A EEEFM Honório Fraga, escola estadual de Colatina, desenvolveu no início de setembro de 2025 um projeto interdisciplinar batizado de Caminhos das Águas: Redescobrindo as Águas Capixabas com os Povos Originários, encerrado com uma visita técnica ao manguezal do rio Piraqueaçu e ao Museu de Santa Cruz, em Aracruz. Este registro é de setembro de 2025 e descreve um trabalho já concluído: o texto oficial não anuncia nova edição, não informa por quantas semanas o projeto correu nem quantos estudantes passaram por ele.
Quatro disciplinas, quatro produtos e nenhum autor com nome
O material relaciona quatro áreas envolvidas — Geografia, Sociologia, História e Biologia — e quatro resultados: vídeos documentários, maquetes temáticas, oficinas de artesanato com materiais reaproveitados e uma exposição fotográfica. O que ele não faz é dizer de quem saiu cada coisa. Os produtos entram na frase como substantivos sem dono: a produção dos vídeos figura entre os destaques sem que ninguém seja apontado como quem produziu.
Aos estudantes o texto reserva quase só verbos de presença. Eles participaram de experiências; a abordagem possibilitou a eles uma compreensão mais ampla. Há uma exceção, e é única: os estudantes investigaram a degradação dos ecossistemas, o papel das comunidades tradicionais na conservação ambiental e a relação ancestral dos povos originários com os territórios aquáticos. Como investigaram — se leram, se mediram, se entrevistaram alguém, se foram a campo antes da visita final — o material não conta.
Vale separar as leituras possíveis, porque só uma está escrita. Se o texto dissesse que a turma gravou, montou e fotografou, o crédito seria da turma. Se descrevesse um adulto produzindo e os alunos assistindo, o crédito seria do adulto. Não faz nem uma coisa nem outra: deixa a autoria sem dono. Creditar os estudantes acrescentaria o que a escola não escreveu; dizer que não produziram acrescentaria o contrário. O que se pode afirmar é que os quatro produtos existiram e que o material não os atribui a ninguém.
Junto disso fica o destino do que foi feito. A exposição fotográfica foi mostrada a quem, e por quanto tempo? Os vídeos documentários ficaram na escola ou foram publicados em algum lugar? As maquetes representam que trecho de que rio? A lista termina e o texto não volta a ela.
A única água com nome fica fora de Colatina
O projeto se apresenta como uma redescoberta das águas capixabas, e a escola fica em Colatina. Ainda assim, o único corpo de água nomeado no material inteiro é o rio Piraqueaçu, cujo manguezal a turma visitou em Aracruz — outro município, longe da sala de aula. Nenhum rio, córrego ou represa de Colatina aparece com nome. O texto fala em corpos de água do Espírito Santo, em manguezais e em rios locais, sempre no genérico.
Também não há saída de campo local descrita, nem coleta de amostra, nem medição de qualquer variável. A única ida a campo registrada é a visita técnica do fim, e ela vai a um manguezal e a um museu.
Tupiniquim e Guarani aparecem como endereço, não como interlocutores
O nome do projeto promete um trabalho com os povos originários. Os povos que a fonte nomeia são as comunidades indígenas Tupiniquim e Guarani, e ela os nomeia uma única vez, para dizer que a região visitada em Aracruz é habitada por elas. É a localização do passeio, não a descrição de um encontro. Fora dessa frase, o texto usa apenas a expressão povos originários, sem objeto: não diz de que povos fala quando trata da relação ancestral com os territórios aquáticos.
Nenhuma pessoa indígena é ouvida no material, e nenhuma é nomeada. Não há informação sobre alguém dessas comunidades ter participado da concepção do projeto, recebido a turma, conduzido oficina, revisado conteúdo ou sido consultada em qualquer etapa. As duas falas publicadas são de um professor e de uma estudante da própria escola. Isso é o que o material oficial traz e o que ele deixa de trazer; o texto simplesmente não trata do assunto.
O material tampouco explica qualquer coisa sobre os dois povos: não informa território, língua, população, história nem por que os dois nomes vêm juntos na mesma frase. Quem quiser o retrato de fundo precisa buscá-lo fora deste texto — o Estado tem um número oficial de população indígena, divulgado em abril de 2025. São dados demográficos, e nada os liga a este projeto escolar.
O que a escola chama de educação ambiental crítica
O trabalho se define por dois rótulos: Educação Ambiental Crítica e Educação para as Relações Étnico-Raciais, sigla ERER, que o próprio texto abre. O primeiro descreve um modo de tratar meio ambiente que não para na conservação: em vez de ensinar a separar lixo e economizar água, examina quem polui, quem sofre a poluição e que decisões produzem esse arranjo. O segundo nomeia a área que trata do ensino de história e cultura de grupos historicamente marginalizados dentro do currículo comum.
Rótulo, porém, é promessa até o corpo do texto descrever um ato. O que está descrito aqui é a investigação de três assuntos, quatro produtos sem autoria declarada e uma visita de campo. Valorização da diversidade cultural, percepção ambiental crítica e pensamento científico aparecem como objetivo do projeto, não como resultado apurado: nada no material informa quem observou o que mudou, com que instrumento, em que momento e sobre quantos estudantes.
