Talento nas empresas: artigo de sócio da StartSe critica o termo — Direto Notícias

Talento nas empresas: artigo de sócio da StartSe critica o termo

A palavra talento perdeu o significado dentro das empresas porque passou a ser aplicada a todo mundo indistintamente. A tese é de um artigo assinado por Piero Franceschi, sócio da StartSe, publicado em 30 de outubro de 2025 na seção de artigos do site da própria empresa. O texto sustenta que, ao virar cortesia corporativa, o rótulo deixou de separar quem entrega acima da média de quem apenas cumpre a função — e que o estrago aparece em contratação, promoção e desenvolvimento de pessoal.

Vale registrar de saída o que o material é, porque isso muda a forma de lê-lo: trata-se de um ensaio de opinião, não de uma reportagem nem de um estudo. Não há pesquisa citada, amostra, série histórica, empresa identificada ou percentual em nenhum trecho. E o autor é sócio de uma companhia que vende formações, imersões, MBAs e consultoria para empresas — ou seja, a crítica ao uso da palavra talento parte de quem atua no mercado de formação em gestão. Isso não invalida o raciocínio, mas o mantém no terreno do argumento, não no da medição.

A tese: quando o rótulo serve para todos, ele não separa ninguém

O ponto de partida do artigo é que talento virou etiqueta padrão, distribuída como gentileza motivacional. O efeito, segundo o texto, é o oposto do pretendido.

Quando tudo é talento, nada é talento de verdade.

A frase é de Piero Franceschi, sócio da StartSe e autor do artigo.

Para ele, o problema não fica no vocabulário: chega ao dia a dia da administração de pessoal, distorcendo a alocação de recursos e enfraquecendo as referências internas de desempenho. O texto lista onde isso apareceria.

Erramos na contratação porque buscamos brilho genérico em vez de relevância específica. Erramos nas promoções porque confundimos carisma com contribuição.

A avaliação é do autor do artigo. Ele acrescenta que o mesmo vale para o desenvolvimento, quando todos são tratados como iguais embora as curvas de aprendizado e de impacto sejam diferentes.

A origem grega que o texto invoca para redefinir a palavra

A crítica se apoia numa etimologia. Segundo o artigo, talento vem do grego talenton, que era uma medida de peso e de valor — uma unidade de referência para dizer quanto algo valia, e não uma qualidade pessoal. Nenhuma referência é citada para sustentar a afirmação, que aparece como conhecimento do próprio autor.

Dessa origem o texto deriva a definição usada no resto do ensaio: talento seria quem acrescenta valor ao resultado, e não quem executa corretamente o que foi pedido. A distinção, porém, não é apresentada como desqualificação de quem executa.

O funcionário é quem executa com correção o que lhe cabe — e há enorme dignidade nisso.

A ressalva é do autor. O artigo também desvincula a classificação do organograma: haveria líderes que apenas cumprem a função e líderes que redefinem o jogo, sem que o cargo indique qual é qual.

A fórmula proposta: habilidade multiplicada por vontade

A parte mais divulgada do texto é uma analogia com a física. O autor parte da fórmula da força, F = m × a, em que a massa dá peso e estrutura e a aceleração imprime movimento, e propõe transportá-la para o trabalho como Talento = Habilidade × Vontade. Habilidade ocupa o lugar da massa; vontade, o da aceleração.

Sem massa, não há substância; sem aceleração, não há impacto.

A formulação é de Piero Franceschi. Como se trata de multiplicação, qualquer fator zerado anula o resultado — e é esse detalhe aritmético que o artigo usa para recusar as duas metades isoladas.

Vontade sem habilidade gera energia desgovernada: gente que se move, mas não entrega nada.

E o inverso, no mesmo texto:

Habilidade sem vontade gera competência estéril: gente boa que não se move.

As três camadas da habilidade e as três forças da vontade

O ensaio decompõe cada um dos dois fatores. A habilidade, no texto, é descrita como tridimensional:

  • Técnica — o domínio concreto do ofício, adquirido por treino e repetição deliberada.
  • Socioemocional — escuta, empatia, colaboração, autogestão e a maturidade de sustentar atrito e ambiguidade.
  • Cognitiva — compreender, conectar e reinterpretar informação, separando o essencial do ruído.

O argumento é o de que as três se sustentam mutuamente. Técnica sem cognitiva produziria bons executores e nenhum inovador; cognitiva sem socioemocional, mentes brilhantes incapazes de trabalhar com outras pessoas; socioemocional sem técnica, convívio agradável sem entrega concreta.

A vontade, por sua vez, seria a resultante de três forças: ambição, que dá a direção; resiliência, que absorve o atrito; e comprometimento, que sustenta o esforço depois que o entusiasmo passa.

Sem ambição, a vontade não nasce. Sem resiliência, ela não dura. Sem comprometimento, ela não entrega.

A síntese é do autor do artigo.

O que o texto não apresenta: nenhum dado, nenhum caso, nenhuma empresa

Aqui está a lacuna mais visível, e ela precisa ser declarada. A fórmula é uma analogia retórica, não um instrumento de medida. O texto não define escala para habilidade nem para vontade, não indica como se chegaria a um número em qualquer das duas e não relata nenhum caso em que a equação tenha sido aplicada a uma equipe real. As afirmações sobre erro de contratação, de promoção e de desenvolvimento aparecem como constatação pessoal, sem levantamento que as quantifique.

Também fica sem resposta o que aconteceria se a separação entre funcionário e talento fosse formalizada dentro de uma empresa: quem faria a classificação, com que critério documentado, com que direito de revisão de quem fosse classificado e com que efeito sobre salário, promoção ou desligamento. O ensaio não entra nesse terreno — encerra numa pergunta dirigida ao leitor.

Como o artigo fecha e quem o assina

Na última seção, o texto desloca talento de substantivo para verbo: não seria uma condição permanente registrada num crachá, mas um comportamento repetido, inclusive quando ninguém está observando. É a formulação que sustenta a frase mais dura do ensaio.

Gente com alto potencial mas sem coragem é apenas uma commodity.

A afirmação é de Piero Franceschi, sócio da StartSe. O artigo saiu em 30 de outubro de 2025, classificado pelo site sob os assuntos liderança e carreira. Vale a ressalva final: versões que circularam sem a assinatura chegaram a apresentar a fórmula em primeira pessoa, sem dizer de quem era a proposta. A proposta é do autor, e o texto é opinião dele.

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