O iFood anunciou um modelo de inteligência artificial próprio, chamado de Large Commerce Model, desenvolvido em parceria com a Prosus e treinado com o histórico de pedidos acumulado pela plataforma. O anúncio foi apresentado em 14 de outubro de 2025, em artigo assinado por Junior Borneli, fundador da StartSe, e descreve uma promessa para o aplicativo: em vez de digitar o nome de um prato na busca, o usuário poderá escrever ou falar uma frase inteira descrevendo o que quer, e o sistema monta o pedido.
O que foi anunciado, e o que o anúncio não afirma
A informação disponível é a de um modelo proprietário, feito sob medida para o negócio da empresa e treinado sobre bilhões de dados transacionais de mais de 500 milhões de clientes. É isso que o material sustenta.
Vale separar o que ficou de fora, porque a diferença muda o tamanho da notícia. Criar um modelo do zero, adaptar um modelo aberto já existente ou combinar uma camada própria sobre a tecnologia de um terceiro são três coisas distintas, com custos e riscos distintos. O anúncio não diz em qual desses caminhos o projeto se encaixa. Também não descreve a arquitetura usada, nem o papel exato da parceira no desenvolvimento — se entrou com tecnologia, com equipe, com infraestrutura ou com os três.
Modelo de linguagem e modelo de comércio: a diferença
Os assistentes de conversa mais conhecidos são modelos de linguagem, ou LLM na sigla em inglês. Eles são treinados sobre grandes volumes de texto e aprendem a prever a palavra seguinte de uma frase. Servem para escrever, resumir e responder — não para saber que um cliente pede comida japonesa às sextas e nunca no fim da noite.
O que a empresa diz ter construído é um modelo de comércio, ou LCM, treinado não sobre texto, mas sobre registros de compra: o que foi pedido, quando, por quem, em que combinação, a que preço. A promessa é que esse tipo de treino produza recomendação mais colada ao hábito real de consumo do que um sistema genérico conseguiria. Vale registrar que se trata de uma promessa apresentada pela própria empresa, sem teste independente divulgado até aqui.
A busca por palavra-chave sai de cena
Há cerca de três décadas a compra pela internet funciona do mesmo jeito: o cliente digita uma palavra, o site devolve uma lista, o cliente filtra. O modelo anunciado propõe trocar a busca pela conversa. Em vez de digitar pizza, a pessoa descreveria a situação. O exemplo usado no artigo é este:
Vou fazer um jantar de aniversário para minha mãe e quero sugestões de um cardápio simples, leve, baseado em frutos do mar e que custe até 500 reais.
A frase não é a fala de um cliente real: é o exemplo escolhido pelo autor do artigo para ilustrar o tipo de pedido que o sistema deveria interpretar. A partir dele, segundo o texto, a ferramenta entenderia o contexto, sugeriria combinações e montaria a jornada de compra completa, por texto ou por voz. A experiência estaria disponível também no WhatsApp, além do próprio aplicativo.
Note o tempo verbal. Tudo o que foi descrito está no futuro: o aplicativo deixará de ser um intermediário de pedidos, o usuário poderá falar em vez de digitar. Nada no material indica que a função já esteja no ar para o público.
Cinco perguntas que o anúncio deixou em aberto
- Quando chega ao usuário. Não há data de lançamento, fase de teste anunciada nem indicação de quais cidades ou países recebem a novidade primeiro.
- Quais dados entraram no treino. O material fala em bilhões de registros de mais de 500 milhões de clientes, mas não detalha se são dados anonimizados, se o cliente pode pedir para ficar de fora, nem sob quais regras de proteção de dados pessoais o tratamento foi feito.
- Onde o modelo roda. Não se informa se a infraestrutura é própria, contratada de um provedor de nuvem ou compartilhada com a parceira do projeto.
- O que muda no bolso. Não há informação sobre efeito em taxa de entrega, em preço de cardápio ou em posição de restaurante na vitrine — e recomendação automática é, na prática, decisão sobre quem aparece primeiro.
- Se alguém de fora testou. Não há avaliação independente, comparação com sistemas concorrentes nem métrica pública de acerto. Toda a descrição de desempenho vem da própria empresa.
O que muda para quem pede comida pelo celular
Na prática imediata, nada: quem abrir o aplicativo hoje continua digitando o nome do prato. O que o anúncio sinaliza é a direção para a qual o serviço quer caminhar — menos lista de restaurantes, mais assistente que decide por você a partir do que você já pediu antes.
Essa troca tem duas faces, e a segunda costuma ficar de fora do anúncio. Quando o sistema deixa de mostrar uma lista e passa a entregar uma sugestão pronta, o critério de escolha sai da mão do cliente. Comparar preço entre estabelecimentos, achar o restaurante pequeno que não aparece nas primeiras posições e fugir do que já se costuma pedir ficam mais difíceis quando a resposta chega mastigada. Vale acompanhar como a empresa vai explicar por que uma opção foi sugerida e outra não.
O movimento também não nasce isolado. A dona do iFood já vinha executando uma estratégia para redefinir o mercado global de delivery, o que ajuda a situar por que um investimento desse porte em tecnologia própria aparece agora.
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