Segurança do Trabalho: turma de Guarapari vê acesso por cordas

A turma do ano do curso técnico em Segurança do Trabalho da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Zuleima Fortes Faria, em Guarapari, passou um período dentro de uma empresa que treina gente para trabalhar suspensa em cordas. O comunicado oficial que registrou a saída saiu em julho de 2025 sem informar o dia da visita, e a atividade já estava encerrada quando o texto foi publicado — não há inscrição aberta nem convite a ninguém.

O curso funciona dentro da escola estadual, para quem cursa o ensino médio ao mesmo tempo, e o assunto do dia foi o mais concreto que essa formação alcança: o que se faz para que uma pessoa pendurada a metros do chão não caia. O texto oficial descreve com algum detalhe o que a turma encontrou lá dentro. É na distância entre o que ele promete no primeiro parágrafo e o que ele narra nos seguintes que o comunicado se desencontra de si mesmo.

O objetivo declarado é experiência prática; o relato é de demonstração

A abertura do material promete aos estudantes uma experiência que ele qualifica de prática e direta com os procedimentos usados nesse tipo de treinamento. Vale acompanhar, então, quem conjuga cada verbo no corpo do texto.

A turma realizou uma visita técnica. Os estudantes do último ano puderam conhecer — e o verbo carrega uma autorização embutida, porque alguém abriu a porta e conduziu o percurso — as instalações da casa, os equipamentos de proteção que se usam ali e o que duas normas exigem de quem trabalha suspenso. Já quem apresentou o repertório do ofício foi a equipe técnica da empresa: como se sobe e se mantém a posição na corda, onde ela se prende e que protocolos regem cada passo. O único verbo de execução técnica do comunicado tem essa equipe como sujeito, e não a turma.

Não há, em nenhuma linha do comunicado, um estudante vestindo equipamento, preso a uma corda, subindo, descendo ou participando de simulação de resgate. Isso não significa que ninguém tenha subido: significa que o material não descreve nada disso. A diferença importa porque assistir a uma técnica sendo executada e executá-la sob supervisão são etapas separadas de qualquer formação técnica — e o comunicado usa a palavra da segunda para narrar a primeira.

NR 35 e NBR 15.475: dois números, nenhuma tradução

O texto informa que a turma conheceu os padrões de segurança exigidos pelas normas NR 35 e NBR 15.475. E para aí. Não diz o que cada uma determina, a quem se aplica, quem fiscaliza o cumprimento, o que ela obriga um empregador a fornecer nem o que acontece com quem a descumpre. Para o estudante que vai trabalhar com esses códigos, e para o trabalhador que depende deles, essa é a informação que faltou — e ela não é secundária ao assunto: ela é o assunto.

O que o próprio material explica, e vale reproduzir para quem chega ao tema pela primeira vez: EPI é a sigla de equipamento de proteção individual, o que a pessoa veste ou prende ao corpo para reduzir o risco a que está exposta. IRATA é a Industrial Rope Access Trade Association, a entidade estrangeira de onde vem a certificação citada. Ancoragem e posicionamento por cordas o comunicado não define; pelo uso que faz das expressões, são os pontos fixos em que a corda se prende e a maneira de manter o corpo estável enquanto se trabalha no ar. Análise de risco, planejamento e procedimento de resgate em altura aparecem como as três coisas que a equipe da empresa enfatizou, e nenhuma delas é detalhada.

A mesma empresa com dois nomes, e um elogio sem medida

No corpo do texto, quem recebeu a turma é a IBEX Rope Access Treinamentos e Serviços Ltda. Na fala da coordenadora do curso, reproduzida adiante, a mesma saída é uma visita à IBEX Acesso por Cordas. O material não avisa que as duas formas designam a mesma casa, e quem lê depressa pode contar dois destinos onde houve um.

Há também um adjetivo a registrar. O comunicado, escrito pela rede pública de ensino, apresenta a empresa como referência em treinamentos de acesso por cordas. Referência aferida por quem, comparada com o quê e em que período, ele não conta. A certificação internacional é mencionada três vezes no mesmo texto — uma na descrição da empresa e duas dentro de falas —, sempre como atributo, nunca com número de registro, data de emissão ou prazo de validade.

Vale ter isso à vista: um texto assinado por uma rede pública que qualifica uma empresa privada entrega a ela uma vitrine que não está à venda. E o comunicado não ouve ninguém de lá. Nenhum instrutor, técnico ou responsável da empresa tem uma frase no material; nada se diz sobre quem procurou quem, se existe acordo entre a escola e a empresa, se houve pagamento em alguma direção. Também não aparece avaliação de ninguém fora da rede estadual sobre o que a saída acrescentou ao curso — quem escreveu o texto foi quem organizou a atividade.

