Duas agroindústrias de agricultura familiar do norte e do noroeste capixaba passaram a vender aipim minimamente processado para escolas de redes municipais, dentro do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). O quadro é o de julho de 2024, e nele o volume já entregue é pequeno: cerca de seis toneladas, saídas de uma única agroindústria, a de Linhares. As 120 toneladas que aparecem no material são previsão, não entrega. A divulgação é do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), órgão estadual que prestou a assistência técnica aos dois empreendimentos e, portanto, descreve um resultado do qual faz parte.
O que é aipim minimamente processado — e por que a escola compra
O nome é técnico e esconde uma coisa simples. O aipim — a raiz que, conforme a região, também atende por mandioca ou macaxeira — não chega à cozinha da escola inteiro e com casca: ele é selecionado, higienizado, fracionado e congelado antes de sair da agroindústria. É esse conjunto de etapas que o material chama de minimamente processado. O alimento continua sendo o alimento, sem virar outro produto, mas chega pronto para ir à panela.
O interesse da escola, segundo o Incaper, é duplo: o congelamento alonga o período em que a raiz pode ser oferecida no cardápio e reduz a perda que acontece com o alimento fresco parado no estoque. Do lado de quem produz, o argumento é o valor que a etapa acrescenta à mesma raiz.
A economista doméstica e extensionista do Incaper que treinou a equipe da agroindústria de Vila Valério em boas práticas de manipulação, Jozyellen Nunes da Costa, resumiu assim os dois lados do negócio:
“Esse tipo de produto tem um aproveitamento melhor pelas escolas, que conseguem evitar desperdícios que podem ocorrer com os alimentos in natura. Para a agroindústria, tem a vantagem do valor que se agrega a esse produto. O preço de venda é melhor”
Aipim vendido, preço não divulgado
A frase acima é o coração do material — e é também onde ele para. Não há, em nenhum ponto do texto oficial, quanto custa o quilo do aipim minimamente processado, quanto a agroindústria recebia pela raiz antes de congelá-la, qual a diferença entre os dois preços, nem quanto cada prefeitura pagou. A promessa de renda vem sem uma cifra que a sustente, num texto cujo assunto declarado é oportunidade de comercialização.
O mesmo vale para o emprego. Só a agroindústria de Linhares aparece com gente contada por trás: o coordenador do projeto informa que 12 famílias da comunidade tiram renda dela. Quantas pessoas vivem da agroindústria de Vila Valério, o material não diz.
Seis toneladas entregues, 120 toneladas previstas
Seis e 120 saem do mesmo parágrafo do material oficial, mas contam coisas de naturezas diferentes:
- cerca de 6 toneladas — o que a agroindústria de Linhares já havia entregue às escolas da rede municipal do próprio município em 2024, segundo o extensionista do Incaper. O cerca de é do material: é aproximação, não medição fechada;
- mais 120 toneladas — previsão de entrega para o segundo semestre de 2024 e para 2025, num bloco só. O material não separa quanto caberia a cada ano, e previsão não é contrato: é o que o órgão esperava naquele momento.
A projeção atravessa dois exercícios e o texto não informa em que ela se apoia — pedido de prefeitura, cardápio aprovado ou capacidade instalada da agroindústria.
Quem produz, quem compra, e a lista que não fecha
O material nomeia dois empreendimentos, em municípios diferentes e com donos diferentes:
- Crioula Alimentos, em Vila Valério, inaugurada em abril de 2024 pela Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Espírito Santo. Entrou no PNAE para fornecer o aipim e, na sequência, começou a produzir abacaxi, manga e goiaba minimamente processados. São frutas que a extensionista do Incaper descreve como mais doces, a ponto de renderem suco sem adição de açúcar, o que ela associa a outro ponto da mesma resolução federal — mas nenhuma delas era vendida ao programa: o material as descreve como produção voltada a um fornecimento futuro;
- a agroindústria da Associação Camponesa da Agricultura Familiar do Córrego Jacutinga, em Linhares, fundada no mesmo ano de 2024, responsável pelas seis toneladas e pela previsão das 120.
Do lado comprador, o texto cita Vila Valério, Nova Venécia, Linhares e São Mateus como municípios que adquirem o produto pelo PNAE. Não diz se são todos, e a abertura da divulgação apresenta as agroindústrias do norte e do noroeste do Estado a título de exemplo, com a Crioula como uma entre elas. A relação é aberta nas duas pontas: pode haver mais agroindústrias fornecendo e mais prefeituras comprando do que as nomeadas ali. Uma terceira agroindústria, aliás, aparece sem nome — é a de Nova Venécia que os agricultores de Linhares visitaram num intercâmbio, e foi dessa visita que saiu a ideia de produzir aipim congelado.
