O Governo do Estado apresentou como um pacote único, na tarde de sexta-feira (10), um conjunto de obras em Guarapari que está em degraus muito diferentes de execução. Numa mesma agenda entraram o tratamento de esgoto da região de Meaípe, descrito como inaugurado; estações de tratamento de água que o próprio governador chamou de anunciadas; e dinheiro estadual formalizado para um hospital filantrópico que já atende no município desde agosto de 2024. O comunicado oficial reúne tudo sob o verbo entregar, e é aí que a leitura precisa desacelerar.
A diferença não é de vocabulário. Quem lê que o Estado entregou obras e serviços de saneamento e saúde imagina uma cidade que amanheceu diferente na segunda-feira. O que o material sustenta é mais estreito: uma parte do pacote está pronta, outra parte foi apenas anunciada, outra parte é dinheiro destinado para compra futura, e a maior lista de valores do texto nem sequer é de obra concluída — é de obra em andamento, boa parte dela em Anchieta.
Entregar, anunciar e repassar são três degraus, não três sinônimos
Antes de qualquer número, vale fixar a régua que o comunicado não oferece:
- Entregue é o que já funciona. Foi inaugurado, está ligado, opera. É o degrau em que o material coloca o tratamento de esgoto de Meaípe.
- Anunciado é o que ainda não existe como serviço prestado. O anúncio pode vir com projeto, com equipamento comprado e até com data — mas não com água saindo da torneira. É onde a fala do governador coloca as estações modulares de tratamento de água.
- Repasse formalizado é dinheiro destinado por um instrumento assinado. Não é hospital construído nem equipamento instalado: é a autorização para que a entidade que recebe possa comprar e custear. É o degrau da parte de saúde deste pacote.
- Em andamento é obra em execução, com máquina no lugar e data de conclusão ainda aberta. É o rótulo que o próprio comunicado dá à lista de investimentos que traz os maiores valores individuais do texto.
Quatro degraus, um verbo só no título oficial. A partir daqui, cada item aparece com o degrau em que o material o coloca — e com a advertência de que, em três casos, o material o coloca em mais de um degrau ao mesmo tempo.
Item a item: em que degrau está cada peça das obras em Guarapari
A tabela abaixo separa o que o comunicado apresenta junto. Os itens não formam uma obra só: aparecem lado a lado porque foram anunciados na mesma solenidade. As colunas de executor e de origem do dinheiro registram o que o material declara — e, quando ele não declara, registram a ausência, que também é informação.
| Peça do anúncio | Degrau declarado | Valor divulgado | Quem toca | De onde sai o dinheiro |
|---|---|---|---|---|
| Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Meaípe | Entregue. Aparece como inaugurada no primeiro parágrafo e na fala do governador | Nenhum valor individual. O texto só informa um total de R$ 48,6 milhões para o conjunto das entregas | Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan) | Sem dono no texto. O comunicado escreve que os recursos foram aplicados, e o verbo fica sem quem o pratique |
| Sistema de Esgotamento Sanitário (SES) de Nova Guarapari | Entregue segundo o primeiro parágrafo — mas o corpo do texto descreve um único sistema novo, atendendo Meaípe e Nova Guarapari juntas | Nenhum valor individual | Cesan | Não declarado |
| Estação de Tratamento de Água (ETA) Modular de ultrafiltração | Degrau contraditório. O primeiro parágrafo diz que foi entregue, uma no singular; o corpo diz que foram entregues duas; a fala do governador diz que foram anunciadas | Nenhum valor individual | Cesan | Não declarado |
| Equipamentos para o Hospital Infantil Francisco de Assis (Hifa), com 322 novos itens, entre eles berços, camas hospitalares, gerador, incubadora, ultrassom, raio-x e ventilador pulmonar | Repasse formalizado pelo Termo de Fomento nº 039/2024. O texto usa o futuro: o hospital vai equipar a nova estrutura e contará com os itens | R$ 11.762.206,69, valor que aparece duas vezes no comunicado e é um só repasse | O próprio hospital, entidade filantrópica, é quem compra | Recursos estaduais, segundo o comunicado |
