A mudança anunciada para o bairro de Piranema, em Cariacica, começou por um documento, e não por uma obra. Na sexta-feira (29), o Governo do Estado, a Prefeitura de Cariacica e a organização social que criou a metodologia assinaram o Acordo de Cooperação que dá largada ao Favela 3D em Piranema e apresentaram em público a lista de melhorias planejada para o território. A cifra divulgada é previsão, não contrato: R$ 50 milhões, sem divisão informada entre os parceiros e sem um único valor amarrado a um item específico da lista.
O nome do projeto é uma sigla que o comunicado abre uma vez só: 3D de Digna, Digital e Desenvolvida. É um modelo de atuação social que a organização já aplica em outros estados e que agora chega a Cariacica com a assinatura do Estado, da prefeitura e de empresas que entram como apoiadoras — a Vale e a Simec Cariacica na condição de principais, a EDP entre as demais parceiras. Uma segunda organização, a Rede Protagonista, aparece no acordo e o material não descreve o papel dela.
Vale registrar o que este texto é e o que não é: um registro do dia da assinatura, em 29 de agosto de 2025. Nada no material oficial informa o andamento posterior de qualquer uma das melhorias listadas.
O que o Favela 3D em Piranema já entregou — e o que continua no papel
O comunicado mistura, na mesma leitura corrida, coisas em estágios muito diferentes. Separando item por item, o que já existe no bairro é isto:
- Programa Decolagem, em execução. O acompanhamento individualizado de famílias já foi iniciado, com equipe técnico social, diagnóstico caso a caso, plano familiar e mentores. 600 famílias participam.
- 50 postes de iluminação instalados pelo projeto Litro de Luz, em parceria com a EDP. O material credita à instalação um ganho de segurança, sem apresentar qualquer indicador que o meça.
- Ações comunitárias já realizadas: atividades no campo Bola Branca, encontros com lideranças do bairro e rodas de conversa sobre violência contra mulheres, a cargo da equipe psicossocial.
- Inscrições abertas para cursos que qualificam para o mercado de trabalho. Falta no anúncio o essencial para quem quer uma vaga: local de inscrição, prazo, relação dos cursos e número de vagas.
E esta é a outra coluna — o que o comunicado apresenta expressamente como melhorias previstas, ou seja, anunciadas e ainda não iniciadas, sem prazo, sem executor nomeado e sem custo individual:
- uma unidade básica de saúde a construir para atender o bairro;
- 27 ruas a receber drenagem e pavimentação;
- 800 imóveis na fila da regularização fundiária;
- saneamento: 7 quilômetros de rede coletora, uma estação elevatória e 600 ligações domiciliares;
- um centro de multiuso com 350 metros quadrados, mais brinquedo praça e academia popular;
- energia solar, Wi-Fi gratuito no bairro e ampliação do transporte público;
- Pacto pela Empregabilidade e uma trilha de capacitações.
A distinção não é preciosismo de redação. Tudo o que aparece na segunda lista está no estágio mais distante da régua de uma obra pública: o do anúncio. Entre o anúncio e o canteiro ainda cabem projeto executivo, licitação, contrato e ordem de serviço — nenhum deles mencionado no material. Quem mora em Piranema e leu o anúncio não tem, pelo texto oficial, data para a primeira máquina em nenhuma das 27 ruas.
O horizonte de tempo do conjunto aparece uma única vez no comunicado inteiro, e dentro de uma declaração:
O Favela 3D em Piranema marca o início de uma nova história para milhares de pessoas. Esse é um projeto de transformação sistêmica que, nos próximos dois anos, vai trazer melhorias em diversas áreas, desde infraestrutura e geração de renda até educação e saúde. Essa tecnologia social, criada pela Gerando Falcões, representa um novo horizonte de dignidade e desenvolvimento para o território
A fala é do CEO e fundador da organização, Edu Lyra. Note-se que o prazo de dois anos é dele, não de um cronograma publicado: o corpo do comunicado não repete a data-limite, não a reparte por etapa e não informa quando cada frente deve começar. E os milhares de pessoas mencionados na frase não têm respaldo em nenhum número do texto — o material conta famílias, imóveis e ligações, nunca moradores.
A única cifra do dia é um total sem parcelas
Os R$ 50 milhões aparecem duas vezes no comunicado: no primeiro parágrafo, colados à assinatura do acordo, e mais adiante, colados à lista de melhorias. É o mesmo valor nas duas passagens, não dois investimentos. Quem lê corrido conta o dobro do que existe.
O que o material atribui a esse número é um bloco: o investimento previsto pelo Estado, pela prefeitura e pelas empresas parceiras. Não há repartição. Não se sabe quanto sai do orçamento estadual, quanto do municipal, quanto vem de doação privada e quanto está sob a forma de serviço prestado em vez de dinheiro. Também não se sabe se o valor cobre a lista inteira ou apenas parte dela, e se o trabalho social já em curso está dentro ou fora da conta.
