Encontro ESG em Vitória foi apresentado no Palácio Anchieta

A apresentação do encontro ESG em Vitória aconteceu numa entrevista coletiva no Palácio Anchieta, na capital capixaba, na segunda-feira (21) de outubro de 2024. Quem apresentou o Horasis Global Meeting foi o fundador do encontro, Frank-Jünger Richter, ao lado do governador Renato Casagrande. O que se anunciou ali foi uma agenda de debates marcada para 25 a 27 de outubro daquele ano, na Cidade da Inovação — não um investimento, não um contrato assinado e não uma meta com prazo.

As datas anunciadas já passaram. O material oficial que originou esta publicação é do dia do anúncio: ele descreve o que estava previsto e não acompanha o que veio depois. Nada nele permite dizer o que o encontro produziu — e nada nele autoriza dizer que não produziu nada.

A frase que dava título a este texto não era de ninguém

Por quase dois anos esta matéria esteve no ar sob uma frase entre aspas, garantindo que o Espírito Santo seria a capital do ESG no mundo. Dois problemas moram aí.

O primeiro: ninguém disse isso. A frase não sai da boca de nenhuma das pessoas identificadas no material de origem — ela está na prosa de quem redigiu o anúncio, sem falante e sem responsável.

O segundo: no material a frase é condicional. O que está escrito ali é que o Estado pode se tornar a capital do ESG no mundo. O título trocou a possibilidade pelo futuro do indicativo, e a troca muda tudo: uma hipótese de quem organiza passou a circular como resultado anunciado.

Com dono, o material sustenta bem menos. O fundador do encontro afirmou que a oitava edição faria do Estado um ponto focal de ESG, com líderes debatendo ideias em torno de mudanças climáticas, tecnologia, questões sociais e economia. É expectativa declarada por quem promove o evento — e vai registrada como expectativa.

O que a sigla significa, segundo o material: nada

A abreviação aparece três vezes no texto de origem — prática ESG, ponto focal de ESG e política ESG — e em nenhuma delas é explicada. Quem nunca ouviu o termo termina a leitura sem saber do que se falou. Preencher essa lacuna aqui, com uma definição que a fonte não deu, seria escrever por ela.

O que dá para dizer sem sair do material é qual assunto estava previsto sob esse rótulo: sustentabilidade, mudanças climáticas, economia, tecnologia, questões sociais, macroeconomia, geopolítica, inovação e desenvolvimento sustentável. É por essa lista, e só por ela, que o leitor consegue reconstruir o tema do encontro.

Os números do anúncio, e o que cada um deles conta

  • Mais de 400 líderes globais — expectativa de público divulgada por quem organizava, antes de o evento começar. A expressão mais de estabelece um mínimo e deixa o teto em aberto; nenhuma contagem posterior chegou ao material.
  • 37 países — a origem declarada desses líderes esperados.
  • Mais de 70 encontros, entre plenárias e sessões — o número conta atividades da programação, não pessoas.
  • 70 países — representantes reunidos nas edições anteriores, realizadas em Portugal, Inglaterra e Turquia. O material não diz se são 70 por edição ou no conjunto delas.
  • Oitava edição do encontro, a primeira sediada pelo Brasil e, conforme o anúncio, inédita na América Latina.
  • 25 a 27 de outubro — o único número do anúncio que vem com prazo.

Não há uma cifra sequer no material. Ele não informa quanto custou o encontro, quanto cada patrocinador colocou, quanto saiu de dinheiro público nem qual retorno se estimava para o Estado. Tampouco há meta: nenhum compromisso numérico com data de cobrança foi apresentado. O que existe é calendário — e calendário é a única coisa que se pode conferir depois.

Quem falou no encontro ESG em Vitória

A mesa da coletiva era grande. Além do governador e do fundador do encontro, estavam o secretário de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Felipe Rigoni; o diretor de Formação de Lideranças do ES em Ação, Gabriel Feitosa; e o presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Paulo Baraona. As três declarações registradas no material vêm de pessoas ligadas ao Governo do Estado ou às entidades responsáveis pela realização do evento.

Desta matéria consta uma delas. As outras duas repetem a expectativa de competitividade e de atração de investimentos já descrita acima, sem acrescentar dado, prazo ou compromisso verificável — e por isso ficaram de fora.

Teremos debates fundamentais como economia, mudanças climáticas, prática ESG e o futuro do nosso planeta. É um evento internacional importante para a América Latina, para o Brasil e para o Espírito Santo

A fala é do governador Renato Casagrande, durante a coletiva. Um detalhe do contexto em que ela aparece merece registro: o material apresenta a declaração logo depois de afirmar que o governador ressaltou ser o Brasil a grande referência de transição energética — e a frase reproduzida não menciona transição energética em momento algum. A costura entre as duas coisas é de quem redigiu o anúncio, não do falante.

Nome confirmado não é presença confirmada

O anúncio listava três participantes já acertados: a ex-presidente do Equador, Rosalia Arteaga; o ex-primeiro-ministro da Tunísia, Hichem Mechichi; e o diretor do Banco de Singapura, Manik Shaw. Confirmação em anúncio é intenção declarada, não comparecimento — e o material, por ser do dia da apresentação, não informa quem de fato veio.

Quem realiza o encontro e quem apenas apoia

A distinção importa porque o anúncio saiu do palácio do governo. No bloco de serviço do próprio material, a realização é atribuída a ES em Ação, Findes/Cindes e Horasis — o Governo do Estado aparece na lista de apoio, não entre os realizadores. O texto ainda relaciona nomes de empresas e entidades em blocos de apresentação, patrocínio e apoio, sem informar quanto qualquer uma delas aportou. Quem organiza, quem financia e quem divulga podem ser três conjuntos diferentes, e neste caso são.

O lado que um anúncio de governo nunca traz

Comunicado oficial é peça de quem promove, e a lista de quem não aparece nele é longa: nenhum trabalhador ou representação sindical, nenhum morador da região onde o encontro seria realizado, nenhum órgão de fiscalização ambiental avaliando as práticas que o evento se propunha a debater, nenhuma voz de oposição ao governo. O secretário responsável pela pasta ambiental estava na mesa, mas ali como integrante do governo que promovia o anúncio, e não emitindo parecer sobre coisa alguma. Esse silêncio mede o alcance do release, não o grau de concordância com ele: não há crítica no material porque crítica não foi procurada ali, o que é bem diferente de crítica não existir.

O que o material oficial não informa

  • quanto custou o encontro e quanto o poder público destinou a ele;
  • se havia inscrição aberta ao público capixaba, gratuita ou paga;
  • qual compromisso, acordo ou documento se pretendia assinar nos três dias;
  • quem, entre os nomes confirmados, participou de fato;
  • o que restou depois — carta final, protocolo de intenções, investimento anunciado;
  • o que a sigla ESG quer dizer.

Sobre o tema que o governador levantou na coletiva, um mês depois daquelas datas houve um fórum sobre transição energética com foco no desenvolvimento sustentável do Espírito Santo — evento posterior e distinto, que o material aqui tratado não menciona nem relaciona a si. Dois meses antes do anúncio, o Estado já aparecia no noticiário pela força da sua cafeicultura sustentável, um dos raros pontos em que a conversa sobre sustentabilidade capixaba chega a uma cadeia produtiva concreta.

Ficha do encontro, como o anúncio a divulgou

  • Data anunciada: 25 a 27/10 (sexta-feira, sábado e domingo) de 2024
  • Local: Cidade da Inovação, em Vitória (ES)
  • Tema: Construindo Pontes para o Futuro
  • Realização: ES em Ação, Findes/Cindes e Horasis

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