Golpe do consórcio imobiliário: líder preso vira réu no ES

O golpe do consórcio imobiliário investigado pelo 3º Distrito Policial de Vitória saiu do inquérito e virou processo. A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) detalhou em coletiva de imprensa a Operação Consórcio Falido, deflagrada em 24 de abril, e informou que o apontado líder do grupo teve prisão preventiva decretada. A fase é de ação penal: os suspeitos se tornaram réus, ou seja, a acusação foi recebida pela Justiça e o processo passou a correr — ninguém foi julgado nem condenado. A apresentação foi feita na segunda-feira (12), na Chefatura da Polícia Civil, em Vitória.

O que já foi decidido e o que ainda não foi

Três medidas judiciais aparecem no material da PCES, e vale separar o que cada uma significa, porque nenhuma delas é punição:

  • Prisão preventiva do apontado líder. É prisão antes de julgamento, decretada para assegurar o andamento do processo. Não é pena e pode ser revogada a qualquer momento pela Justiça.
  • Cinco mandados de busca e apreensão. Autorizam a entrada em endereços para recolher material de interesse da investigação. Quem tem endereço vasculhado não é, por isso, condenado.
  • Bloqueio de contas bancárias dos investigados. Congela o dinheiro para que ele não desapareça enquanto o caso corre. É medida de garantia, não confisco.

A PCES informa que quatro pessoas foram identificadas como integrantes do grupo. O material não diz que as quatro foram presas — a prisão preventiva citada é a do apontado líder. Também não detalha a situação processual individual das outras três, além da informação de que os suspeitos passaram à condição de réus.

Há uma diferença de vocabulário no próprio material que merece registro. No primeiro trecho, a PCES fala em associação criminosa; mais adiante, em organização criminosa. São enquadramentos penais distintos, e o texto oficial não explica qual deles foi adotado na ação penal. Como quem informa a tipificação é a polícia, esta reportagem mantém os dois termos como a fonte os escreveu, sem escolher um.

Como funcionava o golpe do consórcio imobiliário, segundo a polícia

A descrição do delegado Diego Bermond, titular do 3º Distrito Policial de Vitória, é a única versão disponível sobre o funcionamento do esquema. Em resumo: o contato começava por um anúncio de imóvel na internet, seguia para uma visita presencial que dava aparência de normalidade ao negócio e terminava numa transferência de dinheiro feita antes de o comprador ter qualquer imóvel em mãos.

O ponto que interessa a quem lê é esse último: o dinheiro saía adiantado, sob a promessa de contemplação em consórcio. Consórcio é a compra em grupo, com parcelas mensais, em que a liberação do bem depende de sorteio ou de lance — nunca de garantia dada de viva-voz por quem vendeu a cota. Foi por essa promessa, diz a polícia, que as pessoas transferiram valores.

Sobre a origem da apuração, o delegado relatou:

Iniciamos a investigação em março deste ano, após o comparecimento de uma vítima à nossa unidade, que relatou ter sofrido um prejuízo de R$ 60 mil. Ela havia localizado um anúncio de imóvel em uma plataforma digital, fez contato com o número informado e foi orientada a comparecer a um escritório localizado em bairro nobre da Capital, onde foi induzida a acreditar que estava ingressando em um consórcio. Após a transferência dos valores, o investigado desapareceu

O relato é do titular do 3º Distrito Policial de Vitória, delegado Diego Bermond.

Sobre a aparência de legitimidade que o grupo construía, Bermond acrescentou:

Eles criavam perfis falsos em redes sociais e sites de venda, como OLX e Marketplace, anunciando imóveis que não pertenciam a eles. Quando a vítima demonstrava interesse, um integrante do grupo se passava por corretor e marcava visitas nos imóveis, que também eram conseguidas com base em falsas informações

Duas coisas se depreendem dessa fala, e elas valem mais que qualquer passo a passo: ver o imóvel por dentro não prova que quem mostra é o dono, e escritório em endereço caro não é credencial. O ponto de partida do esquema, conforme a PCES, era uma sala corporativa na Enseada do Suá, em Vitória — endereço de alto padrão que, na leitura da investigação, servia justamente para emprestar respeitabilidade ao negócio.

Sete vítimas, R$ 400 mil e um número que a fonte apresenta duas vezes

Cada valor divulgado pela PCES vem com uma condição própria, e eles não se somam nem se explicam entre si:

  • Mais de R$ 400 mil é o prejuízo que a polícia atribui ao grupo, para pelo menos sete vítimas já identificadas. O advérbio é do órgão: podem ser mais.
  • R$ 60 mil é o prejuízo relatado pela pessoa cuja queixa deu início à apuração, em março. O material não informa se esse valor está dentro dos R$ 400 mil.
  • Até R$ 50 mil é o valor que o delegado atribui a alguns dos relógios recolhidos.

