A inseminação artificial em cães é indicada sempre que existe interesse em reproduzir o animal, mas a monta natural não pode ser feita. A avaliação é da médica-veterinária Andressa Mendes Alves, especializada em Reprodução de Pequenos Animais e mestre e doutoranda em Ciência Animal. O procedimento é o mesmo que a medicina humana usa com frequência em casos de infertilidade, e a técnica também pode ser aplicada em cães — com três pontos que costumam ficar de fora da conversa: é um ato de médico-veterinário, tem custo alto e não garante gestação.
A técnica permite depositar o sêmen do cão no interior do trato reprodutivo da fêmea, o que dispensa o contato direto entre os dois animais. É essa característica que abre caminho para os casos em que a cópula é inviável, arriscada ou simplesmente impossível pela distância.
As situações em que a técnica costuma ser indicada
Ao descrever quando a inseminação entra em cena, a veterinária lista cenários de rotina na reprodução canina:
Exemplos disso são animais que residem em diferentes localidades; monta natural dificultosa por diferença significativa de tamanho/peso, animais agressivos, falta/baixa libido, defeitos anatômicos; raças que geralmente não conseguem acasalar de forma natural devido limitações anatômicas e/ou físicas, como os cães braquicefálicos; uso de material genético (sêmen) de cães já falecidos; dentre outros
O relato é de Andressa Mendes Alves. Em linguagem de tutor, são cinco frentes:
- 1. Distância. Macho e fêmea vivem em localidades diferentes, e o material genético viaja no lugar do animal.
- 2. Incompatibilidade física. Diferença significativa de tamanho ou de peso entre os dois, além de defeitos anatômicos.
- 3. Comportamento. Animais agressivos na tentativa de monta, ou com falta e baixa libido.
- 4. Raças braquicefálicas. Bulldogs, pugs e american bully estão entre as que em geral não conseguem acasalar naturalmente — a conformação anatômica, o tamanho, o peso e os problemas respiratórios dificultam a monta natural.
- 5. Material genético de cães já falecidos. O sêmen preservado permite usar a linhagem depois da morte do doador.
A vantagem que a veterinária aponta
Para a especialista, o principal ganho da inseminação artificial é favorecer o melhoramento genético das raças, justamente porque viabiliza o acasalamento de animais geograficamente distantes. Há um efeito secundário ligado ao acompanhamento que a técnica exige:
Além disso, para realizar a técnica o ciclo estral da cadela precisa ser monitorado de perto, o que facilita a detecção de possíveis alterações que possam comprometer a fertilidade do animal
É o que pontua Andressa Mendes Alves. O ciclo estral é a sequência de fases hormonais que leva a fêmea ao cio e à ovulação — acompanhá-lo de perto é o que permite enxergar alterações que passariam despercebidas em casa.
O custo alto e a gestação que ninguém pode prometer
As desvantagens vêm no mesmo pacote. Segundo a especialista, uma delas é o alto custo, responsável por fazer com que alguns tutores e criadores desistam do procedimento. A outra é a incerteza do resultado:
Somado a isso, quando realizamos a inseminação não podemos garantir uma gestação, pois vários fatores intrínsecos e extrínsecos influenciam para que a cadela fique prenha
A informação é de Andressa Mendes Alves. Ou seja: quem paga pela técnica está pagando pela tentativa, não por um filhote.
Quem pode fazer — e por que leigo não pode
Por ser um procedimento relativamente simples e rápido, existem inúmeras pessoas que não são profissionais realizando a inseminação de forma empírica, para fins pessoais ou comerciais. É um ponto ressaltado pela veterinária, com consequência clara:
Essa prática configura exercício ilegal da profissão e coloca em risco a saúde e a vida dos animais
A afirmação é de Andressa Mendes Alves.
As três etapas que a técnica exige
A inseminação artificial não é um ato isolado. São necessárias três etapas: acompanhamento do cio da cadela, coleta de sêmen e a inseminação propriamente dita. A primeira é a que mais depende de exame:
Ao entrar no cio, a fêmea deve ser acompanhada pelo médico-veterinário para detecção de quando ocorrerá a ovulação, nessa etapa alguns exames são imprescindíveis, como a citologia vaginal e a dosagem hormonal de progesterona
A explicação é de Andressa Mendes Alves. A citologia vaginal é a leitura das células colhidas da vagina da fêmea, que mudam conforme a fase do cio; a dosagem de progesterona é o exame de sangue que ajuda a apontar o momento da ovulação. Depois de identificado o cio, segue-se para o manejo do macho, com a coleta de sêmen e a avaliação prévia do ejaculado para verificar a qualidade e a viabilidade dos espermatozoides.
A etapa final acontece dentro do ambiente clínico, e a descrição da profissional deixa claro por quê:
Se o sêmen estiver apto é realizada a IA propriamente dita. Através de uma pipeta de inseminação o sêmen será depositado no interior do trato reprodutivo da cadela. A deposição pode ocorrer na vagina, no caso de sêmen fresco e refrigerado, ou no útero quando o sêmen está congelado. Nesse caso a técnica é chamada inseminação intrauterina e pode ser feita de forma cirúrgica ou por endoscopia ginecológica
A descrição é de Andressa Mendes Alves. Cirurgia e endoscopia não são detalhe de rodapé: são estrutura, anestesia e profissional habilitado.
Os exames que vêm antes — e o que eles podem barrar
Antes de qualquer coleta, os animais passam por uma avaliação que indica como está a saúde deles. A veterinária explica que é preciso realizar um check-up para avaliar o trato reprodutor, com exames de rotina, como hemograma e imagem, e específicos para algumas doenças, como leishmaniose, erliquiose, babesiose e brucelose. Ela aponta ainda a importância de verificar o status de vacinação da cadela e do macho, assim como o controle de ecto e endoparasitas.
O calendário desses exames tem peso próprio, e há resultado que interrompe o plano:
Recomendo ainda que toda avaliação de saúde seja feita em tempo hábil antes da cadela entrar no cio e é importante reforçar que animais com leishmaniose não devem ser reproduzidos
A recomendação é de Andressa Mendes Alves.
O limite que vale para a monta natural e para a inseminação
A última consideração da especialista não é técnica, e sim de responsabilidade sobre a raça — e ela vale mesmo quando os exames voltam normais:
Uma vez que há interesse do tutor e/ou criador em reproduzir seu cão, devemos sempre garantir que este cruzamento não venha prejudicar o melhoramento genético da raça em questão. Por isso, animais que fogem do padrão da raça não devem ser reproduzidos nem por monta natural e nem através da IA
A conclusão é de Andressa Mendes Alves. A existência da técnica, portanto, não transforma todo animal em candidato: a decisão de reproduzir continua sendo clínica, antes de ser operacional.
Como a prenhez é confirmada
A ultrassonografia é usada antes da inseminação e também depois dela, para confirmar a gestação. O diagnóstico é feito por esse exame, possível de três a quatro semanas após o procedimento. Como a própria veterinária afirma, nem toda tentativa termina em prenhez — o intervalo entre a inseminação e o ultrassom é de espera, não de certeza.
Para quem cogita o procedimento, o caminho passa por um médico-veterinário especializado em reprodução animal, pela avaliação de saúde feita em tempo hábil antes do cio e por aceitar de saída as duas condições que a técnica impõe: o custo alto e a possibilidade real de a cadela não ficar prenha.
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