A pavimentação e a sinalização das rodovias ES-358 e ES-356, nos trechos Córrego Rodrigues x Comendador Rafael x Sooretama, foram inauguradas na manhã de sábado (23) pelo governador Renato Casagrande, na região norte do Espírito Santo. Entre as obras em Sooretama apresentadas naquela agenda, essa é a que o comunicado coloca no degrau mais avançado — obra entregue — e a ela o texto oficial atribui R$ 185 milhões e mais de 50 quilômetros de via.
Na mesma agenda, porém, o Governo do Estado apresentou junto com a estrada obras de contenção de alagamento, a urbanização de um córrego, um espaço esportivo, repasses para a Educação e para a Saúde e um plano estadual de postos de saúde. São coisas em degraus diferentes, com preços muito desiguais — e algumas delas nem sequer ficam em Sooretama. As duas maiores cifras do texto, R$ 270 milhões e R$ 68 milhões, não são do município: pertencem a um programa de alcance estadual que aparece só no último parágrafo. Por isso vale abrir o pacote linha a linha antes de fazer qualquer conta com ele.
Duas rodovias, uma medida só, e duas pontas que não batem
O corpo do comunicado diz que a via liga os municípios de Vila Valério e Linhares. A fala do governador, publicada logo abaixo no mesmo texto, descreve a ligação de outro jeito: para ele, a rodovia liga Sooretama a Vila Valério. São duas descrições diferentes do mesmo trecho, e o material oficial não concilia as duas — não diz se Sooretama fica no meio do percurso entre os dois municípios citados no corpo, nem se são recortes distintos da mesma via. Aqui as duas versões ficam como saíram, sem escolha entre elas.
Há também duas rodovias e uma única medida de extensão. O texto informa mais de 50 quilômetros para o conjunto e não reparte esse total entre a ES-358 e a ES-356. Quem lê corrido pode terminar contando 50 quilômetros em cada uma, o dobro do que foi declarado. O mais de ainda deixa a medida em aberto: 50 é o mínimo que o Estado assume, não a extensão exata da obra.
E não há marco de quilometragem em lugar nenhum. O trecho é localizado por três nomes — Córrego Rodrigues, Comendador Rafael e Sooretama —, e o comunicado não explica o que são os dois primeiros nem a que município pertencem. Sem quilômetro inicial e final, o morador não consegue saber se o pedaço de estrada que ele usa todo dia entrou ou não na obra. Também não se sabe quanto do percurso corre dentro de área urbana, onde asfalto novo convive com casa, comércio e travessia de pedestre.
R$ 185 milhões no texto, quase R$ 200 milhões na fala
Quando não tínhamos essa rodovia ligando Sooretama a Vila Valério, ainda no meu primeiro mandato, fizemos o projeto e contratamos a obra. Tinha um debate forte na época para fazer essa obra. Depois entrou um outro governante e paralisou a obra. Retornamos ao Governo e estamos entregando essa obra. Quase R$ 200 milhões em uma ligação importantíssima para essa região. Somente um Estado organizado tem a capacidade de realizar uma obra desse porte
Quem afirmou isso foi o governador Renato Casagrande, durante a solenidade. A frase traz a segunda cifra da estrada: o corpo do comunicado registra R$ 185 milhões e a fala arredonda para quase R$ 200 milhões. É o mesmo investimento contado duas vezes, não dois investimentos. Somar as duas quantias inventaria um dinheiro que só foi anunciado uma vez.
A declaração também abre uma história que o material não fecha. Casagrande diz que projetou e contratou a obra no primeiro mandato, que um outro governante a paralisou e que agora ela está sendo entregue. O comunicado não informa quem seria esse governante, em que ano a obra parou, quanto tempo ficou parada nem se a paralisação encareceu o custo final. A fala foi reproduzida palavra por palavra, sem aparo.
O que o asfalto novo inclui, e o que o texto oficial nunca menciona
Para a rodovia, o Estado nomeia exatamente dois serviços: pavimentação e sinalização. Pavimentar é aplicar a camada sobre a qual o veículo roda. Sinalizar é a pintura feita no próprio piso, com eixo e bordas, mais as placas na margem. Nada além disso é descrito para o trecho.
