Dor que dura semanas raramente aparece como gemido. Em cão e gato, ela costuma chegar disfarçada de mudança de temperamento: o animal que passou a se esconder, o que rosna quando é pego no colo, o que deixou de subir no sofá. Foi esse ponto de encontro entre manejo da dor e comportamento que reuniu médicos-veterinários e comportamentalistas no Simpósio Dor e Comportamento, realizado nos dias 18 e 19 de outubro de 2025, em São Paulo, com todas as vagas esgotadas.
O evento já passou e a edição presencial encerrou as inscrições antes da data. O que interessa a quem vive com um animal em casa, porém, não é a lotação: é o assunto que encheu o auditório. Dor persistente e problema de comportamento se confundem com frequência, e essa confusão atrasa a ida ao consultório.
Por que dor e comportamento se misturam na mesma consulta
Um animal não aponta onde dói. Ele muda o que faz. Quando algo incomoda todos os dias, a reação aparece na rotina — no jeito de se mover, de dormir, de aceitar contato — e não em um sintoma único e evidente. Por isso a mesma alteração pode ser lida de duas maneiras opostas: como teimosia, mania ou fase passageira, de um lado, e como sinal de desconforto físico, de outro.
Essa sobreposição é justamente o que aproxima duas frentes que costumavam trabalhar separadas. Quem cuida do comportamento precisa saber descartar dor; quem cuida da dor precisa reconhecer o que o comportamento está mostrando. A programação do simpósio foi montada sobre essa integração, com debates e práticas voltadas a cães e gatos.
O que o tutor consegue observar em casa
Nada do que se vê em casa fecha diagnóstico — e essa é a parte importante. O que o tutor pode fazer é reparar em mudança de padrão: alguma coisa que o animal fazia e parou de fazer, ou que não fazia e passou a fazer. Vale anotar quando começou e com que frequência acontece. São observações desse tipo:
- parou de subir na cama, no sofá ou de usar a escada, ou hesita antes de pular;
- reage mal ao toque em uma região específica, ou ao ser erguido do chão;
- lambe ou morde sempre o mesmo ponto do corpo;
- dorme muito mais, ou muito menos, e troca o lugar onde costumava dormir;
- ficou mais arredio, se esconde, evita o contato que antes procurava;
- mudou o apetite, a forma de comer ou o hábito de fazer as necessidades no lugar de sempre;
- gato que deixou de se limpar como antes, ou que passou a se limpar demais em um só lugar.
Nenhum desses itens diz, sozinho, qual é a causa. Podem ter origem física, ambiental ou emocional, e só uma avaliação profissional separa uma coisa da outra. Sinal observado em casa é motivo para marcar consulta, nunca para medicar por conta própria nem para decidir sozinho o que o animal tem. Remédio humano, dose adivinhada e receita repassada entre conhecidos não são atalho.
Os temas que a programação colocou lado a lado
A grade científica de 2025 puxou assuntos que também circulam nas salas do WSAVA: obesidade, castração, fisioterapia, saúde mental e Medicina Felina. A lista dá a medida do recorte. Não são temas de nicho nem de uma especialidade isolada; são assuntos que aparecem na consulta de rotina de qualquer cão ou gato e que, cada um a seu modo, esbarram em como o animal se move, se alimenta e se comporta.
O que a organização diz sobre o formato
O simpósio nasceu com a proposta de unir ciência, prática e acolhimento e o retorno dos participantes mostra o quanto esse formato faz diferença no dia a dia do atendimento, seja para médicos-veterinários quanto para comportamentalistas não veterinários. Estamos muito felizes em já anunciar a continuidade do projeto nos próximos anos com grandes novidades e palestrantes de peso
A avaliação é de Luiza Cervenka, idealizadora do simpósio.
Próximas edições: duas em 2026 e uma em 2027
Para quem ficou de fora, o calendário seguinte já estava definido quando as vagas acabaram. A organização confirmou duas edições online em 2026, nos dias 30 de maio e 17 de outubro. O formato a distância derruba a barreira geográfica que limita quem atende longe dos grandes centros e não pode fechar a clínica por dois dias.
O presencial volta em fevereiro de 2027, com a proposta de ampliar o espaço de troca entre profissionais, pesquisadores e palestrantes da área. Para o tutor, a informação útil não é a data: é que o profissional que atende seu animal tem onde se atualizar sobre um assunto que, até pouco tempo atrás, ficava dividido entre duas salas diferentes.
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