A Polícia Civil do Espírito Santo deflagrou, no final de outubro, uma operação contra uma organização criminosa acusada de aplicar o golpe do falso advogado. A ação ocorreu no município de Maracanaú, no Ceará, com apoio da Polícia Civil do Ceará e do Centro de Inteligência e Análise Telemática, e resultou na prisão de um homem de 25 anos, além do cumprimento de mandados de busca e apreensão contra outros investigados. Os detalhes foram apresentados em coletiva de imprensa na terça-feira (09), na Chefatura da Polícia Civil, em Vitória.
Mais do que o resultado da operação, o que interessa a quem tem um processo em andamento é reconhecer a abordagem antes de pagar. Abaixo, o que a investigação descreveu sobre como o contato chega até a vítima, quanto era cobrado e o que fazer diante de uma mensagem assim.
Como a fraude chega até quem tem processo na Justiça
Segundo a Polícia Civil, o grupo partia de informações de processos disponíveis em bases de dados do Poder Judiciário para identificar pessoas com valores a receber e descobrir quem eram os advogados responsáveis por essas ações. Em seguida, os suspeitos se passavam por esses profissionais e enviavam comunicados falsos às vítimas.
Do lado de quem recebe, o padrão descrito pela investigação é este: chega uma mensagem de um número desconhecido, com a foto de um advogado de verdade no perfil e a explicação de que ele teria trocado de telefone. A mensagem anuncia um valor liberado no processo e condiciona o recebimento a um pagamento antecipado, apresentado como taxa ou custo.
O indivíduo convence a vítima de que, para receber o valor ao qual ela tem direito, é necessário realizar um pagamento antecipado
A descrição é do titular da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos, delegado Guilherme Eugênio Rodrigues.
Quanto era cobrado e por que a conta nunca termina
Os valores pedidos no primeiro contato variavam entre R$ 1.000 e R$ 3.000, de acordo com a apuração. O ponto que a investigação destaca é o que acontece depois: quando a vítima pagava, novas exigências eram feitas, sempre com a promessa de que aquela seria a última pendência antes da liberação do dinheiro.
É esse encadeamento que explica os prejuízos maiores. Na maior parte dos casos, as pessoas só procuravam a delegacia depois de perder até R$ 5 mil.
O que significa, exatamente, o valor de R$ 100 mil
O número mais alto divulgado precisa de recorte, porque circula fora de contexto. Conforme a Polícia Civil, uma única vítima chegou a perder mais de R$ 100 mil para o grupo. Não se trata, portanto, do prejuízo somado do estado nem do país: é o caso individual mais grave apontado na apuração. O material divulgado não informa o total acumulado por todas as vítimas.
Os sinais que aparecem antes do pagamento
Pelo padrão descrito na investigação, alguns elementos se repetem e servem de alerta a quem aguarda um valor na Justiça:
- Número novo. O contato chega por um telefone desconhecido, com a justificativa de mudança de linha.
- Foto legítima, perfil falso. A imagem exibida é a do advogado real, o que dá aparência de autenticidade à conversa.
- Dinheiro antes do dinheiro. Exige-se um pagamento para liberar um valor que já seria da vítima.
- Cobrança que se renova. Depois do primeiro depósito, surge outra taxa, e depois outra.
O que fazer se você recebeu uma mensagem assim
A orientação central é simples e não depende de conhecimento jurídico: não confirme nada pelo canal que chegou. Procure o advogado responsável pelo seu processo pelo contato que você já usava antes — o telefone antigo, o escritório, o e-mail conhecido — e pergunte a ele se existe algum valor liberado e se alguma cobrança foi feita. Se a mensagem for falsa, a checagem termina ali, antes de qualquer transferência.
Foi nesse sentido o alerta do delegado-geral da Polícia Civil do Espírito Santo, José Darcy Arruda, na apresentação do caso:
Quando receber alguma informação sobre valores a receber em uma ação judicial, entre em contato com o seu advogado. Não se deixe levar por essas facilidades
Se o pagamento já foi feito, o caminho é registrar ocorrência na delegacia, levando tudo o que existir da negociação: as mensagens, o número que fez o contato, os comprovantes de transferência e os dados de quem recebeu o valor. Denúncias anônimas podem ser feitas pelo 181, o Disque-Denúncia. Em situação de emergência, o 190 atende de imediato.
Como o esquema se organizava e onde o caso está agora
Ao apresentar o resultado das diligências, o delegado Guilherme Eugênio Rodrigues detalhou o funcionamento do grupo:
Para tornar a fraude mais convincente, os criminosos criavam perfis falsos usando a foto dos verdadeiros advogados e alegavam ter mudado o número de contato. Durante as diligências, foram identificados os equipamentos utilizados na prática do crime e seus proprietários. As investigações revelaram ainda que a organização tinha alcance nacional e utilizava um ‘núcleo’ estruturado por um criminoso mais experiente, responsável por desenvolver o método do golpe e vendê-lo mediante comissão para quem quisesse aplicá-lo
Ou seja, pela apuração, quem estruturou o método não era necessariamente quem abordava as vítimas: a prática era repassada a terceiros mediante comissão. Isso ajuda a entender por que a mesma abordagem se repete com o mesmo roteiro e por que a apuração, conduzida pela Polícia Civil do Espírito Santo, terminou em diligências a mais de dois mil quilômetros, no Ceará.
Os envolvidos já foram denunciados pelo Ministério Público do Espírito Santo e são réus em ação penal, etapa em que respondem às acusações e ainda não há decisão sobre culpa. Um deles, de 25 anos, está preso. Outro homem, de 21 anos, encontra-se foragido, e duas mulheres, de 19 e 25 anos, respondem em liberdade.
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