Fora dessa dupla, o comunicado é silencioso. Não aparecem acostamento, ponte, viaduto, terceira faixa, duplicação, alargamento, ciclovia, calçada nem passarela. Drenagem existe no material, mas pertence a outro item do pacote, as obras do Córrego Alegre — sobre drenagem da rodovia não há uma linha. E não há prazo de garantia nem contrato de conservação declarado para o asfalto que acaba de ser entregue, o que costuma valer tanto quanto a obra em si: drenagem e manutenção são o que decidem se o piso novo chega inteiro ao segundo inverno.
O próprio governador avisa que a agenda mistura degraus
Já inauguramos um conjunto de obras e estamos dando ordem de serviço de tantas outras. É assim em todas as nossas 78 cidades. O capixaba pode ter a certeza de que enquanto estivermos no governo os municípios serão atendidos
A frase é de Casagrande, ainda na mesma solenidade, e é a chave para ler o pacote inteiro. Ela junta numa respiração só duas coisas opostas: obra inaugurada, que já existe, e ordem de serviço, que é a autorização para começar a construir — papel assinado, canteiro vazio. Só que o corpo do comunicado não nomeia uma única ordem de serviço em Sooretama: elas aparecem na fala, no plural e sem lista, e somem do texto. O número 78, no mesmo trecho, conta cidades do Espírito Santo — não obras, não investimentos e não unidades de saúde.
Item por item: em que pé estão as obras em Sooretama
Duas advertências antes da tabela. A primeira: a lista não fecha, e isso vem do próprio texto oficial, que apresenta os itens com como e com entre outras ações — marcadores de recorte, sinal de que há coisas fora da enumeração. A segunda: o comunicado não apresenta total nenhum, e nada aqui é somado, porque valores em degraus diferentes não se juntam.
| O que foi anunciado | Em que pé está, segundo o material | Valor divulgado | Quem toca e de onde vem o dinheiro |
|---|---|---|---|
| Pavimentação e sinalização das rodovias ES-358 e ES-356, trechos Córrego Rodrigues x Comendador Rafael x Sooretama, mais de 50 km | Entregue — inaugurada na agenda | R$ 185 milhões no corpo do texto; quase R$ 200 milhões na fala do governador, para a mesma obra | Executor não informado. O pagador tampouco: a frase usada é que o investimento chega a, sem sujeito |
| Obras de contenção de alagamentos, ao longo de 500 metros do Córrego Alegre | Serviços descritos como executados; o texto não declara a obra inaugurada nem concluída, e diz apenas que entregas estão sendo realizadas no município | R$ 9,5 milhões, apresentados para o conjunto de investimentos do fundo, sem separar item a item | Executor não informado. Recursos do Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas |
| Urbanização do Córrego Alegre | Benefício escrito no futuro: os moradores passarão a ter acesso facilitado | Nenhum valor próprio. Pode estar dentro dos R$ 9,5 milhões, e o material não separa | Executor não informado |
| Construção do espaço esportivo da Comunidade de Santa Luzia | Citado uma vez só, sem estágio declarado e sem nenhuma outra informação | Nenhum | Não informado |
| Repasses para a Educação e para a Saúde | Mencionados de passagem, sem descrição, sem destino e sem estágio | Nenhum | Não informado |
| Reforma e ampliação de Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município, no 2º ciclo do Plano Decenal APS +10 | Repasse autorizado — dinheiro destinado, nada construído | R$ 1 milhão | Autorização do Governo do Estado; as unidades são municipais. O número de UBS atendidas não é informado |
| Quatro unidades de saúde em construção em Sooretama, do 1º ciclo do mesmo plano | Em obras — situação anterior a esta agenda, apresentada como contexto | R$ 9,1 milhões de investimento estadual | Não informado |
| Reformas e ampliações de UBS em todo o Espírito Santo | Anunciado — o Estado vai investir, no futuro | R$ 68 milhões | Governo do Estado, por meio da Secretaria da Saúde (Sesa) |
| Primeira etapa do Plano APS +10: 108 unidades autorizadas em 52 municípios | Autorizadas, com 14 UBSs já inauguradas desse total | R$ 270 milhões | Governo do Estado |
Três leituras saltam da tabela. A primeira contraria o padrão desse tipo de agenda: dentro de Sooretama, a maior cifra é a da obra pronta — a estrada está entregue e leva os R$ 185 milhões, enquanto o item mais caro costuma ser justamente o que ainda não existe. A segunda: o texto inteiro tem duas cifras maiores que a da estrada, R$ 270 milhões e R$ 68 milhões, e nenhuma das duas é do município. A terceira: dois itens locais chegam ao anúncio sem preço algum, o espaço esportivo da Comunidade de Santa Luzia e os repasses para a Educação, este último sem nem uma linha de descrição.
