Prisões em Pinheiros: a nota diz duas e descreve três

A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), pela Delegacia de Polícia (DP) de Pinheiros, divulgou uma nota sobre uma ação feita junto com a Polícia Militar do Espírito Santo (PMES) na terça-feira (23) e na quarta-feira (24) de julho de 2024, no município de Pinheiros. O texto oficial abre informando que dois homens foram presos, um de 20 e outro de 24 anos. Nos parágrafos seguintes, ele narra três prisões, em três momentos e em três pontos diferentes da cidade — e a última delas recai sobre um segundo homem de 20 anos, que a própria nota apresenta como outra pessoa. As prisões em Pinheiros chegam ao leitor, portanto, com duas contas que o comunicado não fecha e não comenta.

A fase importa mais que a contagem: ninguém foi condenado, e o material não informa que alguém tenha sido autuado ou indiciado. As três pessoas são tratadas como suspeitas e investigadas do começo ao fim do texto oficial. O comunicado encerra dizendo que os detidos seguiram para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de São Mateus — o nome da unidade designa a guarda de quem aguarda decisão, não o cumprimento de pena — e que ali permaneciam à disposição da Justiça. Esse é o retrato de julho de 2024: o que veio depois, para cada um deles, esse material nunca divulgou.

Foto que acompanha o comunicado da polícia sobre as prisões feitas em Pinheiros

Três prisões em Pinheiros, e cada uma tem uma origem diferente

Ler o comunicado pessoa por pessoa desfaz o plural do primeiro parágrafo. São três situações, e elas não nascem do mesmo ato:

  • Um homem de 20 anos, na noite de terça-feira (23). A nota diz que ele foi abordado e preso dentro de um carro de aplicativo, ao sair de casa. Com ele, os policiais apreenderam um revólver calibre .38 carregado, com seis munições intactas do mesmo calibre.
  • Um homem de 24 anos, na manhã de quarta-feira (24). O texto oficial usa a palavra flagrado e situa a venda de droga perto de uma escola, que não chega a ser nomeada; o material também não diz se havia aula nem se havia estudantes por ali. Com ele foram encontrados drogas e dinheiro.
  • Outro homem de 20 anos, na tarde da mesma quarta-feira (24). A nota o descreve como suspeito de ser o autor de uma morte ocorrida em 14 de julho, no mesmo município.

A modalidade de cada prisão também muda, e o comunicado só é explícito em um dos casos. Para o homem de 24 anos, o verbo do relato aponta captura no ato. Para o primeiro homem de 20 anos, a nota afirma, em fala do delegado titular, que a delegacia pediu à Justiça mandados de prisão contra ele e que eles foram cumpridos — mas o mesmo texto havia narrado a captura como uma abordagem de rua, sem dizer qual das duas coisas encerrou a prisão. Para o terceiro homem, o material não informa modalidade nenhuma: não escreve flagrante, não menciona ordem judicial e não explica sob que fundamento ele foi levado.

Há ainda um descompasso entre a contagem e a acusação. O primeiro parágrafo diz que os dois presos que ele conta são suspeitos de tráfico de drogas e de homicídio. Só que a suspeita de homicídio, no corpo do texto, recai sobre a terceira pessoa — justamente a que a conta de dois não inclui.

A quem a nota liga cada apreensão — e a quem ela não liga

Foram cinco conjuntos de itens recolhidos, e eles não têm o mesmo grau de vínculo com as pessoas presas. Vale separar:

  • Revólver calibre .38 com seis munições: apreendido com o homem de 20 anos, no momento da abordagem. É o único item que o comunicado prende diretamente a uma pessoa.
  • Drogas em um dos cômodos de um imóvel: encontradas na manhã seguinte, no cumprimento de mandados de busca e apreensão na residência desse mesmo investigado.
  • Drogas e dinheiro: com o homem de 24 anos, na abordagem da manhã de quarta-feira.
  • Submetralhadora de fabricação caseira: localizada numa residência vizinha à do homem de 24 anos, em outro mandado de busca. A própria nota registra que ninguém foi encontrado nessa casa, e em nenhum momento atribui a arma a alguém.
  • Sistema de câmeras: apreendido numa residência vizinha à do terceiro homem. Segundo a polícia, o equipamento monitorava a movimentação policial. O comunicado não diz quem instalou nem quem operava o sistema.

Duas leituras precisam ser evitadas aqui, e as duas seriam do leitor, não do órgão. A primeira é somar as duas armas às pessoas presas: a submetralhadora foi achada num imóvel onde não havia ninguém, e ligá-la a quem mora ao lado é conclusão que a nota não autoriza. A segunda é dimensionar as drogas. O material não informa tipo, quantidade nem peso de nada do que apreendeu, e o dinheiro aparece sem valor — nenhuma cifra é publicada. Também não há registro de exame capaz de confirmar as substâncias.

Quem entrou, quem autorizou e para onde os presos foram

O comunicado nomeia duas corporações distintas: a Polícia Civil, pela Delegacia de Polícia de Pinheiros, e a Polícia Militar, pela 19ª Companhia Independente sediada no município. São órgãos diferentes, com funções diferentes, e nesse ponto a palavra integrada, que a nota usa, se sustenta. O texto cita ainda apoio do Ministério Público e do Poder Judiciário, sem descrever um único ato praticado por qualquer um dos dois — o que ele atribui à Justiça é a expedição de mandados, e não nomeia a vara ou o juízo que os assinou.

