Duas estações de tratamento de esgoto entraram em operação em Cariacica, na Grande Vitória, na terça-feira (13), e elevaram para 80% a cobertura de esgotamento sanitário do município. Na prática, o esgoto que sai dos imóveis já ligados à rede nas áreas atendidas pelas unidades Bandeirantes e Flexal II passa a ser tratado antes de voltar ao meio ambiente. Quem mora em rua onde a rede coletora acabou de chegar não entra automaticamente nessa conta: é preciso pedir a ligação do imóvel.
A Estação Bandeirantes passou por ampliação de 50 litros por segundo e chegou a 300 litros por segundo de capacidade total. A Flexal II opera com capacidade máxima de 90 litros por segundo. Esses números indicam o volume de esgoto que cada unidade consegue receber e tratar de forma contínua — é o teto do sistema, e não a quantidade de casas que já estão conectadas a ele.
Coletar esgoto e tratar esgoto não são a mesma coisa
São duas etapas diferentes, e é comum confundir uma com a outra ao ler índices de saneamento. Coleta é a rede de tubulação que recebe o esgoto do imóvel e o transporta para fora da rua. Tratamento é o que acontece depois, dentro da estação: o material passa por separação de sólidos e por processos que reduzem a carga orgânica e os agentes causadores de doença antes de a água ser devolvida a um rio, a um córrego ou ao mar.
Uma cidade pode ter boa parte das ruas com rede coletora e ainda assim despejar o que coletou sem qualquer tratamento. Por isso o indicador que interessa ao morador é o de esgoto coletado e tratado: ele só conta o volume que efetivamente passa por uma estação. É esse índice que chegou a 80% em Cariacica com a entrada em operação das duas unidades.
A rede chega à rua, mas a ligação para dentro de casa é do imóvel
Quando a obra passa na via, a companhia deixa disponível um ponto de conexão junto ao limite do terreno — o ramal, que termina numa caixa de inspeção na frente do imóvel. Do limite para dentro, a responsabilidade muda de dono: tubulação interna, caixa de gordura, ralos e o encaminhamento até esse ponto são obrigação do proprietário, que precisa contratar a execução do serviço.
Vale separar dois equipamentos que costumam ser confundidos. O cavalete é o conjunto padronizado instalado na testada do imóvel, com registro e hidrômetro, e serve à água: é ele que mede quanto entrou na casa. A ligação de esgoto é outra estrutura, no sentido inverso, e leva o que sai da casa até a rede da rua. Os dois aparecem na mesma fatura porque a cobrança do esgoto costuma ser calculada a partir do volume de água medido no hidrômetro — quem consome mais água, em regra, paga mais esgoto.
Há ainda uma exigência técnica que muita gente ignora: água de chuva não pode ser jogada na rede de esgoto. Calha, ralo de quintal e área descoberta ligados ao ramal sanitário sobrecarregam a estação em dias de temporal e derrubam a eficiência do tratamento.
O que o morador faz quando a rede chega à sua rua
- Confirme se já existe ponto de ligação disponível na frente do imóvel — a caixa de inspeção costuma ficar na calçada, junto ao limite do terreno.
- Solicite a ligação pelos canais de atendimento ao cliente da Cesan, que também informam se o trecho da rua já foi liberado para conexão.
- Faça a adequação interna: pias, tanque, vaso sanitário e ralos de banheiro devem ser direcionados para a caixa de inspeção do imóvel.
- Mantenha a água de chuva em rede separada, sem ligação com o ramal de esgoto.
- Depois que a ligação estiver ativa, desative a fossa. Manter os dois sistemas em paralelo anula o efeito da obra e continua contaminando o solo.
- Guarde o comprovante de solicitação e acompanhe a primeira fatura com o serviço de esgoto lançado, para conferir se a cobrança começou na data correta.
R$ 75 milhões nas duas unidades
Os recursos aplicados nas duas estações somam cerca de R$ 75 milhões. A ampliação da Bandeirantes consumiu aproximadamente R$ 32 milhões, e a Flexal II, cerca de R$ 47 milhões. As unidades foram entregues em cerimônia com a presença do governador Renato Casagrande e do presidente da Cesan, Munir Abud.
Na entrega, as obras foram apresentadas como parte do cumprimento do Marco Legal do Saneamento — a legislação federal que fixou metas de universalização do abastecimento de água e da coleta e do tratamento de esgoto e passou a exigir dos prestadores a comprovação de capacidade para executá-las dentro do prazo.
O que falta para os 20% restantes
O percentual que ainda está fora depende de duas frentes distintas. A primeira é a expansão da rede coletora para ruas e bairros onde a tubulação ainda não passa, o que exige obra nova. A segunda não depende de obra pública nenhuma: são os imóveis que já têm rede disponível na porta e seguem sem ligação, ainda usando fossa ou lançando esgoto na sarjeta e na galeria de águas pluviais.
É por isso que o número de estações construídas e o índice final de tratamento nem sempre andam juntos. Cada casa conectada ao sistema muda o indicador do município — e a conexão que falta pode ser a da própria rua.
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