O Brasil alcançou o posto de maior fornecedor mundial de café em 1828, de acordo com historiadores, e desde então nunca perdeu a liderança. Reportagem especial da Agência Senado sobre os quase 200 anos dessa marca mostra o outro lado da conta: a expansão dos cafezais teve a Mata Atlântica como principal vítima, e da vegetação original do bioma restam hoje apenas 30%. O mesmo levantamento reúne os números de quase três décadas em que a lavoura passou a produzir mais ocupando menos terra.
A crítica ao modo como as plantações eram abertas não é recente. Em 1877, um jornal carioca publicou um breve manual de cultivo escrito por Luís Correia de Azevedo, latifundiário da cidade cafeeira de Cantagalo, na província do Rio de Janeiro. No texto, ele cobrava os colegas cafeicultores:
À proporção que terrenos plantados se iam esgotando, administradores e fazendeiros, que só miravam o materialismo do lucro do momento, iam sem dó nem consciência derrubando novas matas em demanda de terras novas. A única razão que davam era que as terras eram de sua propriedade e que podiam delas dispor a seu prazer
O trecho é do próprio cafeicultor Luís Correia de Azevedo, em texto publicado em 1877.
Menos terra plantada e mais sacas em cada hectare
Entre 1997 e 2024, a área total com pés de café no país caiu de 2,4 milhões para 1,9 milhão de hectares — uma redução de 22%. Plantando menos, o Brasil passou a produzir mais: cada hectare, que dava 8 sacas, passou a gerar 29 sacas, crescimento de 260%.
Para os especialistas ouvidos pela reportagem, o par de números indica que a cafeicultura não precisou avançar sobre regiões de fronteira florestal para crescer. A comparação com os concorrentes reforça o ponto: Vietnã e Colômbia também aumentaram a produção nos últimos anos, mas os vietnamitas fizeram isso avançando sobre novas terras, e os colombianos mantiveram praticamente a mesma área já cultivada.
Ao mesmo tempo, trata-se de um indicador eloquente de sustentabilidade. Não são sustentáveis as grandes extensões de terra que produzem pouco quando têm potencial para produzir muito, já que consomem mais recursos naturais do que o necessário. Nesse quesito, somos diferentes da maioria dos países produtores de café.
A avaliação é da agrônoma e cafeicultora Raquel Miranda, assessora técnica da CNA.
O que significa dizer que o café brasileiro é carbono negativo
Um estudo recente concluiu que o café produzido no país é carbono negativo. O termo quer dizer que a cadeia remove da atmosfera mais dióxido de carbono do que emite ao longo da produção — na conta entram o CO₂ do maquinário agrícola, do transporte e do uso de fertilizantes.
Convém saber o alcance do estudo antes de generalizar: a pesquisa envolveu 40 fazendas de diferentes regiões de Minas Gerais, o principal estado produtor, foi conduzida pelo Imaflora e pela Esalq/USP e foi encomendada pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil.
A regra europeia com previsão de entrar em vigor no primeiro dia de 2026
Uma das medidas de maior repercussão é o regulamento da União Europeia que proíbe os países do bloco de importar produtos agrícolas que contribuam com o desmatamento. A previsão é que a norma entre em vigor no primeiro dia de 2026. Quem quiser continuar exportando para lá precisará:
- provar que não plantou em área desmatada a partir de 2021, mesmo que esse desmatamento tenha sido legal no país de origem;
- garantir a rastreabilidade do produto, de modo que se saiba exatamente onde e como ele foi cultivado;
- cumprir integralmente as leis ambientais e trabalhistas locais.
Na avaliação da agrônoma Silvia Pizzol, diretora de sustentabilidade do Conselho dos Exportadores de Café, o Brasil é hoje o país mais preparado para atender à exigência. Ela cita o Cadastro Ambiental Rural, previsto no Código Florestal, com milhões de propriedades georreferenciadas, além de bases públicas do Ibama e do ICMBio e das listas do Ministério do Trabalho. Somadas a iniciativas privadas, essas bases permitem rastrear as fazendas e averiguar a conformidade socioambiental.
Braquiária entre as fileiras e fungos no lugar do veneno
A virada técnica veio de instituições de pesquisa. Entre os centros federais estão as universidades de Lavras (Ufla) e Viçosa (UFV) e a Embrapa, que mantém uma unidade dedicada exclusivamente ao café; entre os estaduais, a Epamig, o Instituto Agronômico de Campinas e a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
Nos últimos anos, os pesquisadores criaram novas cepas de fungos e leveduras que controlam pragas dos cafezais. Esse controle biológico reduz ou até elimina o uso de agrotóxicos, que podem contaminar o solo e a água e matar organismos que não são pragas.
Outro exemplo saiu da Embrapa Café em parceria com o Consórcio Pesquisa Café: usar a braquiária, um tipo de capim, como cobertura do solo entre as fileiras de pés de café. Ao contrário do que se acreditava, o capim não disputa nutrientes com o cafeeiro. Ele aumenta a porosidade do solo e a absorção de água, reduz a temperatura e o ressecamento da terra, evita a erosão e favorece a presença de inimigos naturais das pragas. Na prática, o café ganha raízes mais profundas, resiste melhor à estiagem, demanda menos herbicida e produz mais.
