Cuidados com hamster: alimentos proibidos e sinais de alerta

Quem leva um hamster para casa costuma imaginar um bicho de baixa manutenção, mas o roedor tem exigências que não se parecem em nada com as de cães e gatos. A primeira delas está na boca: os dentes do animal crescem sem parar durante toda a vida e, sem material adequado para roer, o quadro evolui para hipercrescimento dentário, que causa dor, ferimentos na boca e dificuldade para se alimentar. As orientações são da médica-veterinária mestre em animais selvagens Raquel Naomi Tanaka Scaduto, ouvida sobre manejo e enriquecimento ambiental desses pets não convencionais.

A procura por animais como o hamster cresceu nos últimos anos, impulsionada pela verticalização das moradias. O tamanho pequeno, porém, não significa rotina simples: a lista de cuidados é específica e convém conhecê-la antes de levar o animal para casa, e não depois.

Os dentes crescem a vida inteira e precisam de desgaste

Primeiramente estamos falando de um roedor e sua anatomia apresenta diversas particularidades. Um exemplo é o crescimento contínuo de seus dentes. Ao contrário da maioria dos mamíferos, cujos dentes crescem apenas uma vez, os dos hamsters crescem durante toda a sua vida

A explicação é da médica-veterinária Raquel Naomi Tanaka Scaduto.

É por causa dessa característica que o desgaste natural da dentição precisa ser oferecido todos os dias, dentro do próprio recinto. O que serve para isso e o que representa risco:

Oferecer brinquedos de madeira própria para roedores, galhos naturais, blocos minerais, feno e alimentos duros é uma forma correta de estimular o desgaste dentário. Por outro lado, é importante evitar brinquedos de plástico ou objetos com tecidos, pois podem ser ingeridos e causar sérios danos ao sistema digestivo

A recomendação é da profissional. Vale reter a lógica por trás dela: o item precisa ser duro o bastante para desgastar o dente e, ao mesmo tempo, não pode virar pedaço engolível. Plástico e tecido falham no segundo critério.

A base da dieta, o complemento e a lista do que jamais pode

Hamsters são onívoros, ou seja, aproveitam tanto alimento de origem vegetal quanto animal. Isso não autoriza improviso no pote:

Para eles é muito importante oferecer ração extrusada de qualidade e evitar a famosa mistura de sementes, que é extremamente gordurosa e pode levar a obesidade. A dieta pode ser complementada com pequenas porções de frutas, verduras e legumes frescos, sempre em moderação e pensando no tamanho do estômago do animal

O conselho é da médica-veterinária. A ressalva sobre o tamanho do estômago não é detalhe: em um animal desse porte, a porção que parece pequena para o tutor pode ser grande demais para o bicho.

Há ainda o que não entra de jeito nenhum. A especialista aponta como alimentos tóxicos cebola, alho, batata crua e frutas cítricas. E completa a lista dos vetados:

Jamais deve-se ofertar alimentos como chocolate, álcool, cafeína, leite e derivados, produtos industrializados, frituras, alimentos açucarados e rações de outros animais

Reunindo o que a veterinária citou, ficam fora do cardápio:

  • cebola, alho, batata crua e frutas cítricas;
  • chocolate, álcool e cafeína;
  • leite e derivados;
  • produtos industrializados, frituras e alimentos açucarados;
  • ração formulada para outros animais.

A lista acima é a que a especialista apresentou e não esgota o assunto: diante de qualquer alimento que não esteja nela, o certo é perguntar ao veterinário antes de oferecer, e nunca testar no próprio animal.

Outro ponto que muda a forma de manusear o pet é a bolsa jugal, estrutura na região da bochecha que o hamster usa para armazenar e transportar comida com segurança.

Devido a isso, deve-se ter uma atenção especial com alimentos que podem machucar e sempre tomar cuidado ao manipular o animal, pois a bolsa pode prolapsar e apresentar abcessos ou infecções

A informação também é de Raquel Naomi Tanaka Scaduto. Na prática, alimento pontiagudo ou duro demais e aperto na região da cabeça são dois riscos que passam despercebidos justamente por serem invisíveis: a comida fica guardada ali dentro.

Terrário, substrato e a limpeza três vezes por semana

A gaiola popular vendida para hamsters costuma ser pequena demais para o que o animal precisa fazer — cavar, correr, escalar e se esconder. A veterinária afirma preferir terrários com espaços generosos, com áreas de escavação, rodinhas para exercício e gasto de energia, tocas para o animal se esconder e substrato para cavar. Ela não informou uma medida mínima de recinto; o parâmetro que ofereceu é chegar o mais perto possível do que seria o habitat do animal.

