Fundador da StartSe diz que a internet virou uma simulação

Um artigo de opinião assinado por Junior Borneli, fundador da StartSe, publicado em 21 de outubro de 2025, sustenta que a internet deixou de funcionar como espelho da criatividade humana e passou a operar como uma simulação de si mesma. A tese é dele, e se apoia em um estudo que o autor atribui à University of Oxford e à Graphite, segundo o qual metade de todo o conteúdo publicado online já é gerado por inteligência artificial.

Vale separar o que é dado do que é leitura de quem escreve. O material não é reportagem nem resultado de apuração: é artigo assinado. O percentual de 50% aparece citado pelo autor; o diagnóstico sobre o que esse número provocaria na rede e nas pessoas é argumento dele, não conclusão de pesquisa apresentada ali.

O dado de 50% e o que a fonte não informa

O artigo diz que um estudo da University of Oxford e da Graphite revelou que metade de todo o conteúdo publicado online já é gerado por inteligência artificial. É aí que a informação para. Não há no texto a data do levantamento, o tamanho da amostra, quais páginas ou plataformas entraram na conta, nem o critério usado para decidir se um texto foi escrito por máquina. Também não fica claro o que conta como conteúdo publicado — se apenas páginas de texto, se inclui redes sociais, imagens e vídeo.

A origem completa do número não foi informada pela fonte. Isso não significa que o estudo não exista: significa que, com o que está publicado, não dá para conferir como se chegou ao percentual. Vale entender por quê: autoria não vem carimbada num texto. Contagens desse tipo trabalham com estimativa e com indícios — padrões de escrita, repetição de estrutura, marcas deixadas pelas ferramentas —, e o resultado muda conforme o critério adotado e o recorte de páginas analisado. Sem esses elementos, o percentual serve como ordem de grandeza citada pelo autor, não como medida verificável.

O ciclo em que a máquina aprende com a própria máquina

O raciocínio central do artigo é mais simples do que parece. Sistemas de inteligência artificial aprendem a escrever a partir de enormes volumes de texto já existentes, em boa parte recolhidos da internet. Enquanto esse material vinha de pessoas, o sistema absorvia variação: erros, gírias, formas inesperadas de dizer a mesma coisa. Se a fatia produzida por máquinas cresce, o próximo sistema passa a aprender majoritariamente com o que outro sistema escreveu — e o que estava fora da média tende a sumir a cada rodada.

A criatividade, antes imprevisível, começa a ser estatística. A inteligência, antes viva, torna-se uma simulação.

A avaliação é de Junior Borneli, fundador da StartSe, no artigo em que apresenta a tese.

Na prática, o efeito descrito seria de homogeneização: textos mais parecidos entre si, ideias que voltam recicladas, menos margem para o que ninguém tinha dito antes. É importante registrar o estatuto disso. O artigo não apresenta medição desse desgaste nem projeta prazo para ele. Trata-se de uma hipótese sobre para onde a rede caminha, não de um efeito já apurado e quantificado.

De autor a espectador: a parte comportamental da tese

A segunda metade do argumento não é sobre máquinas, e sim sobre hábito. Ao entregar aos algoritmos a tarefa de criar, escreve o autor, as pessoas saem da posição de autores e passam à de espectadores — e essa troca é voluntária, feita em nome da conveniência. A perda apontada não é de emprego nem de ferramenta: é de exercício. Quem deixa de formular perde treino em formular.

Aqui também cabe a mesma ressalva. Não há no artigo pesquisa de comportamento, série histórica ou amostra de usuários que sustente a mudança descrita. É a interpretação de quem assina, e o leitor tem o direito de saber disso antes de tomar a frase como fato consumado.

O que muda para quem usa a internet todo dia

Se metade do que circula for mesmo produzido por máquina, o efeito prático não aparece como um aviso na tela. Ele aparece em resenhas de produto que repetem os mesmos elogios, em tutoriais que explicam o passo fácil e erram o difícil, em textos que respondem à pergunta com fluência e sem nenhuma verificação por trás. O problema não é o texto ser feito por máquina — é não haver ninguém respondendo pelo que ele afirma.

Por isso continuam valendo os mesmos sinais de sempre, e eles ficam mais úteis agora: quem assina, quando foi publicado, e se o texto diz de onde tirou o que afirma. O artigo em questão serve de exemplo — a tese vem assinada e datada, o percentual vem sem método. São dois pesos diferentes na mesma leitura.

O autor não propõe recusar a tecnologia. A posição defendida no artigo é de limite: ferramentas de inteligência artificial como apoio ao trabalho de quem cria, e não como substituição dele. O texto não descreve como esse limite seria estabelecido, por quem, nem com que regra — e não apresenta solução técnica ou regulatória.

Porque no fim, a verdadeira inteligência não está nas máquinas que produzem, mas nos humanos que ousam imaginar o que ainda não existe.

O fecho é de Junior Borneli, fundador da StartSe, empresa de educação continuada que oferece cursos e imersões sobre inteligência artificial e publicou o artigo no próprio site — informação que ajuda o leitor a situar de onde a tese fala.

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