O que a coordenação do curso disse depois da saída

Tatiane da Silva coordena o curso técnico na escola e comentou a atividade no próprio comunicado distribuído pela rede estadual:

Oportunidades como esta visita à IBEX Acesso por Cordas são essenciais para a formação dos nossos alunos. Trazer a realidade do trabalho em altura para mais perto do estudante permite uma compreensão mais profunda das normas de segurança e da importância da correta aplicação dos procedimentos técnicos

Ainda como professora do curso, ela volta em seguida ao ponto da certificação:

A certificação internacional da empresa é um diferencial que agrega muito valor ao aprendizado, mostrando aos alunos os padrões globais que eles deverão seguir em suas carreiras. Estamos confiantes de que essa experiência contribuirá significativamente para a qualificação e conscientização dos futuros técnicos em segurança do trabalho

Repare no tempo dos verbos: deverão seguir, contribuirá, estamos confiantes. O que se afirma sobre a saída é uma expectativa a respeito da carreira dessas pessoas, e o comunicado não traz nada que caminhe junto com ela — nenhum trabalho pedido depois, nenhum relatório, nenhuma atividade avaliativa, nenhuma medida do que a turma reteve.

A rede estadual publicou o nome da estudante; esta matéria não publica

O comunicado traz a fala de uma estudante do 3º ano assinada com nome e sobrenome. Aqui ela vai inteira, sem o nome, e a razão não está no que a fala diz — o teor é elogioso e não compromete quem falou em coisa nenhuma.

Reunir num mesmo parágrafo o nome de alguém, a unidade em que essa pessoa estuda, o curso, o ano e o município é o bastante para individualizá-la. Um depoimento simpático sobre uma tarde fora da sala não compensa deixar essa combinação exposta num arquivo que a busca on-line não descarta — arquivo que estará lá quando um empregador digitar esse nome daqui a dez anos, na frente de tudo o que essa pessoa tiver feito no intervalo. A fala fica inteira; quem a disse aparece pelo que faz na escola. Com a coordenadora do curso é diferente: organizar uma atividade dessas e falar por ela é ofício, e ofício se exerce em público.

A fala, sem cortes por dentro, foi esta:

A visita à IBEX foi uma experiência muito enriquecedora. Pudemos ver de perto como são feitos os treinamentos e os cuidados que devem ser tomados para trabalhar em altura com segurança. Conhecer uma empresa com certificação internacional nos mostrou a importância de buscar sempre a melhor qualificação para atuar no mercado de trabalho. Saímos daqui mais preparados e motivados para aplicar tudo o que aprendemos em sala de aula

Ela também narra em verbos de presença: ver, conhecer, sair. E o trecho mais concreto do material inteiro está aí, na descrição de uma turma que viu de perto como os treinamentos são feitos — quem esteve lá confirma, sem querer, o que a prosa oficial já contava.

Curso técnico em Segurança do Trabalho: o que o comunicado não conta da visita

  • Quando foi. Não há data, dia da semana nem duração da atividade.
  • Quantos foram. A identificação para no ano do curso: o número de estudantes não aparece, e nem dá para saber se saiu uma turma só ou o curso inteiro.
  • Onde fica a empresa. Guarapari é onde a escola está. O município da empresa que recebeu o grupo não é declarado, e com ele ficam sem resposta o trajeto, o veículo e quem arcou com a despesa.
  • Quem foi junto. Além da coordenadora, o material não nomeia nem conta os profissionais da escola que acompanharam o grupo.
  • Quem conduziu. A equipe técnica que apresentou tudo aparece sempre no plural, e ninguém dela é nomeado nem tem a função descrita.
  • Se alguém subiu. Não há relato de estudante equipado, preso a corda ou em simulação de resgate. O texto tampouco afirma que isso não ocorreu.
  • Se rendeu documento. Nada indica que a turma tenha recebido comprovante, credencial ou habilitação decorrente da visita.
  • Como o acesso foi combinado. Não se informa quem procurou quem, se existe convênio, se houve custo e para quem.
  • Se repete. Uma próxima edição não é anunciada nem excluída: o assunto não chega a ser tratado no texto.

Iniciativa da escola, e não política pública com nome

Não há programa nomeado, meta, verba, calendário estadual nem orientação dirigida às outras unidades. O que o texto sustenta é uma decisão tomada dentro da própria escola, e divulgá-la num canal da rede não converte o que uma unidade fez em política com nome e prazo.

A mesma turma, o mesmo ano letivo, outras saídas da sala

Cinco semanas antes desta visita, no fim de maio de 2025, estudantes do 3º ano desse mesmo curso técnico, na mesma escola de Guarapari, vestiram óculos que imitam os efeitos do álcool, da droga e do sono numa atividade sobre segurança no trânsito. Naquele dia o assunto chegou até a escola; neste, a turma é que saiu — e nos dois o texto oficial mede a atividade pelo que ela pretendia, não pelo que deixou.

O formato se repete no município. Em maio de 2025, a turma de outro curso técnico de uma escola estadual de Guarapari passou um dia dentro de uma fábrica de chocolates, acompanhando a produção conduzida pela equipe da própria empresa. E em novembro de 2024, estudantes de mais uma escola estadual do município foram conhecer uma usina hidrelétrica e o Instituto Terra. As três saídas são anteriores a esta e nenhuma delas tem ligação declarada com ela.

O mesmo desenho aparece fora de Guarapari e com o mesmo desfecho de texto. Em setembro de 2024, uma turma de curso técnico em Logística visitou um terminal de cargas aéreas e o relato oficial também descreveu observação, não operação. Em todos eles, o que o comunicado registra termina no instante em que a turma volta para a escola. O que essas saídas renderam depois — em nota, em estágio, em emprego, em decisão de carreira — é a parte que nenhum dos textos oficiais acompanha, e é a que mais interessa a quem pensa em fazer um curso técnico em Segurança do Trabalho.

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