Equipes da Cesan (Companhia Espírito-santense de Saneamento) cortaram, na manhã desta quinta-feira (08), uma ligação clandestina de água na localidade de Cachoeirinha, em Guarapari. A ação teve apoio da Polícia Militar do Espírito Santo e localizou um desvio feito com três tubulações ligadas diretamente ao cano de água tratada que abastece a região.
A estrutura irregular foi retirada no mesmo dia pelas equipes da companhia. A Cesan informou que a operação dá continuidade a outras realizadas nos últimos dias na mesma região. A empresa não divulgou o endereço exato do ponto cortado nem informou se houve identificação de responsáveis pela ligação.
O que é o gato de água e por que ele derruba a pressão do vizinho
Ligação clandestina é o nome técnico do que a população chama de gato: um cano aberto na tubulação da rede pública, antes do hidrômetro, para tirar água sem registro e sem conta. É diferente de uma ligação cortada por falta de pagamento e religada por conta própria — no gato, não existe ponto de medição nenhum.
O efeito sobre os vizinhos não é castigo nem coincidência: é física de rede. A água chega às casas empurrada por pressão, e cada trecho de tubulação foi dimensionado para uma quantidade prevista de ligações. Quando alguém abre uma derivação no meio do caminho, retira vazão do trecho e a pressão cai de quem está depois dele. Com três tubulações puxando ao mesmo tempo, como no caso de Cachoeirinha, a perda se multiplica.
Por isso a queixa costuma aparecer primeiro nos mesmos lugares:
- Casas em ponto alto, morro acima do desvio, onde a pressão que sobrava já era pouca;
- Fim de rede, as últimas ruas do bairro, que recebem o que passou por todo o restante;
- Horário de pico, começo da manhã e fim da tarde, quando todo mundo abre a torneira ao mesmo tempo;
- Prédios e sobrados sem bomba, que dependem só da pressão da rua para encher a caixa.
É esse conjunto que produz a sensação de água fraca, que some à noite e volta de madrugada — o padrão clássico de quem está a jusante de um desvio.
O risco que não aparece na conta: a água pode voltar suja
Além de tirar volume, a ligação irregular costuma ser feita com material improvisado, sem registro e sem a proteção que uma ligação regular recebe. Cano enterrado direto no solo, emenda mal vedada e conexão sem vedação adequada abrem uma porta na rede. Quando a pressão cai — exatamente o que o desvio provoca —, o trecho despressurizado pode puxar sujeira do terreno em vez de expulsá-la, e essa sujeira segue para as casas ligadas corretamente. Água tratada só continua tratada enquanto o sistema fica fechado e pressurizado.
Água desviada é conta dividida entre quem paga
Toda a água que sai de um desvio já foi captada, tratada e bombeada, e esse custo já foi pago. Como ela não passa por hidrômetro, entra na estatística de perda do sistema: sai da estação e não aparece em nenhuma fatura. Quem sustenta essa diferença é o conjunto de clientes regulares — os mesmos que, no caso de Cachoeirinha, vinham enfrentando queda de pressão e falta d’água intermitente.
Desviar água tratada da rede pública é tratado pela legislação como furto, na mesma lógica aplicada ao desvio de energia elétrica. Esse tipo de ligação irregular não se limita ao saneamento: em episódio independente, em outro município e em outro serviço, uma ligação clandestina abastecia cinco comércios na Serra.
Como denunciar de forma anônima e o que informar
A denúncia não exige identificação e pode ser registrada por três canais da companhia:
- Telefone 115, sem custo;
- Aplicativo oficial da Cesan;
- WhatsApp (27) 3422-0115.
Quanto mais concreta a informação, mais rápida a verificação. Vale descrever a rua e um ponto de referência próximo, o trecho onde o cano aparece fora do padrão — vala aberta, mangueira atravessando calçada, tubo saindo do muro sem hidrômetro — e o horário em que o abastecimento da vizinhança piora. Registrar quando a água some ajuda a equipe a relacionar a queda de pressão ao trecho certo da rede.
Guarapari vinha recebendo reforço na rede
O corte acontece enquanto a cidade passa por intervenções no sistema de abastecimento. Guarapari é atendida por uma rede que já recebeu obras de R$ 48,6 milhões da Cesan, e localidades vizinhas entraram em etapas de ampliação, como a interligação da nova rede na comunidade de Samambaia. Reforçar tubulação e ampliar reservação aumenta a água disponível, mas o ganho se dissolve no trecho onde há desvio: a vazão extra entra na rede e sai antes de chegar ao morador que a esperava.
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