O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgou na terça-feira, 2 de dezembro de 2025, um relatório que coloca a inteligência artificial no centro de uma possível divergência econômica entre países. O documento se chama “A Próxima Grande Divergência: Por que a IA Pode Ampliar a Desigualdade Entre Países” e sustenta que a tecnologia pode reverter décadas de convergência econômica global — o período em que economias emergentes vinham encurtando a distância para as mais ricas.
Vale separar o que o relatório é do que ele não é. Trata-se de diagnóstico e recomendação: não há regra em vigor, prazo aberto, programa com balcão de atendimento nem obrigação criada para governo nenhum. O cenário descrito é condicional — o que pode acontecer se nada for feito —, e não um efeito já medido como consumado.
O recorte é a Ásia-Pacífico, e isso muda a leitura dos números
O PNUD concentrou a análise na região Ásia-Pacífico, tratada no estudo como laboratório para medir o impacto da IA, porque ali convivem, lado a lado, países na liderança tecnológica e países que ainda lidam com eletricidade estável. Todos os percentuais do relatório se referem a essa região — não são médias mundiais nem retrato de outros continentes. O material divulgado não traz número de edição do documento, não detalha quantos países entraram na conta e não descreve a metodologia usada para chegar às projeções.
China com 70% das patentes, um quarto da região sem internet
O contraste aparece nos dados reunidos pelo estudo:
- a China detém cerca de 70% das patentes globais de IA;
- Coreia do Sul e Singapura já constroem infraestrutura avançada e ecossistemas de IA robustos;
- Afeganistão, Maldivas e Mianmar ainda enfrentam desafios básicos, como eletricidade estável e conectividade mínima;
- 25% da população da Ásia-Pacífico ainda não tem acesso à internet.
Concentração de patentes não é troféu simbólico. Patente dá a quem registra o direito de decidir quem usa a tecnologia, sob quais condições e por qual preço, durante o período de proteção. Quando um único país acumula a maior parte dos registros de um setor inteiro, os demais tendem a entrar nesse mercado como compradores de licença, não como donos do padrão. E o dado de conectividade explica por que o problema não se resolve só com investimento em software: sem energia e sem rede, não existe base para usar a tecnologia.
Por que as mulheres aparecem no centro do alerta
O relatório aponta que empregos ocupados por mulheres têm quase o dobro de exposição à automação na comparação com os ocupados por homens. Exposição à automação é uma medida de quanto das tarefas de uma ocupação pode, em tese, ser executado por sistema automatizado. Não é sinônimo de demissão: indica probabilidade de a tarefa mudar, ser dividida com a máquina ou desaparecer — e é justamente por isso que o indicador serve para orientar requalificação antes de a perda acontecer.
Há ainda uma barreira de acesso anterior ao emprego. Segundo o estudo, mulheres no sul da Ásia têm 40% menos probabilidade de possuir um smartphone. Quem não tem o aparelho fica fora dos serviços digitais, dos cursos on-line e das próprias ferramentas de IA que passaram a circular pelo celular.
O alerta não para na economia
Se nada for feito, avalia o documento, a IA pode ampliar a desigualdade educacional, destruir empregos altamente expostos à automação, acelerar fluxos migratórios, aumentar tensões geopolíticas e agravar a insegurança nos países que ficarem para trás. São efeitos encadeados: a defasagem tecnológica vira defasagem de renda, que pressiona o deslocamento de população e, na sequência, a relação entre os países.
O outro lado da conta: 2 pontos de PIB e US$ 1 trilhão
O mesmo relatório aponta ganho possível caso a adoção seja distribuída. O PIB da Ásia-Pacífico poderia crescer 2 pontos percentuais adicionais por ano com adoção responsável da IA, e só os países da ASEAN poderiam adicionar US$ 1 trilhão à economia regional na próxima década.
Dois pontos percentuais adicionais não são o mesmo que crescer 2%: é acréscimo sobre a taxa que a economia já teria. Numa região que cresce 4% ao ano, seria passar a 6% — e o efeito se acumula, porque cada ano parte de uma base maior. É esse acúmulo que separa, na projeção, quem adota da forma ampla de quem adota de forma concentrada.
O que o PNUD recomenda aos governos
A IA está avançando rápido — e muitos países ainda estão na largada.
A frase é de Kanni Wignaraja, Subsecretária-Geral da ONU.
A partir desse diagnóstico, o PNUD recomenda investimento urgente em quatro frentes:
- infraestrutura digital;
- educação e capacitação;
- marcos regulatórios que garantam competição justa;
- proteções sociais para as populações mais vulneráveis.
Recomendação de organismo internacional não vincula ninguém: o PNUD não legisla nem fiscaliza, e cada item da lista só produz efeito se um governo o transformar em lei, orçamento ou política pública com prazo. Por enquanto, nada disso está em vigor por conta do relatório — o que existe é o alerta, os dados que o sustentam e a lista do que o órgão considera prioridade.
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