O maior congresso de Medicina Veterinária do mundo reuniu cerca de 29 mil profissionais em Orlando, na Flórida (Estados Unidos), entre 17 e 21 de janeiro. A Veterinary Meeting & Expo (VMX) 2026 ofereceu mais de mil horas de educação continuada, entre palestras presenciais e virtuais, e colocou em pauta três assuntos que chegam rápido ao consultório de bairro: os limites do atendimento a distância, a decisão pela eutanásia e o manejo da incontinência urinária em cães e gatos.
Com 46 anos de existência, o encontro é organizado pela North American Veterinary Community (NAVC) e há tempos deixou de se restringir à clínica médica e à cirurgia de pequenos e grandes animais. A grade desta edição incluiu Medicina Veterinária de animais silvestres e exóticos, gestão de clínicas e hospitais, inteligência virtual, telemedicina e temas da rotina de trabalho — inclusive como lidar com impasses dentro da própria equipe.
Quem escolhe os temas que a clínica vai discutir no ano seguinte
A programação não sai de uma lista improvisada. A seleção passa por um grupo fixo de avaliadores, e é esse filtro que determina quais tendências ganham palco e, meses depois, aparecem na conduta de quem atende.
Temos um comitê de programação composto por especialistas do setor, que trabalha em estreita colaboração com a Diretora Veterinária da NAVC, Dana Varble e sua equipe, para selecionar os temas das sessões e workshops
A explicação é de Joe Sorrentino, diretor de eventos da NAVC.
Telemedicina: o que ela resolve e onde ela falha
Telemedicina veterinária é o atendimento feito a distância, por vídeo, mensagem ou monitoramento remoto, e vai da orientação inicial ao acompanhamento de um tratamento já em curso. Os dois lados da ferramenta foram apresentados por Lori Teller, docente de telemedicina na Faculdade de Medicina Veterinária e Ciências Biomédicas da Universidade Texas A&M.
Entre os riscos apontados:
- falha ou atraso no diagnóstico — o principal deles;
- equidade e acessibilidade no atendimento;
- prescrição excessiva ou inadequada de medicamentos, especialmente antibióticos e analgésicos;
- falha na continuidade do cuidado, quando ninguém acompanha o caso até o fim;
- confiabilidade da tecnologia, já que nem todo mundo tem internet estável.
Entre os benefícios:
- apoio a distância em surtos de doenças;
- triagem adequada, que separa o caso urgente do que pode esperar;
- redução da sobrecarga das clínicas de emergência;
- acompanhamento de doenças crônicas;
- monitoramento remoto de animais de produção;
- redução da ansiedade do responsável pelo paciente.
Os princípios éticos usados para orientar essa prática foram adaptados da Medicina Humana e são quatro. Autonomia é o direito de escolha e consentimento: quem leva o animal precisa entender o que está sendo proposto antes de concordar. Beneficência é agir sempre no melhor interesse do paciente. Não maleficência é não causar dano ao paciente nem à sociedade — o que abrange o uso desnecessário de antibióticos. Justiça distributiva é equidade no acesso e no uso dos recursos.
Eutanásia: a decisão que não cabe a uma pessoa só
A discussão foi conduzida por Kathleen Cooney, que há cerca de duas décadas atua exclusivamente em cuidados paliativos e eutanásia — dois campos tratados como um só percurso, e não como momentos separados.
Segundo a especialista, o dilema ético aparece quando se pede ao médico-veterinário que faça, ou que deixe de fazer, algo que contraria seus valores, seus princípios ou seu julgamento clínico. Dois exemplos citados: a eutanásia considerada precoce e a manutenção de tratamentos que apenas prolongam o sofrimento do paciente.
Para reduzir esses embates existem os 14 componentes essenciais da eutanásia, desenvolvidos por Cooney para a Companion Animal Euthanasia Training Academy (CAETA). Eles funcionam como um roteiro do procedimento, do preparo do ambiente à condução da conversa.
Outro ponto defendido na palestra: a decisão não deve ficar só com o responsável pelo animal, nem só com o profissional que acompanha o caso. Todas as partes envolvidas entram na conta — o paciente, os familiares, os cuidadores e o próprio médico-veterinário.
Incontinência urinária: por que a urina escapa sem o animal perceber
Incontinência não é o animal urinar no lugar errado. É a urina sair sem que ele controle, fora do ato de urinar. A distinção importa porque o primeiro caso costuma ser comportamento e o segundo é doença — e o segundo tem tratamento.
O manejo do problema foi um dos temas de Laura A., médica-veterinária certificada em medicina interna de pequenos animais pela University of Missouri. Ela explicou que os animais afetados costumam ter uretra relativamente curta e bexiga em posição mais caudal, ou seja, mais para trás — e que a afecção é mais comum em fêmeas do que em machos.
Para que um paciente seja continente, ele precisa ter boa complacência vesical, tônus uretral adequado, anatomia normal dos ureteres (sem ureter ectópico) e controle neurológico normal da bexiga e da uretra. Se a pressão intravesical superar a pressão uretral, ocorre a micção — o que é normal quando o animal decide urinar. Porém, há fatores que fogem ao controle consciente, especialmente quando existem anomalias anatômicas
A explicação é de Laura A.
Traduzindo os termos: complacência vesical é a capacidade de a bexiga encher sem aumentar a pressão interna; tônus uretral é a força que mantém a saída fechada; os ureteres são os canais que levam a urina dos rins até a bexiga, e ureter ectópico é quando esse canal desemboca fora do lugar certo, defeito de nascença que faz a urina escapar direto. Há ainda os distúrbios da fase de esvaziamento, em que o animal não esvazia por completo a vesícula urinária e retém urina.
O tratamento começa pelo remédio e pode levar 40 dias
Definido o diagnóstico, a primeira escolha para os casos de Incompetência do Mecanismo do Esfíncter Uretral Canino (USMI) — quando o mecanismo que fecha a saída da bexiga perde força — é o tratamento medicamentoso, voltado a aumentar o tônus uretral. Dois fármacos são recomendados: fenilpropanolamina e estrogênios, que podem ser administrados juntos ou separados.
O detalhe que mais afeta quem cuida do animal em casa é o prazo: o efeito máximo pode levar até 40 dias para aparecer. Interromper a medicação na primeira semana, por achar que não funcionou, encurta o teste antes que ele signifique alguma coisa.
Se ainda assim a resposta for insuficiente, existem saídas cirúrgicas. Uma é a aplicação de injeções de colágeno por cistoscopia — exame em que uma câmera fina percorre a uretra até a bexiga —, que reduz os escapes de urina. A outra é a inserção de um esfíncter uretral, alternativa mais realizada em animais jovens.
O que muda para quem leva o animal ao veterinário
- Consulta a distância tem lugar definido. Triagem e acompanhamento de doença crônica aparecem na lista de benefícios; falha ou atraso no diagnóstico encabeça a lista de riscos. Sinal novo e sem explicação continua sendo assunto de exame presencial.
- Antibiótico sem exame é risco reconhecido. A prescrição excessiva ou inadequada de antibióticos e analgésicos está entre as preocupações levantadas por quem defende a ferramenta.
- Escape de urina é queixa clínica. Vale relatar na consulta, com a frequência e o momento em que acontece.
- Remédio para incontinência exige paciência. Até 40 dias para o efeito máximo, e a cirurgia só entra quando o medicamento não resolve.
- A conversa sobre eutanásia é coletiva. Responsável, família, cuidadores e equipe veterinária entram na decisão.
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