| Custeio mensal de maternidade de risco habitual, pediatria e clínica médica adulto | Repasse formalizado no dia | R$ 4,9 milhões por mês | O hospital | Não declarado com sujeito. O texto diz que o repasse foi formalizado, sem nomear quem o assina |
| Convênio de Contratualização nº 014/2022, que garante obstetrícia para gestantes de risco habitual, enfermaria adulto e pediátrica, cirurgias adulto e pediátrica, Unidades de Terapia Intensiva (UTI, UTIP, UTIN, UCINCO) e salas vermelhas para casos graves | Já vigente. É de 2022 e não é entrega do dia; aparece como contexto | Sem valor divulgado | O hospital presta os serviços | Secretaria da Saúde (Sesa) |
| Ampliação do Sistema de Esgotamento Sanitário de Anchieta, com 9.114 habitantes beneficiados nos bairros Ponta dos Castelhanos, Vila, Oliveira, Justiça II, Anchieta e Portal de Anchieta | Em andamento. Está na lista que o comunicado chama de outros investimentos em andamento na região | R$ 13 milhões | Cesan | Não declarado |
| Ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de Anchieta, com 16.270 mil habitantes beneficiados, como está publicado, em 18 bairros do município | Em andamento | R$ 9,3 milhões | Cesan | Não declarado |
| Ampliação do Sistema de Abastecimento de Água de Iriri, 1ª etapa, com 58 mil habitantes beneficiados e bairro atendido registrado como Sede de Anchieta | Em andamento | R$ 7,6 milhões | Cesan | Não declarado |
| Ampliação do Sistema de Abastecimento de Água de Iriri, 2ª etapa, com 56 mil habitantes beneficiados em Iriri e na Sede de Anchieta | Em andamento. É o maior valor individual de todo o comunicado | R$ 23,3 milhões | Cesan | Não declarado |
| Melhorias no Sistema de Abastecimento de Água de Meaípe, em Guarapari, com 28.282 habitantes beneficiados em Meaípe e Enseada e 20 empregos diretos gerados | Em andamento. Único item do texto com geração de emprego declarada | R$ 4,7 milhões | Cesan | Não declarado |
| Ampliação do Sistema de Abastecimento de Água Morro Alto e Morrinhos, com 19.4 mil habitantes beneficiados, como está publicado, em Meaípe, Condados, Porto Grande, Maembá, Morro Alto e Morrinhos | Em andamento | R$ 8,4 milhões | Cesan | Não declarado |
Nem o número de entregas é estável neste material. O primeiro parágrafo nomeia três peças de saneamento em Guarapari; o corpo do texto descreve duas estações de água onde o primeiro parágrafo descreve uma, e um único sistema de esgoto onde o primeiro parágrafo nomeia dois. Antes de contar quantas obras a cidade ganhou, seria preciso decidir quantas obras o comunicado está descrevendo — e essa decisão o comunicado não permite tomar.
Um total sem parcelas, e parcelas que não são de entrega
O dinheiro deste anúncio se comporta de um jeito curioso, e ele merece ser olhado devagar.
Existe um total: R$ 48,6 milhões, apresentado pelo comunicado como o que as entregas da Cesan em Guarapari somam. Só que nenhuma das três peças entregues traz preço próprio. Não se sabe quanto custou o tratamento de esgoto de Meaípe, quanto custou o sistema de Nova Guarapari nem quanto custou a estação de água. O total existe; a decomposição dele não está em lugar nenhum do texto.
E existem parcelas: seis valores individuais, de R$ 4,7 milhões a R$ 23,3 milhões. Só que essas parcelas não são das entregas. O próprio comunicado as apresenta sob outro rótulo — investimentos em andamento na região — e quatro delas dizem respeito a Anchieta, município vizinho, não a Guarapari. Nenhuma relação entre o total e essas parcelas é declarada, e nada no texto autoriza somá-las ao total nem subtraí-las dele. Aqui elas ficam como o órgão as publicou, cada uma com o seu item e o seu rótulo.
