Gostar de animais é o motivo mais comum de quem pensa em cursar Medicina Veterinária — e é justamente o que menos ajuda na hora de decidir. A carreira de médico-veterinário abriga consultório, centro cirúrgico, laboratório, pesquisa, ensino, gestão e até marketing, com rotinas e exigências muito diferentes entre si. Quem entra imaginando apenas o atendimento de cães e gatos descobre, no meio do caminho, que escolheu um leque, não uma função.
Em entrevista ao portal Cães e Gatos, Sibele Konno, diretora médica do Grupo Pet Care e médica-veterinária com pós-graduação em Medicina Intensiva Veterinária, descreveu o que a sala de aula não costuma mostrar: como se confirma a vocação depois de formado, quais desafios aparecem logo no início e o que o mercado sinaliza para quem decide se especializar.
A escolha não se confirma no diploma
A dúvida sobre estar no curso certo não termina na formatura. Segundo Sibele Konno, a confirmação é um processo, e não um teste com resposta pronta:
Saber que está na área certa após a formação é mais uma construção pessoal do que uma lista de checagem.
Para ela, dois pontos passam despercebidos por muita gente. O primeiro é entender a própria aptidão sem a visão romantizada que se carrega ao entrar na faculdade. O segundo é sentir-se confortável com as atividades e com os desafios do dia a dia:
Não pelo conformismo, mas por compreender que nenhuma ocupação é perfeita e como enxergamos e o que podemos fazer dela uma profissão melhor faz parte de um processo de amadurecimento e de entendimento se está no trabalho certo.
A formação não acaba na colação de grau
Esse é o ponto que mais surpreende quem só olha a duração do curso. A graduação entrega a habilitação, mas a prática se constrói depois, em etapas que costumam somar anos de dedicação — e que o candidato precisa considerar no planejamento desde já.
A realidade é que ganhamos experiência com a mão na massa, por isso os cursos de aprimoramento e de residência são muito importantes nesse começo.
A avaliação é de Sibele Konno. Quando aprimoramento e residência não são possíveis, ela aponta alternativas: procurar um mentor médico-veterinário e aproveitar ao máximo os estágios curriculares e os cursos extracurriculares ainda durante a faculdade. Na prática, o estágio deixa de ser exigência burocrática e vira o primeiro contato real com a rotina que se está escolhendo.
Ela também considera esperado sentir frustração e insegurança nos primeiros anos. A visão romantizada da profissão fica mais evidente justamente nessa fase, e o medo natural de começar algo novo tende a aumentar a sensação de despreparo.
As áreas de atuação e o perfil de cada uma
A abrangência da Medicina Veterinária é um dos pontos que o material destaca, e ela se traduz em caminhos bem distintos. Pela descrição da entrevistada, os perfis se organizam mais ou menos assim:
- Perfil comunicativo: áreas comerciais, marketing e diversas especialidades clínicas, em que o contato com o responsável pelo animal é parte central do trabalho.
- Perfil analítico e investigativo: pesquisa e ensino, com a Patologia Clínica como exemplo — o trabalho de identificar a doença a partir de exames e achados de laboratório.
- Perfil executivo: cargos de liderança e situações em que a decisão precisa ser rápida, como na Medicina Intensiva e na Cirurgia.
A entrevistada faz uma ressalva importante para quem tenta se encaixar em uma dessas caixas antes mesmo de entrar no curso: os perfis são adaptáveis e todos cabem dentro de cada especialidade. Segundo ela, o que decide é a maturidade emocional e o autoconhecimento para distinguir o esforço que leva ao crescimento do esforço que leva ao sofrimento.
Não existe uma fórmula certa nem receita pronta.
Há ainda um caminho pouco divulgado: a especialização como forma de mudar de área dentro da própria veterinária. A entrevistada cita Marketing, Gestão, Planejamento de Dados e Epidemiologia — funções em que o diploma continua valendo, mas a rotina deixa de ser o atendimento direto ao animal.
O que a rotina cobra de fato
A parte menos comentada da profissão não é técnica, é emocional. O trabalho lida com perdas e com decisões difíceis, e isso aparece na conta desde cedo.
A carga emocional sempre existirá, e a forma como lidamos com as nossas emoções é o que mais impacta.
O material trata o desgaste como risco concreto da atividade, ao lado da sobrecarga e do burnout — o esgotamento provocado pela pressão prolongada no trabalho, que se manifesta em exaustão, distanciamento das tarefas e queda de rendimento. A entrevistada considera normal a oscilação de sentimentos, mas marca um limite claro:
Frustração, medo, raiva, dor, tristeza são sentimentos que podem aparecer, assim como a alegria, calma, felicidade e orgulho. O que não é normal é quando há desequilíbrio constante destes sentimentos. A busca por ajuda nestes casos se faz necessária.
Do outro lado da balança está o que sustenta a escolha ao longo dos anos:
Já as melhores recompensas são as vidas que são mudadas pela nossa profissão, seja a de um animal, seja a de um responsável ou de uma família que foi impactada pela qualidade do serviço de um veterinário.
A avaliação é de Sibele Konno, que cita ainda o aprendizado permanente e o contato com pessoas diferentes como parte do que torna a rotina recompensadora.
O que o material diz sobre mercado
Aqui vale separar o que é dado do que é leitura de quem está no setor. A entrevista não apresenta faixa salarial, número de vagas nem levantamento de mercado — traz a percepção de uma profissional sobre o ambiente em que atua.
Nessa leitura, os principais obstáculos começam antes do primeiro emprego: a desvalorização do profissional, que se inicia na formação, e o desconhecimento da classe sobre educação financeira, administrativa e jurídica, somado ao desinteresse pelos códigos de conduta e ética profissional. O resultado é que, ao entrar no mercado, o recém-formado nem sempre encontra boas oportunidades — e nem sempre está preparado para as que existem. É um recado direto ao estudante: parte do que decide a carreira não está na grade do curso, e sim em noções de gestão, contrato e ética que raramente ganham espaço nela.
Sobre o retorno de investir em uma especialização, a avaliação é positiva, com condição:
Em se tratando de mercado de trabalho, especialistas reconhecidos e diplomados são poucos, por isso existe uma notoriedade quanto ao serviço escolhido.
A observação é de Sibele Konno, que acrescenta que algumas especialidades podem trazer retorno financeiro mais rápido que outras — sem detalhar quais nem em quanto tempo. A ressalva que ela faz é o contrário da promessa fácil: quem se especializa apenas pelo aspecto financeiro corre o risco de uma frustração que, segundo a entrevistada, não se compensa em números.
Cinco perguntas para responder antes de escolher
Reunindo o que a entrevista aponta, quem está decidindo tem material para um teste honesto consigo mesmo, antes de qualquer inscrição em processo seletivo:
- Você conhece as áreas de atuação além da clínica de cães e gatos, ou está escolhendo uma imagem da profissão?
- Está disposto a continuar estudando depois de formado, em aprimoramento, residência ou mentoria?
- Como você reage a perdas e a decisões difíceis, que fazem parte da rotina e não são exceção?
- Tem interesse em aprender gestão, finanças e as regras de conduta da profissão, que a graduação não cobre por inteiro?
- Se o retorno financeiro demorar mais do que você espera, a escolha ainda se sustenta?
Nenhuma dessas respostas é definitiva no dia da matrícula — e, pela descrição da entrevistada, também não precisa ser. A confirmação da escolha é construída ao longo do percurso, com informação sobre o que a profissão realmente exige em vez da versão idealizada que costuma chegar primeiro.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

