O balanço divulgado pelo Ministério da Defesa sobre a atuação na faixa de fronteira entre Roraima e Amazonas soma 9.268 operações de segurança conduzidas por militares e órgãos de governo na Terra Indígena Yanomami, com prejuízo estimado de R$ 649,4 milhões às organizações criminosas que exploram o garimpo ilegal na região. O território reúne cerca de 27 mil indígenas e a mobilização começou em janeiro de 2023, quando o governo federal decretou emergência na área.
O número é grande, mas chega sem manual de leitura. O material divulgado não informa qual o marco inicial da contagem, o que conta como uma ação dentro do total, nem quem consolidou o dado. Antes de entender o que 9.268 representa, vale entender onde essas ações acontecem e para que servem.
O que é faixa de fronteira e por que ela tem regra própria
Faixa de fronteira é a área de até 150 quilômetros de largura que acompanha toda a fronteira terrestre do país, no sentido do interior. A legislação a trata como área indispensável à segurança nacional, o que significa restrições que não valem no resto do território: compra de terra, atividade de mineração e instalação de empresa por estrangeiro passam por autorização específica, e as Forças Armadas têm atribuição de policiamento ali, algo que não ocorre no interior do país.
A região entre Roraima e Amazonas concentra dois problemas ao mesmo tempo. É faixa de fronteira e é terra indígena demarcada — área da União destinada ao uso exclusivo dos povos que a habitam. Nesse desenho, garimpo não é atividade irregular que poderia ser regularizada com licença: é atividade proibida por definição, independentemente do porte.
O que essas ações fazem na prática
Por trás do termo genérico operação de segurança está um conjunto de tarefas bastante concretas, descritas no próprio balanço: patrulhamento aéreo, fluvial e terrestre, revista em veículos, embarcações e aeronaves, prisões em flagrante e inutilização de equipamentos.
A parte menos óbvia dessa lista é a que mais pesa. O garimpo em área remota depende de logística: combustível para gerador e motor de balsa, mercúrio para separar o ouro do sedimento, motores, bombas e pistas de pouso clandestinas. Nada disso é produzido no local — tudo entra por rio ou por ar. Bloquear esse fluxo e destruir o que já entrou atinge a operação numa parte que não se repõe em poucos dias, ao contrário do garimpeiro detido, que é substituído.
É também por isso que equipamento pesado costuma ser destruído no lugar em vez de recolhido: retirar uma balsa ou uma escavadeira de dentro da floresta exigiria transporte aéreo que a operação não tem, e deixá-la de pé equivale a devolvê-la ao uso.
Da emergência de 2023 à Operação Ágata Fronteira Norte
A emergência decretada em janeiro de 2023 respondeu a uma crise de saúde pública associada ao avanço do garimpo. A relação entre as duas coisas é direta: as escavações abrem poças paradas que multiplicam o mosquito da malária, o mercúrio usado na extração contamina rio e peixe — base da alimentação local — e a presença armada em área isolada afasta as equipes de saúde justamente das aldeias mais distantes.
Declarar emergência não é gesto simbólico. É o instrumento que permite compra, contratação e remanejamento de recursos fora do rito comum, e foi ele que viabilizou o deslocamento de quase mil militares por quatro meses. Entre junho e novembro do mesmo ano, a Operação Ágata Fronteira Norte empregou cerca de 1,2 mil militares das três Forças Armadas.
Catrimani: primeiro alimento, depois cerco à logística
A Operação Catrimani foi dividida em duas etapas com objetivos distintos. Entre janeiro e março de 2024, a primeira fase concentrou-se em assistência humanitária, com atendimento a 236 comunidades indígenas:
- 680 mil quilômetros percorridos
- 2,4 mil horas de voo
- 15 mil cestas alimentares entregues
- 330 toneladas de alimentos
A partir de abril de 2024, a Catrimani II deslocou o foco para o enfrentamento e chegou a quase 50 mil abordagens. Os números registrados nessa etapa:
- 49.896 abordagens
- 328 prisões
- 235 kg de mercúrio apreendidos
- 238 mil litros de diesel destruídos
- cerca de 5,8 mil equipamentos inutilizados ou apreendidos
O que o balanço não explica
Três lacunas ficam de pé no material divulgado, e elas mudam o significado do número principal.
A primeira é o critério. Não está dito se uma ação equivale a um dia de patrulha, a uma abordagem, a uma missão inteira ou a cada registro administrativo — e a diferença entre essas definições é de ordem de grandeza. A segunda é o período: o total de 9.268 não vem acompanhado da data em que a contagem começou nem da data de corte, o que impede comparar com qualquer outro intervalo.
A terceira é a estimativa de R$ 649,4 milhões em prejuízo. O balanço não informa como o valor foi calculado — se considera o ouro que deixou de ser extraído, o preço dos equipamentos destruídos, o custo de reposição da logística ou uma combinação disso. Sem esse detalhamento, o valor indica escala, não resultado verificável.
Nenhuma dessas lacunas contradiz os dados apresentados. Elas apenas delimitam o que o balanço permite afirmar: há um volume declarado de atividade militar e policial sustentado por mais de dois anos na região, com números detalhados por fase da Operação Catrimani, e um total geral cuja metodologia de apuração não foi tornada pública.
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