O lúpus eritematoso sistêmico é a doença autoimune mais clássica descrita em cães e gatos e também uma das que mais escapam do diagnóstico. Os sinais são inespecíficos, imitam outras enfermidades e quase nunca apontam para um único órgão, o que faz muitos tutores chegarem ao consultório sem saber descrever o que está errado. A avaliação é do médico-veterinário Rafael Pedroso Vargas, pós-graduado em Dor, Hematologia Veterinária e Farmácia Clínica Reumatológica, membro fundador e primeiro tesoureiro da Associação Brasileira de Hematologia e Medicina Transfusional (ABVHMT) e professor de pós-graduação nos temas de doenças autoimunes, hematologia e reumatologia.
Nas doenças autoimunes, também chamadas de imunomediadas, o corpo passa a agredir estruturas que deveria proteger. Entender esse mecanismo ajuda o tutor a observar o animal com mais critério e a levar informação útil para a consulta, que é onde o diagnóstico se decide.
Quando o próprio sistema de defesa vira o problema
Esse tipo de doença acontece quando o organismo perde o controle sobre o sistema imunológico, que passa a atacar o próprio corpo.
A explicação é de Rafael Pedroso Vargas. Segundo ele, o sistema imune deixa de reconhecer corretamente o que pertence ao organismo e começa a causar lesões nas células e nos tecidos do próprio indivíduo.
Esse ataque pode ter endereço certo ou se espalhar. Há doenças autoimunes com foco restrito, como a tireoidite imunomediada, que atinge principalmente a glândula tireoide. E há as de comportamento sistêmico, que alcançam vários órgãos ao mesmo tempo. O lúpus eritematoso sistêmico está neste segundo grupo, e é justamente essa amplitude que embaralha o quadro clínico.
Vale registrar o tamanho do problema para não gerar alarme desnecessário: o veterinário afirma que ainda se sabe pouco sobre a doença em cães e menos ainda em gatos, e que ela é relativamente rara na prática veterinária, uma das enfermidades reumatológicas menos comuns em pequenos animais.
Mesmo assim, é importante conhecê-la, principalmente, porque seu diagnóstico pode ser difícil e os sinais clínicos costumam variar bastante.
A ponderação é do próprio Rafael Pedroso Vargas.
Os sinais que costumam levar o tutor à consulta
Esta é a parte prática. Nenhum dos itens abaixo, isoladamente, significa lúpus, e é exatamente por isso que eles importam: são os achados que, somados e persistentes, justificam procurar o veterinário em vez de esperar passar. Conforme descrito pelo especialista, o quadro pode reunir:
- Dor articular e dificuldade para se movimentar. Nos cães, uma das manifestações mais comuns é a poliartrite imunomediada, ou seja, inflamação em várias articulações ao mesmo tempo.
- Febre persistente e alta que não cede aos antitérmicos e anti-inflamatórios de uso corrente.
- Perda de peso sem mudança de alimentação ou de rotina.
- Prostração, o animal apático, parado, sem disposição para o que costumava fazer.
- Lesões na pele, que aparecem também na forma sistêmica, embora com menor frequência.
- Alterações oculares, renais, hematológicas e musculares, que muitas vezes só aparecem na avaliação clínica e laboratorial.
Sobre a febre, a descrição do veterinário é específica:
A febre observada nesses pacientes costuma ser alta e refratária aos antipiréticos e anti-inflamatórios comuns, sendo responsiva apenas ao uso de corticoides ou imunossupressores.
A observação é de Rafael Pedroso Vargas e descreve o comportamento do quadro, não uma receita. Corticoide e imunossupressor são medicamentos de prescrição, com indicação, escolha e ajuste que cabem ao veterinário depois de examinar o animal. Nada disso deve ser administrado por conta própria, nem sobra de tratamento anterior, nem medicação de uso humano.
A doença que imita outras e atrasa o diagnóstico
Por atingir partes diferentes do organismo, o lúpus pode se apresentar de formas muito distintas em dois animais. Essa característica rendeu à doença o apelido de grande imitador, usado tanto na medicina humana quanto na veterinária.
