O empresário Junior Borneli, fundador da StartSe, publicou em 3 de novembro de 2025 um artigo de opinião em que compara a adoção da inteligência artificial ao hábito de comer verdura: a vantagem seria óbvia para todo mundo, mas poucos colocariam a prática no dia a dia. A tese é dele, assinada com nome e função, e não decorre de pesquisa, levantamento ou dado de mercado apresentado no texto.
O artigo saiu no site de uma empresa de educação continuada — segundo a própria descrição do autor, com sede no Brasil e operações no Vale do Silício e na China. Ou seja, quem defende que profissionais e empresas precisam usar mais IA é também quem vende formação em IA. Isso não invalida o argumento, mas situa de onde ele fala.
A comparação entre brócolis e algoritmo
O raciocínio do texto parte de uma analogia com saúde. Quando um profissional de nutrição recomenda mais verdura e menos fritura, escreve o autor, ninguém contesta o conselho — mesmo quem nunca fez um exame sabe que a orientação faz sentido. Para ele, a recomendação de usar inteligência artificial estaria na mesma categoria: aceita no plano das ideias, adiada na prática.
A partir daí, o artigo descreve dois comportamentos que considera comuns. O primeiro é a recusa em dar o primeiro passo. O segundo é a tentativa feita de má vontade, em que a pessoa experimenta a ferramenta já esperando o fracasso, para ter motivo de voltar ao método anterior. O mesmo, diz o texto, valeria para empresas, cujos líderes saberiam que criar uma cultura de IA exige aceitar erros iniciais e trabalhar em terreno desconhecido.
O fecho do artigo é uma exortação:
Chegou a hora de parar de torcer a cara para o brócolis e aumentar o apetite para os algoritmos.
A frase é de Junior Borneli, no artigo assinado por ele.
Onde a opinião fica mais dura
O trecho mais categórico do texto abandona a metáfora alimentar e trata de sobrevivência empresarial:
A verdade é simples: quem ainda resiste à IA está escolhendo ficar pra trás. Não é sobre tendência, é sobre sobrevivência. E liderança, em 2025, se mede pela capacidade de se adaptar, rápido.
A avaliação é do fundador da StartSe. É afirmação de opinião, não constatação verificada: o artigo não apresenta caso, série histórica ou comparação entre empresas que tenham adotado e não adotado a tecnologia.
Nenhum número de adoção foi informado
Este é o ponto que separa o artigo de uma reportagem. O título afirma que poucos usam inteligência artificial, e o texto repete a ideia em várias passagens, mas em nenhum momento diz quantos são esses poucos. Não há percentual de adoção, não há tamanho de amostra, não há período de coleta e não há instituição responsável por qualquer medição. A origem do dado simplesmente não foi informada, porque não há dado — há impressão.
Vale entender o que costuma sustentar uma afirmação desse tipo quando ela é factual. Um índice de adoção só significa alguma coisa se vier acompanhado de quatro informações: quem mediu, quando mediu, quantas pessoas ou empresas foram ouvidas e o que foi contado como uso. Esse último item é o mais escorregadio. Testar uma ferramenta uma vez, usar um assistente de escrita ocasionalmente e ter processos internos rodando com apoio de IA são três realidades diferentes, e pesquisas que somam as três produzem números muito maiores do que as que separam. Sem esse detalhamento, dois levantamentos sobre o mesmo assunto podem apontar resultados opostos sem que nenhum esteja errado.
O artigo também é peça de divulgação
Há um elemento do texto original que ajuda a ler o restante: depois do argumento, o artigo emenda o convite para um encontro promovido pela própria empresa, com horário marcado e chamada para garantir vaga. A tese sobre resistência à IA e a oferta de um produto de educação em IA aparecem no mesmo texto, uma seguida da outra.
Artigo de opinião é gênero legítimo, e a assinatura em nome próprio é justamente o que permite ao leitor avaliar o argumento sabendo quem o assina e qual é o interesse envolvido. O que não se confunde com jornalismo é o estatuto da afirmação: o que está no artigo é a posição de um empresário do setor de educação executiva, não um retrato medido do uso de inteligência artificial por profissionais e empresas.
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