O resultado prático dessa arrumação é conhecido: o valor mais alto que um leitor apressado vai reter, R$ 23,3 milhões, pertence a uma obra que ainda está sendo feita, em outra cidade. E as três obras que o Estado diz ter entregado em Guarapari são justamente as que saíram sem etiqueta de preço.
A estação de água aparece em três versões diferentes
O item mais escorregadio do pacote é a estação de tratamento de água. Ele aparece três vezes no comunicado, e nas três de um jeito distinto.
No primeiro parágrafo, entre as coisas entregues à população, está a Estação de Tratamento de Água (ETA) Modular de ultrafiltração — no singular. Quatro parágrafos adiante, o texto informa que foram entregues duas novas estações com essa tecnologia. E na fala do governador, o verbo muda de família:
Estamos inaugurando a estação de tratamento de esgoto em Guarapari, na região de Meaípe, e anunciamos as estações modulares de tratamento de água para fortalecer a capacidade de ofertar água principalmente nos períodos em que a cidade fica mais cheia. Também estamos abrindo 150 leitos no Hospital Geral de Guarapari, então é investimentos em saúde para melhorar a vida de quem vive na cidade e quem vem nos visitar
A declaração é do governador do Estado, Renato Casagrande. Repare na divisão que ele mesmo faz: inaugurando para o esgoto, anunciamos para as estações de água. É o próprio emissor do comunicado colocando o item num degrau anterior ao que o primeiro parágrafo lhe dá.
Há um terceiro sinal na mesma direção, e ele está na conjugação dos verbos. O texto diz que as duas novas estações vão ampliar a capacidade de produção da Cesan para Guarapari, dos atuais 440 litros por segundo para 570 litros por segundo, e que a empresa será capaz de entregar cerca de 50 milhões de litros de água por dia — o equivalente, na conta do próprio comunicado, a 50 mil caixas d água de mil litros. Futuro em toda a frase. Quem estava com pouca água na torneira na semana do anúncio não encontra, neste material, a informação de quando a capacidade nova passa a existir.
Ultrafiltração, que o texto trata como tecnologia inovadora sem explicar, é um processo em que a água passa por membranas de poros muito finos, que retêm partículas e microrganismos por barreira física. É o que permite, segundo o comunicado, estações mais compactas e tratamento mais eficaz. A palavra modular descreve o formato: unidades montadas em módulos, que podem ser instaladas mais rápido do que uma estação convencional erguida do zero.
Dois nomes para o esgoto, um sistema descrito
A mesma ambiguidade se repete no esgoto, e vale registrá-la sem escolher lado, porque o material não permite escolher.
O primeiro parágrafo nomeia duas peças: a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Meaípe e o Sistema de Esgotamento Sanitário (SES) de Nova Guarapari. Já no corpo, o texto fala em um novo sistema de tratamento de esgoto para atender as regiões de Meaípe e Nova Guarapari, e adiante em um novo sistema de esgotamento sanitário, com capacidade para coletar, tratar e devolver limpos à natureza 7 milhões de litros de esgoto por dia, beneficiando mais de 38 mil moradores dos bairros Meaípe, Enseada Azul e Nova Guarapari.
São duas leituras possíveis: duas obras distintas apresentadas em conjunto, ou uma obra só nomeada de duas maneiras. O comunicado não desfaz a dúvida. Valem ainda dois detalhes de linguagem: a expressão mais de, diante dos 38 mil moradores, deixa o número aberto para cima e não fecha quantidade; e o verbo dessa frase está no futuro — serão beneficiados —, ainda que o item seja apresentado como entregue.