A pergunta prática que fica é simples de formular e o comunicado não responde: quem paga a unidade básica de saúde, quem paga o saneamento e quem paga a pavimentação? Obra de infraestrutura urbana em bairro consolidado costuma ter dono definido em convênio — e é justamente o convênio que o texto anuncia sem detalhar.
Para efeito de comparação sobre como o Estado costuma anunciar dinheiro para a área social, vale ver a divulgação de repasses para reforma e construção de equipamentos de Assistência Social feita em janeiro de 2025, sete meses antes deste acordo e sem relação com Piranema.
O retrato do bairro foi levantado por quem vai executar o projeto
O comunicado sustenta a urgência do projeto num diagnóstico comunitário, e é importante dizer de quem ele é: os dados foram levantados pela equipe da própria organização que assina a metodologia e conduzirá as ações. Isso não invalida os números, mas os coloca no lugar certo — são de parte interessada, e o material não informa metodologia, tamanho de amostra, período de coleta nem quem os auditou.
Com essa ressalva, o que o levantamento afirma sobre Piranema: 26,6% das famílias em pobreza extrema e 73,86% em situação de pobreza, contra 1,58% em condição descrita como de vida digna. A taxa de desemprego apontada é de 22,14%, com 15,58% em emprego formal, e a renda per capita medida foi de R$ 1.075, ante a média nacional de R$ 1.848 citada pelo comunicado — que não diz de qual ano nem de qual fonte tirou essa média.
Na educação, o levantamento registra 42,5% dos moradores com o ensino fundamental como escolaridade máxima concluída, 12% de analfabetos e 4,8% com ensino superior. Em saúde, 42,6% das famílias relataram doença em casa — relato dos próprios moradores, portanto, e não registro clínico. Na moradia, 16,46% das casas com ligação de água irregular e 20,78% com ligação elétrica fora do padrão adequado, além de risco declarado de alagamento e deslizamento. A insatisfação com os espaços públicos aparece sem número fechado, como quase metade das famílias.
Duas observações que o próprio levantamento pede. A primeira: as três faixas de renda descritas não são apresentadas como partes excludentes de um mesmo bolo, e o material não explica se a segunda contém a primeira — sem isso, elas não podem ser lidas como uma divisão da população em fatias. A segunda: as bases mudam de frase para frase. Ora o percentual é de famílias, ora de moradores, ora de casas. São recortes diferentes do mesmo bairro, e o comunicado não converte um no outro.
Um retrato estadual da mesma questão foi divulgado depois deste acordo e ajuda a situar o caso: o estudo sobre o perfil da pobreza no Espírito Santo divulgado em setembro de 2025, duas semanas depois da assinatura em Piranema, sem qualquer vínculo declarado com este projeto.
Famílias, imóveis e ligações não contam a mesma coisa
Antes de repetir qualquer número deste anúncio, convém saber o que cada um conta. O mapeamento diz ter sido feito para mudar a realidade de 1.126 famílias. O acompanhamento individualizado já em curso alcança 600 famílias. A regularização fundiária prevista mira 800 imóveis. E o saneamento previsto fala em 600 ligações domiciliares.
São quatro unidades de medida distintas — famílias mapeadas, famílias acompanhadas, imóveis e pontos de ligação — e o comunicado não relaciona nenhuma com nenhuma. Não afirma que as 600 famílias do acompanhamento sejam parte das 1.126, não diz se um imóvel corresponde a uma família, e não explica por que o mesmo número aparece em duas frentes que tratam de coisas diferentes. Coincidência de algarismo não é confirmação de equivalência. Quantas pessoas moram em Piranema, aliás, é dado que não está em lugar nenhum do texto oficial, assim como a área do bairro.
Por que Piranema, segundo quem escolheu
A escolha do bairro foi explicada pelo vice-governador do Estado:
Chegamos até aqui com muito compromisso e responsabilidade. Priorizamos um território com enormes desafios para implantar toda a tecnologia social da Gerando Falcões, uma estratégia exitosa, com muito envolvimento, de enfrentamento da miséria e pobreza com exemplos em São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais
Quem fala é o vice-governador Ricardo Ferraço, à frente também do Estado Presente em Defesa da Vida. No mesmo trecho, ele diz que o trabalho no bairro já está em curso — o que se sustenta para a frente social do projeto, a única que o próprio texto descreve como iniciada.
Os exemplos citados em São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais são mencionados como referência de resultado, mas o material não traz um único indicador desses lugares: nem quantos domicílios foram alcançados, nem em quanto tempo, nem o que se manteve depois do fim de cada projeto. Quem quiser comparar Piranema com o que já aconteceu fora do Espírito Santo não encontra no comunicado a base para isso.
