A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vitória, e a Polícia Militar do Espírito Santo (PMES) prenderam dois homens, de 21 e 26 anos, suspeitos de um homicídio no Centro de Vitória. A vítima, um homem de 22 anos, foi morta a tiro em 18 de agosto, na escadaria Ranulpho Gianordoli. As prisões aconteceram em 17 de outubro, no Morro da Piedade, cerca de dois meses depois do crime.
Em que fase o caso está: os envolvidos já foram denunciados pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), e as prisões só foram divulgadas depois disso, em coletiva na Chefatura de Polícia Civil, em Vitória. Denúncia oferecida é acusação formal — não é condenação. Ninguém citado no material da corporação foi julgado.
Dois presos pelo caso, um flagrante e um suspeito não localizado
O comunicado descreve quatro pessoas em situações diferentes. Elas não se somam, e é aqui que a leitura apressada costuma errar:
- Dois homens, de 21 e 26 anos — presos em 17 de outubro e apontados pela investigação como suspeitos do homicídio.
- Um homem de 25 anos — preso em flagrante durante a mesma diligência, descrito pela polícia como integrante da mesma facção dos outros dois. O material não informa por qual crime ele foi autuado e não o aponta como autor do homicídio.
- Um terceiro suspeito, de 26 anos — apontado pela investigação, mas ainda não localizado. Ele não está preso.
O comunicado também não distribui papéis entre os dois presos. Em nenhum trecho o material atribui a qualquer um dos dois a autoria material do disparo — os dois são tratados em bloco, como suspeitos. Fechar essa lacuna por eliminação, decidindo quem fez o quê, seria escrever aquilo que a polícia não escreveu.
Três lugares diferentes no mesmo caso, todos em Vitória
Cobertura policial erra com frequência ao achatar num endereço só o que são etapas distintas. Neste caso:
- Onde o crime ocorreu: a escadaria Ranulpho Gianordoli, no Centro de Vitória. Antes disso, segundo a polícia, a vítima participava de uma festa num bar próximo ao Morro da Piedade.
- Onde as prisões aconteceram: o Morro da Piedade, em Vitória, dois meses depois.
- Onde o caso foi anunciado: a Chefatura de Polícia Civil, em Vitória, numa coletiva de imprensa.
- De onde veio a decisão judicial: o comunicado não diz. Não há menção a mandado de prisão nem ao juízo que o teria expedido. Apenas o homem de 25 anos aparece como preso em flagrante.
Vale lembrar que mandado de prisão, quando existe, é ordem para levar alguém à custódia — não é prova de autoria e não encerra apuração nenhuma.
Uma divergência de idade dentro do próprio comunicado
O texto da Polícia Civil informa que os dois presos têm 21 e 26 anos. Em outro ponto do mesmo material, a fala atribuída ao delegado registra as idades como 31 e 26 anos. Os dois dados não fecham entre si.
A correção não cabe a quem apenas reproduz: o número segue publicado como a corporação o divulgou, com o registro da diferença. Quem precisar do dado exato deve buscá-lo com o próprio órgão.
O que o material sobre o homicídio no Centro de Vitória não informa
A ausência também é informação. O comunicado não responde:
- que papel cada um dos dois presos teria tido no crime;
- por qual crime o homem de 25 anos foi preso em flagrante;
- se as prisões de 17 de outubro ocorreram por ordem judicial e de qual juízo ela partiu;
- em que mês foi a coletiva: o texto diz apenas quarta-feira (18);
- se os denunciados já têm defesa constituída e o que ela responde à acusação;
- em que ponto do processo o caso está depois da denúncia.
Comunicado de órgão oficial traz um lado só, por definição. A ausência de manifestação da defesa no material não é concordância com a acusação — é só ausência.
Da prisão ao processo: as fases que ainda faltam
Quem lê que houve prisão costuma entender que o caso acabou. Não acabou. O percurso é este:
- Inquérito: a polícia apura, ouve testemunhas e reúne provas. É a fase em que aparecem os termos suspeito e investigado.
- Denúncia: concluída a apuração, o órgão de acusação decide se apresenta a acusação formal. É a etapa alcançada aqui.
- Recebimento: a denúncia ainda precisa ser aceita por um juiz. Só a partir daí quem é acusado passa a responder como réu.
- Instrução: a defesa se manifesta, testemunhas são ouvidas e as provas são discutidas por ambos os lados.
- Decisão: só ao fim de tudo isso existe condenação ou absolvição.
Enquanto esse caminho não se completa, vale o que a lei garante a qualquer pessoa: presunção de inocência. Prisão não antecipa resultado, e denúncia é acusação — não é prova.
Onde levar uma informação sobre o caso
A corporação informou que as buscas pelos outros suspeitos continuam e pediu colaboração de quem tiver alguma informação:
“A colaboração da sociedade é essencial para elucidar casos como este. A violência e a coação exercidas por traficantes não podem prevalecer. Pedimos que qualquer informação seja repassada de forma segura e anônima, contribuindo para que possamos responsabilizar todos os envolvidos”
A declaração é do delegado Moreno Gontijo, adjunto da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vitória.
Os canais para isso são os públicos, e não dependem de identificação:
- 181 — Disque-Denúncia. É o canal indicado para repassar informação sobre um crime já ocorrido, sem se identificar.
- 190 — para emergência em andamento, quando alguém está em risco naquele momento.
Em episódio independente, sem qualquer relação com este e envolvendo outras pessoas, a mesma divisão especializada concluiu inquérito e prendeu dois suspeitos de um homicídio em Jucutuquara, também na capital.
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