Para situar o resto da cidade: o comunicado afirma que o abastecimento com água tratada é universalizado em Guarapari, e que a coleta e o tratamento de esgoto estão disponíveis para 70,6% da população. A parcela que fica de fora desses 70,6% não é quantificada, não é localizada por bairro e não recebe prazo. Anualmente, ainda segundo o texto, a companhia produz no município 13,2 bilhões de litros de água tratada e coleta, trata e devolve ao meio ambiente 6,4 bilhões de litros de esgoto, no que o material descreve como a contribuição mais significativa para a despoluição das praias e mananciais locais.
Um dado de contexto do próprio comunicado ajuda a dimensionar o desafio: a população da cidade salta de 120 mil para mais de um milhão de habitantes na alta temporada. O material não diz se os 570 litros por segundo dão conta desse pico, nem em quantos dias do ano essa marca é atingida.
Os 150 leitos do anúncio: capacidade instalada, não vaga criada no dia
Este é o ponto em que o fim do comunicado desmente o começo, e ele merece ser lido com a linha do tempo aberta.
Na fala reproduzida acima, o governador afirma que o Estado está abrindo 150 leitos. O último parágrafo do mesmo comunicado conta outra história, com datas:
- o hospital já tinha 98 leitos contratados antes de qualquer ampliação;
- em outubro, foram ampliados 52 leitos — 30 de enfermaria adulto, dez de salas vermelhas, 2 leitos de UCINCO e dez leitos de UTI adulto —, chegando ao total de 150;
- em dezembro do ano anterior ao anúncio, houve nova ampliação, de mais 11 leitos: 10 de UTI e um de sala vermelha pediátrica;
- na data do comunicado, o hospital estava com 161 leitos.
Ou seja: os 150 leitos citados na solenidade não são leitos abertos naquela sexta-feira, e nem sequer eram o número vigente. São o total contratado alcançado em outubro, dos quais 98 já existiam antes. E o próprio texto informa que esse patamar foi superado em dezembro. As parcelas que o comunicado lista coincidem com os totais que ele mesmo declara — o problema não é aritmético, é de tempo verbal: uma ampliação concluída meses antes é anunciada no presente contínuo, como se estivesse acontecendo ali.
A distinção vale para qualquer anúncio de saúde: leito contratado é capacidade, não atendimento. O material não informa quantos desses 161 leitos estão ocupados, quantos estão efetivamente em operação com equipe completa, nem qual é a espera para cada especialidade.
Um glossário rápido dos termos que o comunicado usa sem abrir: sala vermelha é o espaço da emergência destinado a quem chega em estado grave e precisa de atendimento imediato; risco habitual, na maternidade, descreve a gestação sem complicação identificada, que não exige acompanhamento de alta complexidade; e a sequência de siglas UTI, UTIP, UTIN e UCINCO separa os cuidados intensivos por público — adulto, pediátrico, neonatal — e por grau de intensidade do cuidado ao recém-nascido.
Quem entrega, quem paga e quem já operava o hospital
O título oficial credita ao Governo do Estado a entrega de obras e serviços. A leitura completa do texto mostra um arranjo mais repartido.
Na saúde, o Estado não construiu hospital nem passou a administrar um. O que houve foi repasse de dinheiro público estadual para uma entidade filantrópica: o Hospital Infantil Francisco de Assis (Hifa), descrito no material como gestor do Hospital Cidade Saúde Dr. Luiz Buaiz e como hospital geral filantrópico, referência em Pediatria e Maternidade na cidade e na Região Sul. É ele quem vai comprar os 322 itens de equipamento e quem presta os serviços. O comunicado ainda registra que a Sesa atua junto com a Prefeitura de Guarapari nesse esforço — ou seja, há um terceiro ator no arranjo, e o título não o menciona.
Vale sublinhar a data que o próprio texto fornece: o hospital foi inaugurado em agosto de 2024. Já estava aberto e atendendo havia meses quando o governador, em janeiro, oficializou os serviços. O que foi oficializado, portanto, é o instrumento financeiro, não a abertura de portas.