Como se trata de uma doença multissistêmica, que afeta diferentes partes do organismo, ela pode se apresentar de formas diversas e mimetizar várias outras enfermidades.
A avaliação é de Rafael Pedroso Vargas. A consequência prática desse comportamento aparece na forma como o diagnóstico é construído:
O diagnóstico do Lúpus é, muitas vezes, feito por exclusão com base no preenchimento de critérios clínicos e laboratoriais. Diversas doenças, tanto reumatológicas quanto infecciosas, podem se apresentar de forma semelhante a ela, exigindo uma investigação criteriosa.
Diagnóstico por exclusão é um termo que costuma confundir o tutor. Ele significa que não existe um achado isolado capaz de fechar o caso sozinho: o veterinário reúne o conjunto de sinais e os resultados dos exames que julgar necessários e vai afastando as outras causas que explicariam o mesmo quadro. Por isso a investigação pode exigir mais de uma consulta e retornos, e por isso trocar de profissional no meio do caminho tende a reiniciar o raciocínio.
Quem aparece mais: idade e raça
Na Medicina Veterinária observamos que as doenças autoimunes são mais comuns em animais adultos jovens, geralmente, a partir de um ano e meio a dois anos de idade.
A informação é de Rafael Pedroso Vargas. Ele acrescenta que a faixa etária mais frequentemente acometida vai até os cinco ou seis anos, aproximadamente. Não é uma regra que exclua os demais, e sim a faixa em que a suspeita costuma pesar mais.
Quanto à raça, o veterinário diz que existem dados na literatura apontando maior frequência em pastor alemão, setter irlandês, cocker spaniel, collie e poodle. Ter uma dessas raças em casa não é motivo para alarme, e não tê-la não descarta nada:
Apesar disso, na prática clínica, o que mais vejo são os SRDs (sem raça definida).
A constatação é dele.
Sistêmico ou cutâneo: por que a distinção muda o rumo
O nome parecido esconde dois cenários diferentes, e saber de qual se trata organiza a conversa com o veterinário.
O Lúpus Eritematoso Sistêmico afeta vários órgãos e tecidos, enquanto o Lúpus Eritematoso Cutâneo se manifesta basicamente na pele. No caso do Lúpus Sistêmico, também podem ocorrer lesões cutâneas, mas com menor frequência.
A diferenciação é de Rafael Pedroso Vargas. Na prática, uma lesão de pele isolada não autoriza concluir que os órgãos internos estão comprometidos, assim como um quadro sistêmico não se resolve olhando apenas para a pele.
O que perguntar ao veterinário na consulta
Perguntas não substituem avaliação profissional, mas ajudam o tutor a entender em que ponto da investigação o caso está e a evitar a sensação de que nada avança. Com base no que o especialista descreve, vale levar anotadas:
- Os sinais do meu animal podem ter outra causa? Quais já foram consideradas ou afastadas até agora?
- O problema parece restrito a um órgão ou aparece em vários ao mesmo tempo?
- A febre já foi tratada com antitérmico ou anti-inflamatório comum? Houve resposta?
- Há sinal de dor ou de comprometimento em mais de uma articulação?
- Além da pele, outros sistemas estão sendo avaliados, como olhos, rins, sangue e músculos?
- Se a suspeita for lúpus, estamos falando da forma sistêmica ou da cutânea?
- Quais critérios clínicos e laboratoriais estão sendo usados para fechar ou afastar o diagnóstico?
- Quais retornos serão necessários e que mudanças no animal devo comunicar antes do próximo?
Ajuda também levar um histórico simples do que foi observado em casa: desde quando o animal está diferente, se a apatia é constante ou tem picos, se houve recusa de comida, se a dificuldade para andar aparece mais ao acordar. Esse relato é insumo do raciocínio clínico e costuma valer mais do que a tentativa de descrever a doença.
Como o próprio veterinário descreve, os sinais dessas afecções são inespecíficos e o diagnóstico é complexo. A conduta, do primeiro exame ao acompanhamento, é decisão do profissional que atende o animal.
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