O córrego, as pedras e um benefício conjugado no futuro
A parte menos chamativa do pacote é a mais detalhada, e vale traduzir, porque é raro um comunicado descrever serviço por serviço. Ao longo de 500 metros do Córrego Alegre, segundo o material, foram feitos:
- Enrocamento de pedra espalhada e compactada mecanicamente — pedra de grande porte assentada na margem para segurar o barranco e quebrar a força da água na cheia.
- Geogrelha bidirecional — malha resistente instalada dentro do terreno, que trava o solo nos dois sentidos e reduz o escorregamento da margem.
- Geotêxtil — manta que deixa a água passar e segura as partículas finas, evitando que o solo seja levado embora junto com o escoamento.
- Drenagem, com poços de visita e caixas ralo — as caixas recolhem a água que corre pela via; os poços são os pontos de acesso à tubulação, por onde se limpa e se inspeciona a rede.
- Bueiro Simples Celular de Concreto (BSCC) — o nome descreve o formato: peça de concreto, de seção retangular e de uma célula só, que conduz a água por baixo da via em vez de deixá-la atravessar por cima.
Convém não confundir as duas medidas de comprimento do comunicado: os 500 metros do córrego são meio quilômetro, e não têm relação com os mais de 50 quilômetros da rodovia. São a mesma grandeza em escalas muito distantes, no mesmo texto.
Já a urbanização do Córrego Alegre é apresentada só pelo efeito, e no tempo futuro: quem mora ali, diz o comunicado, passará a ter caminho mais fácil até o Centro, até o bairro Canaã e até a vizinhança em volta, sem depender da BR-101 como rota principal. O que foi construído para produzir esse acesso — rua, ponte, travessia, calçada — não é dito em lugar nenhum. Verbo no futuro dentro de um comunicado de inauguração é o detalhe que separa obra pronta de obra prometida, e aqui ele está justamente no item que promete tirar o deslocamento diário de uma rodovia federal.
A etiqueta climática vem do nome do fundo
Os serviços do córrego saíram do Fundo Cidades – Adaptação às Mudanças Climáticas, no valor de R$ 9,5 milhões. O rótulo de adaptação climática, no entanto, está no nome do fundo e na fala da secretária — não em estudo, medição de chuva, histórico de enchentes ou projeção apresentados no material. Conter alagamento é obra de drenagem e de contenção de margem, que pode ou não ter sido dimensionada para cenário futuro; pelo que foi divulgado, não dá para dizer qual dos dois casos é este.
É um investimento que beneficia os moradores de forma ampla, com proteção contra os transtornos e prejuízos materiais causados por inundações e alagamentos, além de proporcionar mais mobilidade com segurança às pessoas que moram e circulação pela região
Falou a secretária de Estado do Governo, Emanuela Pedroso. A frase está aqui exatamente como no material oficial, inclusive no fim, onde a concordância escorrega e aparece circulação no lugar do verbo que a construção pedia. Nada foi corrigido nem aparado.
R$ 1 milhão autorizado não é posto de saúde reformado
Ainda na agenda, o governador assinou a autorização de um repasse de R$ 1 milhão destinado a reformar e ampliar Unidades Básicas de Saúde (UBS) da cidade. O dinheiro corre pelo 2º ciclo do Plano Decenal APS +10. Vale insistir no degrau: autorizar repasse é destinar dinheiro. Não há obra iniciada, não há prazo divulgado e não há empresa contratada. Quem for ao posto de saúde na semana seguinte encontra o que encontrava antes.
O material também não diz quantas unidades esse R$ 1 milhão vai reformar, quais são elas nem em que bairros ficam. Informa apenas que a cidade tem hoje quatro unidades de saúde em construção, com R$ 9,1 milhões de investimento estadual do 1º ciclo do mesmo plano — obra em andamento, portanto, e anterior a esta agenda. Atenção para não embaralhar dois valores parecidos: os R$ 9,1 milhões são da saúde, e os R$ 9,5 milhões são do fundo que pagou o córrego. Não têm relação entre si.
Decenal quer dizer de dez anos, e o +10 do nome marca esse horizonte. O plano mira a rede de unidades básicas, que é onde o cidadão bate primeiro: consulta de rotina, curativo, vacina, pré-natal, acompanhamento de pressão e de diabetes. Quando essa porta funciona, a fila do pronto-socorro encurta; quando não funciona, ela engrossa. Plano de dez anos e agenda de um sábado medem tempos muito diferentes, e o comunicado coloca os dois lado a lado sem avisar disso.