Duas falas, e o que os parágrafos de apresentação não sustentam
“Ao integrar temas como a crise ambiental, o patrimônio cultural e os saberes indígenas, contribuímos para a construção de valores éticos e democráticos, fundamentais para a tomada de decisões conscientes e para a proposição de soluções socioambientais”
O professor de Geografia José Augusto de Araújo Pires da Luz, a quem o material atribui a responsabilidade pelo projeto, resumiu nesses termos o que o trabalho buscou. Compare a frase com o parágrafo que a introduz e as duas não dizem a mesma coisa: a apresentação afirma que a abordagem crítica e interdisciplinar possibilitou aos alunos uma compreensão mais ampla dos desafios ambientais e sociais — um ganho dos estudantes —, enquanto a fala não menciona os alunos e trata, na primeira pessoa do plural, de uma contribuição dos adultos para a construção de valores. Vale o que está entre aspas.
“São temas que muitas vezes passam despercebidos, como a importância dos lugares em nossa vida, o consumismo e a degradação dos ecossistemas. Foi uma oportunidade de enxergar o cotidiano com outros olhos”
Uma estudante da escola, ouvida na mesma divulgação, contou o que o projeto mudou no olhar dela. Aqui o parágrafo de apresentação escorrega de novo: ele anuncia que ela ressaltou a importância das vivências, e a fala não usa essa palavra nem avalia as atividades — enumera temas e descreve percepção. É a segunda vez, no mesmo texto curto, que o resumo oficial diz algo diferente da citação que ele mesmo publica.
Por que o nome da estudante não está nesta matéria
Na divulgação da escola ela é identificada com nome e sobrenome. Nesta matéria, não. O critério vale para toda matéria de educação básica: nome de estudante permanece quando vem de um ato — uma eleição, uma convocação por edital, uma colocação individual atribuída pelo organizador —, e depoimento não é ato. Um nome colado à escola, ao município e ao ano funciona como endereço: reduz o universo a poucas pessoas e continua aparecendo em buscas anos depois, quando o projeto já não interessa a mais ninguém. A fala segue aqui inteira, sem corte por dentro, identificada apenas como de uma estudante da escola. Com o professor o tratamento é outro: ele assina o projeto na condição de profissional, e é nessa condição que o material o apresenta — por isso o nome dele permanece.
Sem verba, sem meta e sem calendário: o que sustenta o projeto
Nada no texto amarra o Caminhos das Águas a uma política da rede estadual: não aparece sigla de programa, edital citado, origem de recurso, indicador a cumprir nem obrigação de calendário. Quem responde pelo trabalho é um professor da própria unidade, e as quatro disciplinas listadas são as da própria escola. O que está descrito é uma iniciativa nascida dentro do prédio.
Material comum sobre o assunto circula entre as escolas estaduais — as unidades receberam em janeiro de 2025 um calendário anual com datas ligadas à história indígena e afro-brasileira —, mas nada no texto deste projeto o menciona nem o associa a data comemorativa alguma. Quem juntar as duas coisas estará juntando por conta própria.
Projetos parecidos, antes e depois, em outras escolas
O tema não é exclusivo desta unidade, e pôr os casos lado a lado mostra o que aqui ficou sem descrição. Em abril de 2025, outra escola estadual fechou um projeto interdisciplinar que puxou conhecimentos indígenas para dentro de aulas da área de ciências e terminou numa aldeia de Aracruz. Em junho, representantes Tupiniquim e Guarani estiveram dentro de uma escola estadual, onde se apresentaram para estudantes e professores — ali pessoas dos dois povos estiveram diante dos estudantes, e é exatamente isso que o material de Colatina não descreve. Cada um desses trabalhos é de uma equipe diferente, e nada os liga entre si.
Na própria Colatina há outros registros escolares. Em março de 2025, estudantes construíram modelos tridimensionais para mapear os lugares que têm significado para eles — o mesmo assunto que a estudante ouvida aqui levanta em sua fala. E, já depois deste registro, em dezembro de 2025, um projeto de outra escola de Colatina levou literatura negra e indígena aos alunos.
Zero algarismos em toda a divulgação
O texto que a escola divulgou não traz um único número — nem quantidade de estudantes, nem série, nem número de turmas, nem data exata, nem quantos vídeos ou maquetes saíram do trabalho. Fica sem resposta:
- que série ou séries participaram, em quantas turmas e com quantos estudantes ao todo;
- quem conduziu Sociologia, História e Biologia — o material nomeia apenas o professor de Geografia;
- em que dia o projeto começou e em que dia foi a visita técnica;
- que rio, córrego ou represa de Colatina foi estudado, se é que algum foi;
- onde ficaram os vídeos, as maquetes, as peças de artesanato e as fotos da exposição, e se alguém de fora da escola chegou a vê-los;
- quem organizou e custeou o deslocamento até Aracruz, e quem recebeu a turma no manguezal e no museu;
- se alguma pessoa indígena participou de alguma etapa, dentro ou fora da escola;
- se haverá nova edição — o texto não anuncia continuidade, e tampouco declara o trabalho encerrado em definitivo.
Um último ponto sobre a natureza do que se está lendo: o relato saiu de quem promoveu o projeto e apresenta o resultado pelo próprio ponto de vista. Não aparece nenhuma avaliação vinda de fora da unidade, e as comunidades que dão nome ao projeto não têm uma linha de fala no texto.
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