Quando Vitória recebeu um torneio de rugby em cadeira de rodas em julho de 2024, a locomoção das delegações até a competição dependeu de um esquema montado pela Ceturb-ES. O III Regional Sudeste de Rugby em Cadeiras de Rodas foi marcado para os dias 20 e 21 de julho de 2024, no Centro de Treinamento Jayme Navarro de Carvalho, que fica na sede da Secretaria de Esportes e Lazer (Sesport), em Bento Ferreira. O comunicado oficial que deu origem a esta publicação saiu com a competição já em andamento e descreve o esquema no futuro — ou seja, é anúncio de operação, não relato do que se cumpriu.
Três veículos, três delegações e um serviço à parte para o time da casa
Pelo que a companhia divulgou, a operação foi dividida em duas frentes. Três carros do Transcol Social ficaram destacados para as equipes de fora e permaneceram com elas ao longo dos dois dias. Ao todo, 35 atletas em cadeira de rodas seriam atendidos por essa frente.
Já a equipe da casa, o Irefes/Sesport, entrou por outra porta: o atendimento dela coube ao Serviço Especial Mão na Roda. São, portanto, dois programas distintos operando no mesmo fim de semana, e o material não explica o que separa um do outro nem por que a delegação local não usou o mesmo esquema das visitantes.
As três delegações de fora vieram de:
- Gladiadores — Curitiba (PR);
- Minas Quad Rugby — Belo Horizonte (MG);
- Santa Vikings — Rio de Janeiro (RJ).
Vale um registro sobre o desenho da competição: apesar de o torneio se chamar Regional Sudeste, uma das equipes inscritas é de Curitiba, no Paraná. O texto oficial não explica o critério de participação que permite essa composição.
A fala do dirigente, e o único lado que aparece
“A Ceturb-ES, em parceria com a Sesport, reafirma seu compromisso com a inclusão e a acessibilidade ao transportar os atletas cadeirantes do torneio de rugby. Uma ação que promove o esporte e a igualdade de oportunidades para todos”
A declaração é do diretor-presidente da Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros (Ceturb-ES), Marcelo Campos Antunes. É a única fala de todo o comunicado: nenhum atleta, técnico ou dirigente das equipes é ouvido. Como o material partiu do próprio Estado, e a Sesport aparece ao mesmo tempo como parceira da operação, como dona do espaço da competição e como parte do nome da delegação capixaba, o texto reúne apenas a versão de quem organizou — ausência de crítica num documento assim não significa que não haja o que questionar.
O que estava em jogo: a vaga na Copa dos Campeões
A etapa capixaba valia classificação. Segundo o comunicado, as duas primeiras colocadas garantiam lugar na Copa dos Campeões, marcada para o período entre os dias 04 e 09 de dezembro, com sede ainda indefinida quando o texto foi divulgado. A competição regional é realizada desde 2022, e o Estado destaca que foi a primeira edição fora do Rio de Janeiro.
O material não traz o resultado. Não há placar, não há campeão, não há vice — e, portanto, não há como saber por esta publicação quais equipes daquele fim de semana seguiram para dezembro.
Fora do rugby em cadeira de rodas, o comunicado não diz como pedir o serviço
Este é o ponto em que o comunicado silencia, e é o que mais interessa a quem não é atleta. Deslocar-se pela cidade usando cadeira de rodas é rotina, não evento. O texto oficial fala em compromisso com a acessibilidade, mas não informa:
- quantos veículos da frota são adaptados;
- se o Transcol Social e o Mão na Roda funcionam de forma contínua ou só em ações pontuais como esta;
- como uma pessoa com deficiência solicita o atendimento, com qual antecedência e por qual canal;
- quem tem direito, se há custo e quais áreas são cobertas;
- que adaptação o transporte de uma delegação inteira exigiu — o comunicado cita os carros, mas não descreve equipamento, acomodação das cadeiras nem equipe envolvida;
- quantas pessoas somam todas as delegações reunidas: os 35 informados dizem respeito apenas à frente atendida pelo Transcol, sem o contingente da equipe capixaba.
A lacuna importa porque muda a natureza do que se anuncia. Transporte acessível garantido por dois dias é apoio a um evento; transporte acessível disponível o ano inteiro é política pública — e só a segunda hipótese resolve consulta médica, escola e trabalho. Meses depois daquele fim de semana, em 31 de outubro de 2024, o Estado voltou ao assunto ao anunciar um novo serviço de transporte para pessoas que usam cadeira de rodas — episódio posterior a este e que, portanto, não estava previsto no comunicado de julho.
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