Verão é época de arrumar a mala e sair para o litoral, e muita gente já não pensa em fazer isso sem o cachorro no banco de trás. Antes de ligar o carro, porém, há uma lista curta que decide se o passeio termina em foto boa ou em consulta de emergência: confirmar se a praia escolhida permite animais, checar se a hospedagem tem como impedir uma fuga, colocar a vacinação em dia e planejar a proteção contra o sol. As orientações são da médica-veterinária Sibele R. Konno, diretora médica do grupo PetCare, formada pela Universidade de São Paulo (USP), com residência em clínica médica e cirúrgica.
O ponto de partida é entender que a praia não é o ambiente da rotina do animal. Areia, calor, cheiros novos, aglomeração de gente e circulação de outros bichos formam um conjunto de riscos que não existe no quarteirão de casa — e é por isso que os cuidados começam antes da viagem, não na hora de estender a canga.
O destino e a hospedagem decidem antes do animal
A primeira checagem é do lugar, não do cão. Vale confirmar com antecedência qual é a regra da praia que você pretende frequentar em relação a animais, porque isso muda de trecho para trecho, e conferir se a acomodação realmente tem espaço seguro para evitar que o pet escape.
Algumas casas e hotéis até aceitam pets, mas não possuem portões ou barreiras. Isso pode resultar em acidentes, principalmente em ambientes desconhecidos e com cheiros novos
A observação é da médica-veterinária Sibele R. Konno.
Depois do local vem a logística: medicamentos, transporte, tempo de deslocamento e a rotina do animal. Um roteiro cheio de passeios em que o cão não pode entrar significa horas sozinho num lugar que ele não conhece.
É necessário pensar se o seu bicho de estimação cabe em todos os passeios e se há condições dele ficar seguro na acomodação ou no transporte. Isso vale especialmente para quem depende de medicações manipuladas, refrigeradas ou controladas.
A explicação é de Sibele R. Konno. Medicação manipulada, refrigerada ou controlada é aquela que não se resolve numa farmácia qualquer no meio da viagem: ou ela sai de casa com o animal, acondicionada do jeito certo, ou o tratamento é interrompido.
Previsão do tempo também entra no planejamento
Vento forte, chuva e trovão mudam o comportamento de animais com fobia a barulho — e no litoral esse tipo de virada acontece em minutos.
Mudanças climáticas podem causar ansiedade, e é importante ter um refúgio seguro para o seu pet
A avaliação é de Sibele R. Konno. Refúgio seguro, na prática, é um canto fechado e conhecido do animal dentro da acomodação, para onde ele possa ir por conta própria quando o ambiente ficar hostil.
Nem todo cachorro está pronto para a viagem
A decisão de levar ou não levar passa pelo temperamento e pela saúde do animal. Os pontos que a veterinária manda avaliar são objetivos:
- se é a primeira viagem do animal;
- como ele reage a pessoas, multidões e outros animais;
- se possui doenças crônicas;
- se apresenta alergias, problemas cardíacos ou distúrbios neurológicos.
Atenção especial para cães e gatos alérgicos, cardiopatas ou com doenças neurológicas. Pergunte ao veterinário quais são os sinais de descompensação e o que fazer se eles ocorrerem
A recomendação é da diretora médica do grupo PetCare. Descompensação é o momento em que uma doença que estava sob controle deixa de estar — e a orientação é clara: essa conversa é com o veterinário que acompanha o animal, antes de viajar, para que o tutor saiba exatamente o que observar e a quem recorrer se acontecer longe de casa. Sinal de alerta em animal com doença crônica não é assunto para esperar o fim do feriado: é caso de procurar atendimento veterinário na hora.
Vacinas: o que a múltipla e a antirrábica cobrem
As principais vacinas para cães são a múltipla canina e a antirrábica. A múltipla protege contra cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa e leptospirose. A antirrábica é obrigatória em todo o território nacional.
Em locais com alta movimentação de animais — alguns sem vacinação — a chance de exposição ao vírus é maior. A imunização é fundamental.
A ponderação é de Sibele R. Konno. É exatamente esse o cenário de uma faixa de areia cheia em dia de sol: muitos animais no mesmo espaço, sem que ninguém saiba o histórico de vacinação do vizinho de guarda-sol.
Dois riscos merecem destaque no litoral. A leptospirose é transmitida pela urina de roedores e representa risco maior em regiões úmidas. Já a raiva continua sendo observada em cachorros e principalmente em gatos após contato com morcegos, sobretudo em áreas mais abertas.
Mosquito, pulga, carrapato e o bicho geográfico
O litoral favorece a proliferação de mosquitos que transmitem a dirofilariose, doença prevalente na região. As pulgas tendem a se multiplicar no calor. Os carrapatos, por sua vez, se adaptam bem a qualquer local e podem transmitir hemoparasitoses importantes — infecções que atingem as células do sangue do animal.
A prevenção precisa ser constante, pois esses vetores não têm data certa para agir. Estar prevenido é sempre a melhor opção
A avaliação é da diretora médica do grupo PetCare. Constante, aqui, quer dizer o ano inteiro: o controle não é algo que se lembra na véspera da viagem.
Há ainda os endoparasitas intestinais. A larva responsável pelo bicho geográfico pode penetrar na pele humana e também nos coxins dos cães — as almofadinhas das patas, que ficam em contato direto com a areia o tempo todo. Vermifugação e exames de fezes são essenciais.
Sol e calor: sombra, água e o horário que não vale a pena
A regra prática é manter o animal sempre na sombra e evitar a exposição entre 10h e 16h, com hidratação constante. Vale lembrar que o cão não se refresca transpirando como o tutor, e que a areia devolve o calor que recebeu do sol.
Para os animais braquicefálicos — os de focinho achatado, como pug e bulldog —, a veterinária é enfática:
Eles têm muita dificuldade para dissipar calor. Evite levá-los para a praia, a não ser em dias muito amenos ou ambientes com temperatura controlada
A conclusão é de Sibele R. Konno. Ou seja: para esses cães, a resposta muitas vezes é deixar o passeio para outro dia.
Sobre fotoproteção, a veterinária ressalta que animais de pelagem clara ou com áreas sem pelos precisam de proteção adequada, principalmente no rosto, nas orelhas e na barriga — e a orientação é usar apenas produtos de uso veterinário.
A mala do pet, item por item
Na areia, a sujeira aumenta, e o tutor deve estar preparado com xampu de uso veterinário, toalhas e secador — ou identificar um pet shop próximo antes de precisar. Quando não houver possibilidade de banho, lenços umedecidos sem perfume ajudam. A escovação deve ser diária, principalmente em animais de pelagem longa; em cachorros de pelo curto e em gatos, o momento pode ser uma forma de conexão.
Para a praia, leve:
- brinquedos;
- alimentação habitual, comedouros e bebedouros;
- petiscos;
- tapete higiênico, se necessário;
- saquinhos biodegradáveis;
- toalha;
- coleira, guia e plaquinha de identificação.
Para a viagem, leve:
- caminha;
- escovas, xampu e toalhas;
- pasta e escova de dente;
- carteirinha de vacinação;
- atestado de saúde;
- medicamentos de uso contínuo.
Dois itens dessa lista costumam ficar de fora e são os que mais fazem falta. A plaquinha de identificação é o que devolve um cão perdido em lugar onde ninguém o conhece. E o atestado de saúde, junto com a carteirinha de vacinação, é o documento que hospedagens e transportadoras costumam exigir — sem ele, a viagem pode parar antes de começar.
Direto Notícias Imparcial, Transparente e Direto!