Sobre a entrada nos imóveis, o material é desigual. Nas duas primeiras casas, ele fala em mandados de busca e apreensão, ou seja, ordem judicial — sem informar quantos mandados foram cumpridos ao todo. Já a entrada na residência vizinha à do terceiro homem, de onde saiu o sistema de câmeras, aparece sem qualquer menção a autorização: nem ordem judicial, nem consentimento de morador. Quem lê fica sem saber sob que fundamento aquela porta se abriu.

Vale ainda separar os lugares, que uma leitura corrida junta num só. O município de Pinheiros é onde as três prisões ocorreram, é onde funciona a delegacia que apura os casos e é onde a nota situa a morte de 14 de julho. Mas a custódia dos presos passou para outro município, São Mateus, onde fica o CDP citado no fecho. E o juízo que expediu as ordens o comunicado não localiza em lugar nenhum.

O nome que sai daqui, e os bairros que saem junto

A nota oficial identifica pelo nome completo a vítima do homicídio de 14 de julho, um adolescente de 16 anos, e informa o bairro onde a morte ocorreu. Este texto não reproduz nenhum dos dois. Vítima com menos de 18 anos não é nomeada aqui em circunstância alguma, e a regra não afrouxa porque o órgão público publicou o nome: a página fica indexada, é encontrada anos depois pela família, e o nome não acrescenta nada a quem lê a notícia da própria cidade.

Pela mesma razão saíram do texto os nomes dos bairros citados no comunicado — os dois em que houve prisão e o da morte. Num município pequeno, bairro somado a data e à idade da vítima estreita demais o círculo de famílias possíveis. E fixar um bairro como o endereço de um caso de tráfico cobra o preço de quem mora lá e não tem relação nenhuma com a ocorrência. O que interessa a quem lê é o município, e ele está dito.

Uma das duas falas do comunicado também ficou de fora. Nela, o delegado titular avalia a periculosidade de um dos presos e comemora sua retirada das ruas — juízo sobre pessoa que, pelo próprio texto, é suspeita e não foi julgada. O conteúdo factual dessa fala está preservado acima, em discurso indireto e atribuído: os crimes de que ele é suspeito, segundo a polícia, são roubo em comércio, tráfico de drogas e tentativa de homicídio, e foi contra ele que a delegacia disse ter pedido e cumprido mandados de prisão.

A fala que ficou, e o número que ela não apresenta

O sucesso das operações realizadas na cidade de Pinheiros é fruto da integração entre as polícias Civil e Militar, com o apoio do Ministério Público e do Poder Judiciário. Dessa forma, estamos reduzindo drasticamente os índices de criminalidade na cidade. Estamos atentos e vigilantes, e novas prisões deverão ocorrer em breve

O major Manoel Gambarti Júnior comanda a 19ª Companhia Independente da Polícia Militar de Pinheiros, e a polícia atribuiu a ele esse trecho no mesmo comunicado que narra as prisões. Ele afirma queda de criminalidade, e o comunicado inteiro não publica um único índice: nenhum número de ocorrências, nenhum recorte de período, nenhuma comparação com meses ou anos anteriores. O que o texto mede é atividade — quantas pessoas foram presas naqueles dois dias —, e atividade não é o mesmo que resultado. A frase final, sobre novas prisões, indica que as apurações seguiam abertas quando o material foi divulgado.

Duas contas, três prisões e sete lacunas na mesma nota

  • Foram dois ou três presos? O comunicado conta dois no primeiro parágrafo e descreve três nos seguintes, sem reconciliar.
  • Quantos mandados foram cumpridos, de busca e de prisão, e qual juízo os expediu.
  • Sob qual modalidade o terceiro homem foi preso — o texto não escreve flagrante nem cita ordem judicial no caso dele.
  • Qual enquadramento coube a cada um. O material lista suspeitas, nunca uma autuação ou um indiciamento.
  • Tipo, quantidade e peso das drogas, e o valor do dinheiro apreendido.
  • Com que autorização os policiais entraram na residência de onde saiu o sistema de câmeras.
  • Se a morte de 14 de julho tinha, naquele momento, outros investigados além do homem preso na quarta-feira.

Um dado que o comunicado apresenta quase como certeza também merece a marca de origem: a motivação atribuída ao homicídio, ligada ao tráfico de drogas, vem escrita no condicional. É hipótese de trabalho da investigação, não conclusão.

Quem tem informação sobre o caso, e como passá-la

A própria delegacia disse esperar novas prisões, o que significa que as apurações continuavam em curso quando a nota saiu. Quem souber de algo sobre a morte de 14 de julho ou sobre pontos de venda de drogas na cidade pode acionar o 181, o Disque-Denúncia, que recebe a informação sem exigir identificação — o que pesa numa cidade pequena, onde entrar numa delegacia é visto. Para crime em andamento, com risco imediato, o número é o 190.

No dia seguinte ao segundo dia dessa sequência, a mesma delegacia divulgou outra ocorrência no município: policiais civis cumpriram um mandado de busca numa casa de Pinheiros e recolheram drogas e acessórios de arma, num caso que envolve outro homem, de 23 anos. São fatos distintos, com pessoas distintas, e nenhum dos dois comunicados relaciona um ao outro.

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