Há também uma imprecisão de nomes que o material não resolve. O Hifa aparece ora como gestor do Hospital Cidade Saúde Dr. Luiz Buaiz, ora como o próprio hospital que tem 161 leitos e foi inaugurado em agosto de 2024. Na fala do governador surge um terceiro nome — Hospital Geral de Guarapari — que não aparece em nenhuma outra linha do comunicado. E a expressão Cidade Saúde é usada tanto como apelido da cidade quanto como parte do nome do hospital. Quem lê corrido pode acabar contando três unidades onde o material parece descrever uma.
No saneamento, quem executa é a Cesan. Quem paga, ninguém diz. A frase do comunicado sobre os R$ 48,6 milhões está em voz passiva e sem sujeito: os recursos foram aplicados. Não se informa se vieram do orçamento estadual, do caixa da própria companhia, de financiamento ou de alguma combinação disso. Voz passiva sem sujeito, num anúncio de investimento, é ausência de informação, não detalhe de estilo.
Sobre o modelo em que essas obras se inserem, é útil saber que o saneamento capixaba passou a contar com parceiros privados em larga escala meses depois deste anúncio, quando um leilão internacional escolheu sócios privados para o esgoto de 43 cidades capixabas — processo posterior a esta agenda e independente dela, e num estágio distinto, porque definir vencedor de leilão vem antes de contratar e muito antes de construir.
A lista de valores é, na maior parte, de Anchieta
Um leitor de Guarapari que percorra a lista de investimentos do comunicado precisa reparar no endereço de cada linha. Dos seis itens listados como em andamento na região, quatro descrevem obras de Anchieta: a ampliação do sistema de esgotamento sanitário do município, a ampliação da estação de tratamento de esgoto e as duas etapas do abastecimento de água de Iriri. Os dois itens de Guarapari são as melhorias no abastecimento de Meaípe, com R$ 4,7 milhões, e a ampliação do sistema de Morro Alto e Morrinhos, com R$ 8,4 milhões.
Duas observações que o material não faz e que mudam a leitura da lista:
- As duas etapas de Iriri podem se sobrepor. A 1ª etapa registra 58 mil habitantes beneficiados e um único bairro atendido, a Sede de Anchieta; a 2ª etapa registra 56 mil habitantes e dois bairros, Iriri e a Sede de Anchieta. A segunda etapa cobre mais território e declara menos gente. O comunicado não diz se as populações das duas etapas são as mesmas pessoas contadas duas vezes ou grupos distintos — e, sem isso, não existe um número de beneficiados do conjunto.
- Um dos números está publicado numa unidade impossível. A ampliação da estação de tratamento de esgoto de Anchieta aparece com 16.270 mil habitantes beneficiados. Lido ao pé da letra, isso seria mais de dezesseis milhões de pessoas num município do interior capixaba. O dado é reproduzido aqui exatamente como o órgão o publicou, sem correção e sem escolha silenciosa entre as leituras possíveis. O mesmo cuidado vale para os 19.4 mil habitantes do item de Morro Alto e Morrinhos, publicado com ponto onde a grafia usual do país pede vírgula.
Meaípe, aliás, aparece em quatro linhas diferentes do mesmo comunicado: no esgoto entregue, no sistema de esgotamento sanitário que beneficia o bairro, nas melhorias de abastecimento de água em andamento e na lista de bairros do item de Morro Alto e Morrinhos. São intervenções diferentes no mesmo lugar, e não uma obra contada quatro vezes — mas a repetição do nome infla a impressão de volume.