Sobre o que foi recolhido, o material oficial diverge de si mesmo num item. No texto corrido, a PCES lista celulares, documentos, oito carregadores, relógios, uma pistola 9mm, 314 munições e ainda pistolas e rifles de airsoft. Na fala do delegado, na mesma página, o número é outro:

Conseguimos apreender diversos objetos, entre eles 383 munições, carregadores e relógios, alguns avaliados em até R$ 50 mil. Também apreendemos um simulacro de arma de fogo e materiais utilizados para falsificação de documentos

A declaração é do delegado Diego Bermond. Os dois números — 314 e 383 — estão no mesmo material, e a PCES não os relaciona: não diz se um é parte do outro, se houve recontagem ou se as contagens tratam de apreensões distintas. Esta reportagem publica os dois como a fonte os apresenta, sem refazer conta. Vale o mesmo registro para as armas: o texto oficial menciona uma pistola 9mm e réplicas de airsoft, enquanto a fala do delegado cita um simulacro — objeto que imita arma e não dispara. O material não esclarece a relação entre as duas descrições.

O material nomeia Vitória, e só Vitória

O caso circulou sob o rótulo de Grande Vitória, que é uma região, não um endereço. Lendo o material da PCES até o fim, o único município citado é Vitória, e ele aparece em três papéis diferentes que não devem ser achatados num só:

  • Onde o esquema operava: uma sala corporativa na Enseada do Suá, na capital, e um escritório descrito pelo delegado como situado em bairro nobre da Capital.
  • Quem investigou: o 3º Distrito Policial de Vitória.
  • Onde a informação foi divulgada: a Chefatura da Polícia Civil, em Vitória.

A PCES não informa em que cidade o apontado líder foi capturado, em quais endereços os cinco mandados foram cumpridos, nem de qual vara ou comarca partiram as decisões judiciais. Sem isso, dizer que o caso é da Grande Vitória é usar o guarda-chuva no lugar do dado.

Onde procurar ajuda se você transferiu dinheiro

É preciso ser franco quanto a isto: o material da PCES não traz cartilha de compra de imóvel. Não há, no texto oficial, orientação sobre conferir documentação, checar registro do imóvel ou verificar quem vende. Montar essa lista aqui seria colocar na boca da polícia o que ela não disse. A única recomendação que a fonte sustenta é a do próprio delegado, e ela é sobre denunciar:

É fundamental que, ao perceberem qualquer indício de golpe, as pessoas procurem a delegacia. Muitas vezes, por vergonha, elas não denunciam, e isso dificulta a responsabilização dos criminosos. Com o avanço da investigação, esperamos localizar mais vítimas e responsabilizar todos os envolvidos.

A recomendação é do delegado Diego Bermond. Quem perdeu dinheiro num golpe do consórcio imobiliário parecido pode registrar ocorrência em qualquer delegacia. Além disso, dois canais públicos recebem informação:

  • 181 — o Disque-Denúncia recebe informações sem que a pessoa precise se identificar. Serve para quem sabe algo sobre um esquema e receia se expor.
  • 190 — para situação em andamento, que exige atendimento imediato.

A vergonha, aliás, é o obstáculo que o delegado aponta, e ele merece ser dito com todas as letras: quem confia num anúncio, visita um imóvel e assina um papel não está sendo ingênuo. Esquema montado para parecer legítimo existe exatamente para vencer a desconfiança de gente atenta — e é essa a razão pela qual a polícia diz esperar encontrar mais pessoas atingidas.

O que a fonte não responde

Fica de fora do material oficial, e não é detalhe:

  • quanto tempo o esquema funcionou até a queixa de março;
  • se há caminho para as pessoas recuperarem o dinheiro, e se o bloqueio das contas alcança valor suficiente para isso;
  • quais crimes exatamente constam da ação penal, além dos termos associação criminosa e organização criminosa usados no texto;
  • se os investigados apresentaram defesa. O material é comunicação de um órgão de investigação e traz um lado só — a ausência de contestação no release não significa que ela não exista.

Em episódio independente, sem ligação com este caso nem com as mesmas pessoas, a Polícia Civil também tratou de fraude patrimonial na Operação ‘Aliança Fraudulenta’, sobre um esquema de clonagem de cartões.

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