O ES+ Café Lab é evento encerrado. A programação ocupou a Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, nos dias 04, 05 e 06 de julho de 2024, e o balanço divulgado pela organização não anuncia data, local, edital nem canal de inscrição para uma edição seguinte. Quem chega a este texto procurando agenda em cartaz não vai encontrá-la. O que segue é o registro do que os três dias ofereceram — e, principalmente, do que a nota oficial deixou de responder.
Foram cerca de 60 horas de atividades, todas sem cobrança de ingresso, divididas entre aulas-show e oficinas, mesas de debate, maratonas criativas, disputas de barismo e música ao vivo. O público-alvo declarado era quem já trabalha ou pretende trabalhar com café: donos de cafeteria, pequenos empreendedores e gente ligada aos chamados negócios criativos do setor.
Quem organizou o ES+ Café Lab, e o que o material não conta sobre isso
O evento foi promovido pelo Hub ES+, cuja sede fica na própria praça: foi em frente a ela que os shows da noite aconteceram. Esse é o limite do que o material informa: a nota não explica o que é o Hub ES+, quem o mantém, com que recursos opera nem se funciona fora das datas do evento. A informação chegou ao público pelo canal oficial do Governo do ES, o que também significa que o texto traz um lado só — o de quem organizou. Não há no material avaliação independente, contraditório ou balanço de resultados feito por terceiros, e ausência de crítica num release não equivale a consenso.
A lista de parceiros divulgada mistura instituições e empresas privadas, e vale reproduzi-la como a organização a apresentou, sem hierarquia inventada:
- Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae);
- Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac);
- Centro Estadual de Educação Técnica (CEET) Vasco Coutinho;
- Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper);
- Aliança Internacional das Mulheres do Café – IWCA Brasil;
- Associação de Ceramistas do Espírito Santo (Cerames);
- Núcleo de Produção Digital (NPD) do Ifes Guarapari;
- e as empresas Extração de Cafés, Imagine Coffee, Trentino Torra de Cafés, Papo de Barista e A Tal da Castanha.
O material não detalha o que cada parceiro aportou — se cedeu equipe, espaço, insumo, dinheiro ou apenas o nome. Também não informa o custo total da realização nem a origem dos recursos.
As cerca de 800 pessoas são estimativa de quem organizou
O número de público mais repetido sobre o ES+ Café Lab merece uma ressalva que o texto original não faz. O balanço fala em público de cerca de 800 pessoas. É contagem apresentada pela própria organização, sem método declarado: não se sabe se houve controle de entrada, credenciamento, catraca ou soma de listas de presença das oficinas. Público de evento em praça aberta é, quase sempre, aproximação.
Há ainda uma diferença que vale registrar. O título com que a notícia circulou afirma mais de 800 pessoas; o corpo do mesmo texto diz cerca de 800. Não são a mesma afirmação — uma fixa um piso, a outra admite margem para os dois lados. Aqui vale o corpo, que é onde a informação foi de fato prestada.
O mesmo cuidado vale para as 60 horas de programação: o material as apresenta como número aproximado, e não traz a grade completa que permitiria conferir. Nenhuma outra quantidade foi divulgada — não há número de inscritos por atividade, de vagas oferecidas, de vagas ocupadas nem de empreendimentos representados.
Sensorial, latte art e o que o público de fato pôde fazer
A parte prática se organizou em torno de aroma, sabor e técnica de preparo. Duas atividades levaram o nome Aroma Lab: o Desafio Sensorial, a cargo da barista e consultora Lucia Helena Barros, e a Oficina Sensorial, com Letícia Paiva, que o material apresenta como especialista em métodos de preparo e na análise sensorial da bebida.
O ES+ Café Lab fechou com o Campeonato de Latte Art, realizado no Lab Café. A própria nota descreve a disputa para quem nunca viu uma: baristas desenham na superfície do café espresso, e é a plateia que vota e premia. O resultado não foi divulgado — o material não informa quem venceu essa competição nem a de degustação, o que esvazia justamente a parte da cobertura que teria interesse duradouro.
Para o coordenador-geral do Hub ES+, o sentido do evento estava em aproximar dois mundos que costumam ser tratados em separado, o da lavoura e o da economia criativa:
“O café é, sem dúvida, ingrediente muito significativo para a história e economia do Espírito Santo. Por meio dos eventos do ES+ Café, o Hub ES+ ressalta a importância cultural da cafeicultura para a realidade capixaba e promove a aproximação da cadeira produtiva do café com a economia criativa e com a inovação, com o foco na popularização dos cafés especiais”.
A avaliação é de Paulo Gois, coordenador-geral do Hub ES+. A fala vai reproduzida como foi divulgada, inclusive onde o texto oficial grafa cadeira no lugar do termo que descreve o encadeamento entre lavoura, torra e ponto de venda. Erro de transcrição não se conserta dentro de aspas: corrigir por conta própria transformaria a declaração de quem falou em declaração de quem publica.
Painéis e masterclasses: pesquisa, história e o recorte que não fecha
A parte de debate do ES+ Café Lab juntou quem pesquisa, quem produz e quem vende. Nas mesas, os participantes expuseram como estruturam seus negócios, que dados levantaram e quais experiências consideram exemplares. Atenção a um detalhe de leitura: o balanço diz que apresenta alguns dos destaques e cita profissionais que estiveram entre os participantes. São marcadores de recorte. A relação de nomes e atividades abaixo, portanto, não é a programação completa, e não deve ser contada como total.