O comunicado termina longe de Sooretama
O último parágrafo sai do município e não volta. Ele anuncia R$ 68 milhões para reformar e ampliar UBS no Espírito Santo inteiro, dinheiro que a Secretaria da Saúde (Sesa) vai investir — verbo no futuro, portanto anúncio, não execução. E acrescenta que a primeira etapa do plano já autorizou 108 unidades em 52 cidades, com R$ 270 milhões, das quais 14 UBSs já foram inauguradas.
Esse 14 é o número que muda a leitura da agenda inteira. Ele é do próprio Estado e diz que, na primeira etapa, a maior parte das 108 unidades autorizadas ainda não abriu as portas. O que aconteceu com as demais — quantas estão em obra, quantas seguem só no papel — não é informado, e o texto tampouco esclarece se as quatro unidades em construção em Sooretama entram nessa conta de 108. Autorização e inauguração são as duas pontas do mesmo processo, e o comunicado as apresenta na mesma frase, com a cifra maior colada na ponta que ainda não chegou.
O mesmo roteiro, em outros municípios do Estado
A solenidade de sábado repete um formato que o Governo do Estado usa por todo o Espírito Santo, e comparar as agendas ajuda a calibrar o vocabulário. Em fevereiro de 2025, o mesmo tipo de evento marcou a inauguração da pavimentação de um trecho da Rodovia ES-060, em Guarapari — obra anterior a esta, em outra região e sem relação com o trecho do norte. Em março, outro pacote deu por entregues obras de reabilitação em outra rodovia estadual, num município que não tem nada a ver com este e em data que também antecede a agenda de Sooretama.
O contraste mais útil, porém, é com o verbo. Em julho, o Estado apenas autorizou obras de revitalização em uma rodovia estadual, episódio anterior a este: autorizar é permitir o começo, e ali nada havia sido construído. E dois dias depois desta agenda, em 26 de agosto de 2025 — portanto em fato posterior a esta matéria —, o Estado inaugurou, junto com uma prefeitura, outra obra apresentada como adaptação climática, o mesmo rótulo que aqui vem no nome do fundo.
Para conferir o que foi entregue, falta o que não foi divulgado
Um morador que queira checar a agenda item por item esbarra em lacunas que o comunicado não cobre:
- quem executou a pavimentação das rodovias ES-358 e ES-356, e de que caixa saíram os R$ 185 milhões;
- em que quilômetro o trecho começa e em que quilômetro termina, e quanto dele fica dentro de Sooretama;
- quanto do percurso corta perímetro urbano e como ficou a travessia de pedestre nesses pontos;
- o que são Córrego Rodrigues e Comendador Rafael e a que município pertencem;
- quanto tempo a obra ficou paralisada, por decisão de quem, e qual foi o efeito disso no custo;
- quando os serviços começaram, quanto tempo levaram e se houve interdição ou desvio no período;
- se existe garantia ou contrato de conservação para o asfalto entregue, e até quando;
- o volume de tráfego do trecho e a condição da pista antes da intervenção;
- quantas UBS o repasse de R$ 1 milhão vai reformar, em que bairros e com que prazo;
- o valor e o estágio do espaço esportivo da Comunidade de Santa Luzia;
- de quanto são os repasses para a Educação citados na agenda, e para que servem;
- o que exatamente foi construído na urbanização do Córrego Alegre, e quantos moradores ela atende;
- quantas das 108 unidades autorizadas na primeira etapa estão em obra neste momento.
Um comunicado, um lado só
Tudo o que sustenta esta matéria sobre as obras em Sooretama veio do Governo do Estado, que na mesma agenda é quem paga, quem anuncia, quem organiza a solenidade e quem escreve o comunicado. Ninguém que use a estrada foi ouvido: nem morador, nem motorista, nem transportador, nem quem tem comércio na beira do trecho. As duas vozes registradas — o governador e a secretária de Estado do Governo — pertencem à mesma administração.
Ouvir só quem assina o comunicado não é o mesmo que não haver o que perguntar. E há uma diferença prática entre os itens da agenda: o asfalto novo qualquer pessoa confere ao passar pelo trecho; o repasse autorizado, o espaço esportivo sem cifra e o dinheiro do plano estadual só se confirmam em documento que este comunicado não traz.
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