O forro do recinto também tem regra. A indicação é usar fontes de celulose, como papel específico para hamster ou papel toalha branco — a cor clara permite enxergar a coloração da urina e a quantidade e a textura das fezes, o que antecipa a percepção de que algo mudou. O que a especialista desaconselha:

Algumas marcas de substrato de serragem apresentam micropartículas, que podem ser inaladas e causar infecções respiratórias, além de fazerem muita bagunça e dificultar a limpeza

A troca da forragem deve acontecer cerca de três vezes por semana. Na limpeza, a orientação é evitar produtos de cheiro forte e álcool puro, que podem ser prejudiciais ao animal. Na rodinha, a atenção vai para o diâmetro adequado, e a toca é considerada item necessário, já que boa parte do dia o hamster passa dormindo.

Noturnos, solitários e sensíveis ao barulho

Boa parte dos conflitos entre tutor e hamster nasce de um desencontro de horários.

Durante o dia eles passam a maior parte do tempo dormindo e não é aconselhado acordá-los. Já à noite ficam super ativos, vão correr na rodinha, cavar, escalar, roer, comer e bagunçar. Por isso, é indicado que seu terrário fique em um cômodo separado de onde as pessoas dormem

A informação é da médica-veterinária. Vale notar que a recomendação de separar o cômodo protege os dois lados: o sono de quem mora na casa e o do animal, que não deve ser interrompido durante o dia.

Dividir o recinto é outro erro comum, e sem volta:

A maioria das espécies são solitárias e territorialistas. Logo, colocar dois hamsters juntos pode causar brigas, ferimentos graves e até a morte

A observação também é da especialista. Ela acrescenta que os animais são sensíveis ao barulho e que ambientes ruidosos ou com excesso de estímulos podem levar a um quadro de estresse, que por sua vez resulta em problemas de saúde, perda de pelo e comportamento agressivo.

A temperatura entra na mesma conta. Segundo a veterinária, um hamster doméstico dificilmente vai hibernar, porque isso exigiria uma casa muito fria e falta de alimento. Abaixo de 15ºC, e havendo falta de alimento ou de luz, o animal pode entrar em torpor — um estado temporário de baixa atividade e metabolismo, que não deve ser mantido.

Não é indicado manter o animal nessa condição, sendo necessário sempre deixar o local aquecido, com temperatura em torno de 22ºC, e com oferta de alimentos

A orientação é de Raquel Naomi Tanaka Scaduto.

Quando procurar o veterinário

A principal causa de doença em hamsters, segundo a médica-veterinária, é o erro de manejo — ou seja, o que o tutor faz e o que deixa de fazer. Entre os problemas associados a ele estão:

  • obesidade e diabetes;
  • pododermatites, que são inflamações nos pés normalmente causadas por falta de higiene;
  • hipercrescimento dentário;
  • feridas provocadas por objetos perigosos dentro da gaiola;
  • problemas respiratórios, ligados a corrente de ar ou ao uso errado do substrato;
  • problemas dermatológicos, que podem vir de ácaros, falta de higiene e estresse;
  • problemas digestivos, como diarreia;
  • prolapso ou inflamação da bolsa jugal.

Há ainda predisposição a tumores.

É recorrente o desenvolvimento de tumores, como osteossarcoma e linfoma, e a presença de nódulos benignos

A afirmação é da especialista, que aponta também ser comum a infecção de útero em fêmeas.

Procure um veterinário assim que perceber dor, ferimento na boca ou dificuldade para se alimentar, perda de pelo, comportamento agressivo, diarreia, sinais respiratórios, inflamação nos pés, qualquer nódulo ou caroço no corpo e alteração ou prolapso da bolsa jugal. A conduta em cada um desses casos é definida por profissional, em consulta — não existe automedicação segura para um animal desse porte. A própria especialista registra que não é indicado dar vermífugo ao hamster sem que exista o diagnóstico de parasitas intestinais.

A consulta de rotina também tem prazo. A recomendação apresentada é de check-up a cada seis meses, no mínimo, porque esses animais passam da fase adulta para a sênior muito rápido: os hamsters domésticos podem viver entre 1,5 e 3 anos, e a informação apresentada é que, quanto menor a espécie, menor tende a ser a longevidade. O acompanhamento regular serve para detectar problemas cedo e para corrigir o manejo antes que ele adoeça o animal.

Por fim, um dado que costuma surpreender quem vem de cães e gatos: não existem vacinas para hamsters. Sem essa barreira, o que sobra como prevenção é exatamente o que está sob o controle do tutor — manejo correto, alimentação adequada, higienização e check-up frequente no veterinário.

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