O que o leitor de Guarapari não consegue saber por este material
A parte mais útil de um anúncio oficial costuma ser o que ele deixa de fora. Aqui, a lista é longa:
- quanto custou, separadamente, cada uma das três entregas de saneamento em Guarapari;
- de que origem saem os R$ 48,6 milhões — orçamento do Estado, caixa da companhia ou financiamento;
- se a estação de água já está operando ou apenas anunciada, e a partir de que dia os 570 litros por segundo estarão disponíveis;
- se a ETE Meaípe e o sistema de Nova Guarapari são duas obras ou uma;
- quais ruas e quais imóveis passam a ter coleta de esgoto agora, e o que o morador precisa fazer para se ligar à rede — se há pedido, prazo, custo ou visita técnica;
- quantos moradores ainda estão fora dos 70,6% de cobertura de esgoto, em quais bairros, e quando serão atendidos;
- se os 570 litros por segundo atendem à população de alta temporada que o próprio texto descreve;
- quando os 322 equipamentos serão comprados, quando chegarão ao hospital e quando começarão a ser usados;
- por quanto tempo vale o repasse mensal de R$ 4,9 milhões e o que acontece quando ele terminar;
- quantos dos 161 leitos estão ocupados, quantos operam com equipe completa e qual é a espera por especialidade;
- como o morador chega a esses leitos — se por encaminhamento da rede municipal, por regulação estadual ou por procura direta na emergência;
- o que muda, no dia a dia, para quem já era paciente do hospital antes da assinatura;
- qual é a data de conclusão prevista de cada uma das seis obras listadas como em andamento.
Nada disso é esquecimento de redação. Uma nota de divulgação é escrita para registrar decisão tomada, não para orientar quem vai ao balcão — e por isso endereço, prazo, documento a levar e telefone de referência raramente entram nela. A falta continua sendo daí em diante um problema de quem mora na cidade, não de quem escreveu o texto.
Uma agenda contada inteira por quem a organizou
Vale dizer de onde sai tudo o que está escrito acima: de um único documento, assinado pelo Governo do Estado. O emissor é, ao mesmo tempo, quem anuncia as obras, quem controla a companhia de saneamento que as executa, quem assina o termo que libera o dinheiro da saúde e quem convocou a solenidade. Duas pessoas falam no material, e as duas ocupam cargos nesse mesmo governo: o governador e o secretário de Estado da Saúde.
Essa ação é um marco para a saúde em Guarapari, oferecendo uma estrutura hospitalar que atenderá às demandas da cidade e da região, garantindo a universalidade, a equidade e a integralidade na atenção hospitalar
A avaliação é do secretário de Estado da Saúde, Tyago Hoffmann. Ela descreve princípios e não descreve serviço: não há, nela ou no restante do comunicado, uma linha sobre horário, porta de entrada, agendamento ou fila. O verbo, também aqui, está no futuro — a estrutura atenderá.
Não há no material quem more em Meaípe, em Nova Guarapari ou na Enseada Azul para dizer como estava a água e o esgoto antes e como ficou depois. Não há paciente nem profissional do hospital. Não há a Prefeitura de Guarapari falando por si, embora seja apontada como parceira. Não há voz de oposição, nem especialista sem vínculo com as partes. O silêncio dos outros lados não significa que eles concordem: significa que este documento não os procurou, porque não é função dele fazer isso.
Há uma conferência que dispensa assessoria e só pede paciência: olhar a valeta que corria a céu aberto, abrir a torneira no verão seguinte e perguntar na recepção do hospital o que ele passou a fazer. Enquanto essas três respostas não chegam, o saldo do dia é uma estação ligada, outra prometida e papel assinado.
As obras em Guarapari seguiram depois desta agenda, e em pontos vizinhos aos que aparecem aqui. Semanas mais tarde, a companhia começou a interligar uma nova rede de abastecimento de água na comunidade de Samambaia — obra distinta desta e posterior a ela. Cerca de um ano depois, foi a vez de a mesma dupla de bairros deste pacote reaparecer, quando Guarapari ganhou um reservatório de água em Meaípe e Enseada, em episódio bem posterior a este e de outro tipo de estrutura: reservatório guarda água tratada, estação de tratamento a produz. Ler o verbo antes da cifra continua sendo o que separa a obra que já existe da obra que ainda vai começar.
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