É claro que existem pessoas que ainda adotam práticas nocivas ao meio ambiente, mas elas, felizmente, são a exceção. A cafeicultura é hoje uma das culturas mais sustentáveis do Brasil, se não for a mais sustentável de todas.
A avaliação é do agrônomo Paulo Henrique Leme, diretor de inovação e tecnologia da Universidade Federal de Lavras.
Quem planta café no país não é só a grande fazenda
Dados do CNC indicam a existência de quase uma centena de cooperativas atuando em 2 mil cidades, com 330 mil associados — perto de 80% deles pequenos cafeicultores. Segundo Raquel Miranda, 86% das terras cafeeiras têm menos de 50 hectares de área total, o que dá à cultura um caráter familiar.
Esse perfil ajuda a explicar a atenção do poder público. O café é a única cultura com um departamento próprio dentro do Ministério da Agricultura, o Conselho Deliberativo da Política do Café, e com um fundo exclusivo, o Funcafé, que neste ano recebeu do Orçamento federal quase R$ 7,2 bilhões. O dinheiro é acessado pelos produtores por meio de bancos públicos e cooperativas de crédito.
O que já é lei e o que ainda está em análise
Vale separar o que vale hoje do que ainda depende de votação. Já em vigor: o Código Florestal, de 2012, que obriga cada propriedade rural a destinar de 20% a 80% da terra à conservação da vegetação nativa e criou o Cadastro Ambiental Rural, registro público eletrônico e obrigatório das fazendas e de suas áreas de preservação; a Lei dos Bioinsumos (Lei 15.070), aprovada no fim do ano passado; e a Lei da Reciprocidade Econômica (Lei 15.122), relatada pela senadora Tereza Cristina (PP-MS), que permite ao Brasil retaliar países ou blocos econômicos que imponham barreiras comerciais injustas a produtos brasileiros. Fora do campo legal, o Plano ABC+ é uma política federal com metas de baixa emissão de carbono até 2030, e a atualização das regras do Crédito Rural proíbe financiamento a propriedades com embargo ambiental por desmatamento.
Ainda em estudo no Senado — ou seja, sem qualquer efeito prático por enquanto — estão dois projetos de certificação. Um é do senador Sérgio Petecão (PSD-AC) e cria o Selo Verde Café Amazônia (PL 3.761/2025), válido por dois anos e destinado ao café da região produzido com cuidados ambientais e sociais; em plena Amazônia, Rondônia é hoje o quinto maior estado cafeicultor do país. O outro é do deputado Evair Vieira de Melo (PP-ES) e institui o Selo Arte Café (PL 1.454/2023), voltado ao grão cultivado e processado de forma artesanal. Enquanto um projeto não é aprovado pelas duas Casas e sancionado, o selo não existe e nenhum produtor pode requerê-lo.
Do contrabando de mudas em 1727 ao ramo na bandeira do Império
O país está às vésperas de dois aniversários. Além dos 200 anos como maior produtor mundial, aproxima-se o tricentenário da chegada da planta ao território brasileiro, em 1727, quando, por decisão do governo português, as primeiras mudas foram contrabandeadas da Guiana Francesa para Belém do Pará. No início, o café despertou pouco interesse.
Um século depois o quadro era outro. Com a industrialização e a urbanização na Europa e nos Estados Unidos, a bebida virou produto de consumo de massa, e as plantações vingaram no Rio de Janeiro e se espalharam pelo Vale do Paraíba, que reúne o sul fluminense e o leste paulista — região escolhida pelo clima, pela altitude, pelo solo fértil, pela vastidão de terras virgens, pela proximidade dos portos e pela disponibilidade de mão de obra escravizada. D. Pedro I mandou incluir um ramo de café no brasão e na bandeira do Império, e os impostos sobre a exportação chegaram a responder por 50% da arrecadação tributária do governo.
O cultivo foi tão predatório que, em poucas décadas, o Vale do Paraíba perdeu a capacidade de produzir café, por esgotamento do solo, erosão e envelhecimento precoce das plantas. Na década de 1860, D. Pedro II mandou encher de árvores a região da atual Floresta da Tijuca para regenerar o solo e a paisagem degradados pelas antigas plantações. Os cafezais, então, migraram para o interior paulista, o sul de Minas Gerais e a Zona da Mata mineira — novas fronteiras também abertas com derrubada de mata nativa e fogo. Para o historiador Rafael Marquese, professor da USP, nenhum outro ciclo produtivo moldou tanto a paisagem, a política e a economia do país.
O desafio que os especialistas colocam para os próximos anos
O Brasil responde hoje por 37% da produção mundial de café, seguido de longe por Vietnã, Colômbia, Indonésia e Etiópia, que juntos respondem por outros 37%. Para os especialistas ouvidos pela reportagem, a preservação ambiental é compatível com a produtividade e o lucro — foi essa leitura que sustentou a mudança de práticas sem perda de posição no mercado.
O obstáculo apontado para os próximos anos são as mudanças globais do clima, que devem exigir adaptação dos sistemas de produção e o desenvolvimento de variedades mais adequadas a novas temperaturas, a outros regimes de chuva e até a catástrofes climáticas.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!