Ração de cão e de gato feita com farinha de larva de inseto já é permitida no Brasil, e desde julho de 2025 existe um produto brasileiro no mercado com esse ingrediente. A informação está em artigo publicado pela Revista Cães e Gatos, assinado pela médica-veterinária Viviane Priscila Moura, que também é analista de comunicação científica sênior na Special Dog Company.
A fase é esta: a autorização é antiga, a oferta é nova e se resume, por enquanto, a 1 produto. A norma que liberou o uso saiu em 2020. O primeiro alimento brasileiro formulado com farinha de inseto só foi lançado 5 anos depois, em julho de 2025. Não se trata de tendência distante de outro país, mas também não é algo que o tutor encontre hoje em qualquer prateleira nem em várias marcas concorrentes.
Quem assina o material trabalha na empresa que vende o produto
Antes de qualquer conta nutricional, vale saber de onde vem o texto. O artigo é assinado por Viviane Priscila Moura, apresentada como médica-veterinária, pós-graduada em clínica médica de cães e gatos e nutrição de pequenos animais e analista de comunicação científica sênior na Special Dog Company. É a mesma empresa que, no fecho do próprio artigo, aparece como a que lançou o produto brasileiro com o ingrediente, o Bionatural Sensitive.
Isso não anula os estudos citados, que têm autoria e ano próprios e podem ser verificados por quem quiser. Mas classifica o material: é conteúdo produzido por alguém com vínculo comercial no assunto, e o tutor tem o direito de ler com essa informação na mão. O artigo completo foi publicado na página 46 da edição de novembro, a de nº 315, da Revista Cães e Gatos.
O que a norma brasileira autoriza, palavra por palavra
Esta costuma ser a primeira dúvida de quem lê sobre um ingrediente novo: pode? A resposta da fonte é sim, e ela cita a regra. Os insetos são regulamentados no Brasil pela Instrução Normativa nº 10/2020 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Segundo o artigo, estão aprovadas para uso em dietas animais 6 espécies, mais as crisálidas desengorduradas:
- Hermetia illucens, a mosca-soldado-negra;
- Tenebrio molitor, o tenébrio comum;
- Zophobas morio, o tenébrio gigante;
- Acheta domesticus, o grilo doméstico;
- Gryllus assimilis, o grilo preto;
- Nauphoeta cinerea, a barata cinérea.
Duas ressalvas importam ao tutor. A primeira: a autorização citada é para uso em dietas animais em geral, não uma aprovação individual de marca. A segunda: a fonte não informa se cada ração com esse ingrediente precisa de registro próprio, nem qual o percentual máximo de inclusão permitido na fórmula, nem se há exigência diferente para cão e para gato. Quem quiser esse detalhe precisa procurar o texto da própria norma.
O que a pesquisa citada mostra e sobre qual animal
O argumento nutricional da fonte se apoia em 4 pontos, cada um com estudo e ano.
Aproveitamento pelo organismo. Digestibilidade é o quanto do alimento o corpo do animal realmente absorve, em vez de eliminar. Para alimentos à base de farinha da larva da mosca-soldado-negra, o artigo cita percentuais entre 73,4% e 83,9%, atribuídos a Bosch e Swanson (2021). A fonte descreve esses valores como excelentes, mas não apresenta a comparação lado a lado com o número de frango, carne ou peixe na mesma medida.
Proteína e aminoácidos. O texto afirma teor elevado de proteína de alto valor biológico, com perfil de aminoácidos balanceado que, nas palavras da fonte, frequentemente se assemelha ou até supera o das fontes proteicas convencionais. A versão publicada antes havia cortado o trecho se assemelha e deixado apenas supera, o que endurece a afirmação além do que o material sustenta.
Gorduras. O teor de gordura varia bastante conforme a espécie, a criação e a dieta do inseto: a literatura registra de 4% a 39% de extrato etéreo na matéria seca, em geral mais alto nas larvas do que nos adultos. Segundo Kępińska-Pacelik et al. (2022), a larva da mosca-soldado-negra contém cerca de 40% de C12:0, valor que a fonte diz ser superior ao de fontes convencionais de proteína. A larva também é apontada como a fonte mais significativa de EPA e DHA entre os insetos, 2 componentes ligados à função neurológica e ao equilíbrio do sistema imunológico. Ômega 3 e ômega 6 aparecem em larvas de tenébrios e de grilos.
Minerais. Os insetos são citados como fontes de ferro, zinco, cobre, manganês e selênio. As larvas da mosca-soldado-negra têm exoesqueleto calcificado, o que eleva os teores de cálcio e fósforo, também conforme Kępińska-Pacelik et al. (2022). A fonte diz que isso pode ser benéfico em formulações para cães e gatos em crescimento. É uma possibilidade descrita, não um resultado medido em filhotes.
Pele: o estudo citado foi feito com cães
O único efeito clínico específico apresentado pela fonte é sobre a pele. Um estudo cruzado de Carvalho et al. (2024) indicou que a farinha desengordurada da larva da mosca-soldado-negra, rica em peptídeos de baixo peso molecular, pode contribuir para promover a saúde cutânea em dietas para cães.
Três limites que o tutor precisa enxergar. O verbo da fonte é pode contribuir, não comprova. O estudo citado é em cães, e a fonte não estende esse resultado a gatos. E a fonte fala em saúde da pele, não em pelagem. A versão publicada antes trazia um subtítulo prometendo benefícios comprovados para pele e pelagem: as duas ampliações não estão no material de origem.
Sustentável em que medida? A fonte não traz o número
Este é o ponto que pede mais cuidado, porque é o mais repetido em propaganda. O artigo defende que a formulação com proteína de inseto pode promover o desenvolvimento sustentável do mercado de pet food. O motivo que ele apresenta é um só, e é econômico antes de ser ambiental: as proteínas convencionais de origem animal muitas vezes competem com a alimentação humana, e o inseto reduziria essa disputa.
A fonte não apresenta nenhuma medição ambiental. Não há litro de água economizado, hectare de área, quilo de emissão evitada, nem base de comparação com uma proteína específica. Também não há indicação de quem teria feito essa conta. Sem isso, sustentável é uma expectativa declarada, não um resultado verificado — e afirmação ambiental sem número e sem autor é peça de marketing, não evidência.
O que a fonte não responde e você vai querer perguntar
Se você cogita mudar a alimentação do seu animal, estes pontos ficaram em aberto no material, e nenhum deles deve ser preenchido por chute:
- Alergia. A fonte não trata de risco alérgico ao inseto nem de reação cruzada com outros ingredientes.
- Quanto entra na fórmula. Não há percentual de inclusão informado.
- Idade e condição. Não há recomendação separada para filhote, adulto, idoso, fêmea gestante ou animal doente.
- Gatos. O gato é citado junto com o cão no argumento geral, mas o estudo clínico apresentado é com cães.
- Preço e disponibilidade. A fonte não informa custo nem onde o produto é vendido.
Vale lembrar que troca de ração não é decisão de rótulo. A conversa é com o veterinário que acompanha o animal, que conhece histórico, peso, exames e eventuais restrições, e que pode avaliar se um ingrediente novo faz sentido naquele caso ou se é apenas novidade de prateleira. A fonte menciona ainda que a inclusão de insetos pode melhorar a palatabilidade, ou seja, a aceitação do alimento pelo animal, mas também aí sem número que compare a rejeição de uma fórmula e de outra.
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