Do lado municipal, o prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio, informou que o projeto está alinhado ao planejamento do município para a comunidade e ao programa da gestão para qualificação, infraestrutura urbana e inclusão social. A secretária de Estado de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social, Cyntia Grillo, também se manifestou, tratando a parceria como caminho para reduzir a pobreza no território.
Uma cadeira de morador num colegiado de cinco
A governança anunciada é um comitê multissetorial que vai acompanhar a gestão e o monitoramento das ações durante a execução. Ele terá representantes do Governo do Estado, da Prefeitura de Cariacica, da organização que executa o projeto, da Rede Protagonista e um líder comunitário eleito pelos moradores.
É a única participação formal de quem mora no bairro em toda a estrutura descrita — uma cadeira entre cinco representações, quatro delas institucionais. O comunicado não informa como essa eleição acontece, quem pode votar, quando ocorre, se já ocorreu, por quanto tempo dura o mandato nem o que o comitê pode decidir de fato: se aprova, veta, fiscaliza ou apenas é informado. Também não há canal indicado para que um morador que não seja o líder eleito leve uma reclamação ou uma sugestão ao colegiado.
Quando o comunicado público carrega marca privada
Duas empresas apoiadoras têm espaço reservado no anúncio oficial. A diretora de Investimento Social da Vale, Flávia Constant, associa o apoio ao programa da mineradora batizado de Juntos contra a pobreza e descreve a atuação em conjunto com o poder público de Cariacica. O diretor da Simec Cariacica, Erasmo Schultz, descreve o método do projeto — ouvir a comunidade e articular poder público, sociedade civil e iniciativa privada — e, na mesma declaração, registra que o Grupo Simec vem modernizando operações no município.
Vale dizer com todas as letras a quem essas passagens servem: são manifestações institucionais de empresas dentro de um comunicado de governo, e a mais extensa delas termina falando dos próprios negócios da empresa na cidade. A informação de interesse público que sobra delas é a de quem financia o quê — e essa, como já registrado, o texto não detalha. Este texto não reproduz as declarações na íntegra por essa razão, e não aponta para nenhuma das organizações citadas.
O mesmo raciocínio vale para o fecho do comunicado, que é uma apresentação institucional da organização social, com a descrição de seu ecossistema e de seus outros programas. É material de divulgação da entidade, não informação sobre Piranema.
Perguntas que o anúncio deixa em aberto
Reunindo o que ficou sem resposta no material oficial:
- Cronograma: nenhuma data de início ou de entrega para a unidade básica de saúde, para a drenagem, para a pavimentação, para o saneamento ou para o centro de multiuso.
- Execução: não se sabe quem construirá cada obra, se haverá licitação e em que esfera ela correria.
- Divisão do dinheiro: quanto cabe ao Estado, quanto ao município, quanto às empresas.
- Regularização fundiária: qual órgão emitirá os títulos, qual o custo para o morador, quais imóveis entram nos 800 e o que acontece com os que ficarem de fora.
- Risco e moradia: o levantamento cita alagamento e deslizamento, mas o comunicado não diz se alguma família precisará ser realocada, nem menciona reforma ou construção de casas.
- Serviço ao morador: não há endereço, telefone, site ou horário para procurar a equipe do projeto, para se inscrever nos cursos ou para saber se a própria família está entre as acompanhadas.
- Medição: o material não informa quais indicadores serão usados para dizer, ao fim dos dois anos, se o projeto deu certo, nem quem fará essa aferição.
Sobre qualificação profissional, o Estado já mantinha frentes próprias antes deste acordo — em junho de 2025, por exemplo, foi divulgada a formatura de turmas do Qualificar ES na Grande Vitória, iniciativa anterior e distinta deste projeto. Os cursos citados para Piranema não são os mesmos, e o comunicado não informa se há alguma ligação entre as duas ofertas.
Todas as vozes do anúncio estão dentro do acordo
Falaram no comunicado o vice-governador, o prefeito, a secretária estadual da área, o dirigente da organização executora e representantes de duas empresas apoiadoras. Todos assinam ou financiam o projeto.
Não há no material a manifestação de um morador de Piranema, de uma associação do bairro, de conselho de política pública, de universidade ou de qualquer entidade sem interesse no arranjo. Um projeto que se propõe a reordenar ruas, redes e títulos de propriedade de um bairro inteiro foi apresentado sem que ninguém de fora dele fosse ouvido — e essa lacuna não é detalhe de cobertura, é o próprio desenho do anúncio. O que os moradores acham do que foi decidido para o lugar onde vivem continua sendo informação que não existe no texto oficial.
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