A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) vendeu os 65 veículos que levou ao 3º leilão de viaturas da instituição, realizado no sábado (09) e o primeiro de 2025. Segundo a nota oficial da corporação, o valor final arrecadado chegou a R$ 2.526.793,00, 112% acima do valor inicial combinado dos lotes, de R$ 1.193.150,00. O resultado do leilão de viaturas foi divulgado pela própria PCES, e é aí que começa o que o material não resolve: a nota não apresenta os números dos dois leilões anteriores — sem eles, não há como conferir se este foi mesmo o maior da série.
O que o resultado do leilão de viaturas mede, e o que ele não mede
A cifra de R$ 2.526.793,00 não é imposto, taxa nem multa. É receita de venda de bem público usado: a soma do que os arrematantes se comprometeram a pagar por 65 viaturas fora de uso, cada uma disputada como um lote. Não é dinheiro que a corporação cobrou de alguém — é patrimônio que saiu do estoque do Estado.
E não é dinheiro em caixa. O próprio texto oficial diz que, encerrada a disputa, ainda faltam receber o dinheiro dos arrematantes, entregar os carros e prestar contas do certame. Ou seja: no dia em que o balanço foi anunciado, o valor era o que havia sido ofertado, não o que havia entrado. Leilão com lance vencedor e pagamento pendente é situação corriqueira, e a nota não informa prazo para essa etapa nem o que acontece se algum arrematante desistir.
Vale separar também os outros três números do balanço, porque cada um conta uma coisa diferente:
- 44.193 visualizações — acessos à página do certame, não pessoas. Uma mesma pessoa que abre o lote dez vezes gera dez visualizações;
- 2.637 lances — ofertas registradas, não participantes;
- 350 pessoas cadastradas — este, sim, um número de gente, e o único do conjunto que conta indivíduos.
Somar ou converter esses três em uma medida só seria conta do leitor, não informação da corporação. A nota também não diz quantas dessas 350 chegaram a arrematar algum veículo.
Recorde em relação a qual leilão? A nota não diz
O balanço registra que este foi o terceiro leilão de viaturas da história da instituição e o primeiro do ano. Sobre os dois primeiros, o material oficial não traz uma linha: nem o ano em que ocorreram, nem quantos veículos venderam, nem quanto renderam. A palavra recorde tampouco aparece no texto distribuído pela corporação, que fala apenas em valores acima da expectativa.
A distinção importa. Marca só existe contra série: sem os resultados anteriores publicados, o leitor não tem como verificar a comparação, e um desempenho apresentado pelo próprio órgão que o obteve não equivale a um dado conferido por terceiro. O que a nota sustenta é o valor deste leilão. O posto de maior de todos, não.
O texto oficial atribui o resultado acima do previsto a dois fatores, ambos declarados pela própria comissão organizadora: a seleção criteriosa dos lotes e a divulgação ampla, inclusive em redes sociais. São explicações do organizador sobre o trabalho do organizador.
Os dois veículos que a corporação destacou
Do conjunto de 65 lotes, a nota detalha dois. O mais disputado foi uma camionete Toyota Hilux CDLOWM4FD 2018/2019, arrematada por R$ 84.000,00 depois de 150 lances, partindo de R$ 44.200,00 — também a maior arrematação do dia. A maior variação proporcional ficou com uma motocicleta Honda CG 125 Cargo 1998/1998, que saiu por R$ 5.250,00, um aumento de 518% sobre o valor inicial de R$ 850,00.
Os demais lotes não aparecem. O material não publica a relação item a item com o valor de partida e o valor de arremate de cada um, o que impede refazer o total pela ponta. A disputa durou aproximadamente sete horas e meia — e essa é, aliás, a única medida que o texto oficial apresenta de forma aproximada; todas as demais vêm como números fechados.
Os compradores não vieram só do Estado: a nota cita participantes residentes no Espírito Santo, na Bahia, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Minas Gerais, sem informar quantos de cada lugar. As regras da disputa, os pisos de cada lote e o formato do certame haviam sido divulgados semanas antes, quando o leilão ainda era só edital — vale recuperar o que dizia o aviso publicado em 20 de julho de 2025, antes da disputa.
Dinheiro de venda de bem público: a nota diz o destino, não o caminho
Esta é a pergunta que sobra em qualquer leilão de órgão público, e a corporação a responde pela metade. O delegado-geral afirma que os recursos voltam para a frota:
O leilão de viaturas usadas viabiliza um maior dinamismo na renovação da frota da instituição. Com os recursos obtidos, são adquiridos novos veículos, mais modernos e aptos para o apoio à investigação criminal, o que impacta diretamente na melhoria dos índices de combate à criminalidade
A declaração é do delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda.
O que fica sem resposta é o percurso do dinheiro. O material não informa em que conta ou fundo o valor é recolhido, se a receita fica vinculada à corporação ou entra no caixa geral do Estado antes de voltar, quantas viaturas novas os R$ 2.526.793,00 compram, nem em que prazo. A etapa final de contas é anunciada, mas o texto não diz a quem ela será apresentada, quando, nem onde o cidadão poderá lê-la.
Um balanço de movimento, não de resultado
Repare no que o comunicado escolhe medir: lances, visualizações, cadastros, reais. Tudo isso descreve o movimento do certame. O efeito prometido na fala oficial, de impacto sobre os índices de criminalidade, não vem acompanhado de um único indicador. Não há no material o tamanho atual da frota, a idade média dos veículos, quantos foram comprados com o dinheiro dos leilões anteriores, nem qualquer número de segurança pública que permita testar a ligação.
Some-se a isso a natureza do documento: quem divulga o desempenho é a mesma instituição que organizou o leilão, vendeu os bens e receberá o dinheiro. Não há no material avaliação de órgão de controle, laudo de avaliação dos veículos feito por terceiro nem manifestação de qualquer instância externa — e um comunicado sem contestação não é o mesmo que um resultado auditado. É o ponto de partida da apuração, não o fim dela.
O próximo leilão, e o que ainda falta saber
Há mais um certame em preparo, segundo a comissão:
A expectativa é de que o próximo leilão de viaturas da PCES ocorra nos próximos meses: já houve a contratação de leiloeiro oficial e a divulgação inicial ocorrerá no site oficial da instituição
Quem falou foi o presidente da Comissão Permanente de Credenciamento e Leilão de Veículos, delegado Érico Mangaravite. Para quem pretende dar lance na próxima edição, a informação prática é essa: o anúncio sairá no site oficial da corporação. O endereço eletrônico não foi divulgado no comunicado, assim como não há data prevista, quantidade de veículos nem informação sobre quando o edital será publicado.
Além disso, o material silencia sobre o estado de conservação de cada lote vendido, sobre os custos que recaem sobre quem arremata, como comissão e transferência, e sobre o critério que define quando uma viatura é considerada inservível e vai para a fila do leilão. São exatamente as informações que separam um balanço de arrecadação de uma política de renovação de frota que possa ser acompanhada de fora.
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