O extensionista do Incaper que coordena o projeto em Linhares, Daniel Duarte, contou dessa visita e do que ela tinha de atraente para o grupo:
“Levamos os agricultores para conhecer uma agroindústria desse tipo e eles gostaram muito da proposta. Principalmente pela possibilidade de comercialização garantida por meio do PNAE, programa para o qual eles também fornecem produtos orgânicos, como couve, cebolinha e banana”
Repare no sujeito de cada etapa da história oficial: o Incaper promoveu o intercâmbio, apoiou a abertura do empreendimento e treinou a equipe. Aos agricultores cabe ter gostado da proposta — nenhum deles conta a própria decisão no material.
PNAE e a regra federal de 2020 que abriu essa porta
Por trás dessas compras está o PNAE, o dinheiro federal que paga a alimentação nas escolas públicas — e que, para quem planta, transforma a prefeitura em cliente com orçamento definido. O que mudou o interesse pelo congelado foi uma norma do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), a Resolução 6, de 2020: segundo o Incaper, ela determina que ao menos 75% dos recursos usados no âmbito do PNAE sejam gastos com alimentos in natura ou minimamente processados. É desde essa norma, diz o órgão, que a extensão rural estadual vem estimulando as agroindústrias a entrar nesse tipo de produto.
Aqui está o silêncio mais chamativo do material: ele cita um piso obrigatório de 75% e não publica um único percentual que mostre onde os municípios citados estão em relação a esse piso. O texto não permite saber se o aipim congelado ajudou alguma prefeitura a alcançar esse patamar, se ele já era alcançado antes, nem qual é a consequência de ficar abaixo dele.
Fica sem tradução, também, a sigla OCS, que aparece no nome do projeto que bancou parte do trabalho em Linhares — Estruturação de OCS no norte do Espírito Santo e avaliação dos impactos econômicos e sociais na vida dos agricultores familiares, financiado pelo Banco de Projetos da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) com a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes). A abreviação nunca é explicada, e o material não diz quanto o projeto custou, quanto tempo dura nem quantos empreendimentos atende.
Como um produtor entra nesse mercado: o material não ensina
Quem lê pensando em fazer o mesmo não encontra ali o caminho: não há edital, prazo, documento exigido nem setor a procurar. O texto descreve um resultado, não um procedimento — e a diferença pesa, porque os compradores citados são prefeituras, cada uma com o seu processo de compra, e não a rede estadual.
O acervo do portal registra o outro lado desse balcão. Em janeiro de 2025, meio ano depois desta divulgação, a Secretaria da Educação abriu uma chamada pública em que só cooperativas e associações já constituídas podiam propor a venda de alimentos às escolas do Estado — seleção de outra rede, que não substitui a compra municipal descrita aqui, mas mostra a exigência comum às duas: o agricultor sozinho, sem organização formal, não é quem assina o contrato. Dias depois, o governo estadual divulgou a fatia do orçamento da merenda das escolas estaduais de 2024 que ficou com produtores familiares, número que também se refere às escolas do Estado, e não às municipais. Já em 2026, a Secretaria da Agricultura passou a publicar as listas de aprovados de um programa estadual de apoio a agroindústrias familiares, iniciativa distinta desta e posterior a ela em ano e meio.
Dois funcionários do mesmo instituto, nenhum agricultor
As duas pessoas que falam no material trabalham no Incaper, o órgão que prestou a assistência técnica descrita. Ninguém mais é ouvido: nenhum cooperado da Crioula, nenhum associado do Córrego Jacutinga, nenhuma merendeira, nenhum nutricionista de rede municipal, nenhuma secretaria de educação dos municípios compradores e nenhum estudante que come o produto. Também não aparece quem tentou fornecer e não conseguiu. Isso não desmente o que está escrito — marca o alcance do documento: é uma prestação de contas de política pública feita por quem a executa.
Do preço ao selo: o que ficou sem resposta em julho de 2024
- quanto custa o quilo do aipim minimamente processado e quanto cada prefeitura pagou;
- quantas escolas e quantos estudantes recebem o produto nos municípios citados;
- sob qual registro ou serviço de inspeção as duas agroindústrias vendem — o material fala em curso de boas práticas de manipulação e em segurança sanitária, mas não nomeia quem autoriza a venda;
- quanto foi investido na montagem das duas agroindústrias, e por quem;
- se as 120 toneladas previstas foram entregues, se a capacitação em temperos desidratados anunciada para agosto de 2024 aconteceu e se as frutas minimamente processadas chegaram a ser vendidas ao programa. São três promessas cujo desfecho o Governo do Estado não voltou a divulgar em material de que este portal tenha registro.
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