Entre os nomes divulgados, a historiadora Dandara Renault, produtora de eventos de café e pesquisadora em racialidade e café, esteve na masterclass Produção cultural para cafeterias e no painel Diversidade, equidade, inclusão e pertencimento na cafeicultura, onde relatou o trabalho de consultoria e o circuito de arte e pesquisa que mantém pela empresa Maloca Kofi.
O painel Pesquisa e inovação com café teve Luiza Respi, pesquisadora especializada em detecção de contaminantes no café e responsável pela startup Nano Smart. A nota afirma que a empresa é considerada uma das três startups mais inovadoras do País, mas não diz quem a classificou assim, em que levantamento nem em que ano — é elogio sem autor identificado, e fica registrado como o material o apresentou.
O pesquisador e professor do Ifes João Pavesi levou dados sobre sustentabilidade na cafeicultura e a experiência de coordenar o Laboratório de Classificação e Degustação de Café do Ifes, no Campus Alegre, que atuou na implantação da Indicação Geográfica de Cafés Especiais do Caparaó. O que essa indicação garante, quais municípios abrange e que exigências impõe ao produtor não é explicado em momento algum — a expressão aparece como credencial, não como informação.
Já a masterclass Café e ancestralidade no imaginário capixaba puxou o fio histórico. Coube ao historiador e mestre em Estudos Urbanos Marcus Vinicius Sant’Ana ligar a formação econômica do estado à cultura que se construiu em volta da bebida:
“É de extrema importância a gente falar da história e da cultura do Espírito Santo. O café regeu grande parte da economia do Espírito Santo e falar de café é falar da economia e formação da cultura no Espírito Santo”.
A observação é de Marcus Vinicius Sant’Ana, que traçou no palco o percurso da bebida dentro da formação cultural do estado.
Formação, plano de negócio e as noites na Praça Costa Pereira
A trilha de formação misturou teoria e bancada. Entraram nela a aula-show Escolha e Operação de Máquinas de Espresso e a oficina Canvas: como estruturar seu modelo de negócio?, realizada em parceria com o Sebrae-ES. Essa segunda é a que mais se afasta do balcão: trata de organizar uma ideia de negócio no papel antes de investir nela. O material não informa se houve continuidade, acompanhamento posterior ou qualquer atendimento aos participantes depois dos três dias.
À noite, a praça virou palco. As apresentações aconteceram nos dois últimos dias. Na sexta-feira (05), tocaram o trio Chorou Bebel, levando faixas do disco de estreia P/ QUEM TEM CORAGEM DE AMAR, e Gabriela Brown, com R&B e soul tropical. No sábado (06), foi a vez do forró pé-de-serra de Amanda Requião e do samba de Monique Rocha. Havia área de food trucks no entorno. A abertura, na quinta-feira (04), não teve show noturno divulgado.
A ponta de Guarapari nesta história
Entre os parceiros listados está o Núcleo de Produção Digital (NPD) do Ifes Guarapari — a única menção ao município em todo o material. O balanço não descreve o que o núcleo fez no evento: não diz se produziu registro audiovisual, se levou equipe, se realizou alguma das oficinas ou se apenas cedeu estrutura. Fica o registro da participação, sem a atribuição de papel que a nota não fornece.
O que a nota oficial não informa
Reunindo as lacunas espalhadas pelo texto, este é o inventário do que ficou de fora e que um leitor interessado no assunto procuraria:
- Resultado das competições — nem o vencedor do Campeonato de Latte Art nem o da disputa de degustação foram divulgados.
- Programação completa — a nota assume que lista apenas parte dos destaques, e não há grade publicada.
- Método de contagem do público — como se chegou à casa das 800 pessoas.
- Custo e financiamento — quanto custou, quem pagou, e o que cada parceiro aportou.
- O que é o Hub ES+ — natureza, mantenedor e funcionamento fora das datas do evento.
- O que caracteriza um café especial — a expressão atravessa o texto inteiro sem uma linha de definição, embora seja o eixo declarado de toda a programação.
- Resultados práticos — se houve negócio fechado, contrato, encomenda ou qualquer acompanhamento dos participantes depois dos três dias.
- Continuidade — não há edição seguinte anunciada, calendário, site, telefone, e-mail ou perfil indicado para quem quisesse acompanhar.
O que sobra de permanente do ES+ Café Lab
De um evento de três dias que terminou, sobra pouco de acionável — e é honesto dizer isso em vez de encerrar com adjetivo. O texto oficial usa o plural ao falar dos eventos do ES+ Café, o que sugere uma série e não uma ação isolada, mas essa é a única pista de continuidade: nenhuma data futura, nenhum canal de contato e nenhuma forma de inscrição foram divulgados. Também não consta se as oficinas geraram certificado ou material de apoio que ficasse disponível depois.
O que permanece são endereços e instituições que existem além do evento: a Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, onde fica a sede do Hub ES+; o laboratório de café do Ifes no Campus Alegre; e a rede de entidades de apoio ao pequeno negócio e de extensão rural que assinou a parceria. Quem procura formação em café no Espírito Santo tende a encontrar caminho por elas — e não por uma edição que já se encerrou.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!