unidade municipal, fundo estadual, executor não informado.
Vale ainda um cuidado de leitura que se aplica a qualquer balanço de obra pública: o valor de um comunicado oficial mede o que o emissor se dispôs a pagar, não o preço final da obra. O que a prefeitura tenha colocado por cima do repasse na unidade de saúde e na escola não aparece em lugar nenhum deste material.
O que muda para quem usa a estrada — e o que continua sem resposta
Para o motorista, o transportador e o morador da Central Serrana, o ganho declarado é de piso, drenagem e sinalização em 22 quilômetros, com manutenção contratada até o fim de outubro de 2028. É bastante — e é tudo o que dá para afirmar. O material não informa o estado anterior da pista, não diz quanto tempo a viagem levava antes nem quanto leva agora, não registra se houve interdição ou desvio durante a obra, não traz volume de tráfego e não indica a data em que os serviços começaram. Sem isso, não há como medir o tamanho da melhora, só constatar que ela foi anunciada como concluída.
A comparação com outras agendas do mesmo tipo ajuda a calibrar o vocabulário. Meses depois desta entrega, o Estado usou a mesma palavra em outro estágio, ao autorizar obras de revitalização de rodovia em Domingos Martins — autorizar é permitir começar, e nada estava construído ali. Em outro momento posterior, houve inauguração de reabilitação de rodovia e mais obras em Conceição do Castelo, no mesmo formato de pacote. Os dois casos são posteriores a esta agenda e servem apenas de referência sobre como o mesmo termo cobre situações opostas.
Onde o material oficial fica em silêncio
- a extensão de cada rodovia separadamente e os marcos de início e fim do trecho;
- a que município pertence Caldeirão;
- a data de início das obras e o tempo total de execução;
- se houve interdição, desvio ou pare-e-siga durante os serviços;
- tempo de viagem e condição da pista antes da intervenção;
- a empresa contratada e o valor do contrato, que não se confunde com investimento anunciado;
- o que a conservação contratada até outubro de 2028 cobre e quem fiscaliza o cumprimento;
- se os 18 mil metros de drenagem correm dos dois lados da via ou de um só;
- o valor, a área e o número de salas da reforma da EMEIEF São Sebastião, e quantos estudantes ela atende;
- horário, equipe e serviços da nova unidade de saúde, e se ela substitui alguma estrutura anterior;
- quanto cada prefeitura acrescentou aos repasses estaduais;
- quantas das 108 unidades habilitadas em 2022 já estão construídas e funcionando.
A única fonte desta agenda é quem a assinou
Tudo o que sustenta este texto veio do Governo do Estado, que aqui acumula os papéis de financiador, executor por meio do DER-ES, anfitrião da solenidade e emissor do comunicado. Não foi ouvido nenhum morador de Santa Teresa ou de Santa Maria de Jetibá, nenhum motorista ou transportador que rode no trecho, nenhum profissional de engenharia sem vínculo com a obra e nenhuma voz de oposição. Aparecem apenas na lista de presentes, sem nenhuma declaração registrada, o secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo; os deputados estaduais Vandinho Leite e Adilson Espindula; e os prefeitos Kleber Médici, de Santa Teresa, e Hilário Roepke, de Santa Maria de Jetibá.
Um material sem contestação não é um material sem contestação possível: significa apenas que ninguém de fora foi consultado. A parte entregue tem a vantagem de ser verificável por qualquer pessoa que dirija pelo trecho, entre na unidade de saúde ou visite a escola. O que continua a depender de conferência é o resto — o preço real de cada item, a origem declarada do recurso e o cumprimento da manutenção contratada até 2028.
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