
Enquanto o futebol brasileiro celebra suas glórias passadas, um de seus maiores heróis definha silenciosamente em um quarto de hospital no Rio de Janeiro. Amarildo Tavares da Silveira, o atacante que substituiu Pelé e ajudou o Brasil a conquistar o bicampeonato mundial em 1962, vive há mais de dois anos internado no Copa Star, em Copacabana, travando uma batalha diária contra o Alzheimer — praticamente ignorado pelo mundo do futebol.
Aos 86 anos, o ex-jogador perdeu a visão e é alimentado por sonda gástrica. Nesse sentido, a situação é descrita pelo próprio filho, Rildo Corrêa, como “muito, muito difícil”. Por outro lado, o que mais pesa para a família não é apenas a condição clínica, mas o silêncio ensurdecedor de uma modalidade que ele tanto honrou.
Da Glória de 1962 ao Abandono Atual
A trajetória de Amarildo no Mundial chileno é, de fato, uma das mais marcantes da história da seleção brasileira. Convocado como reserva de Pelé, ele assumiu a titularidade após a lesão do Rei ainda na fase de grupos. Consequentemente, o que parecia uma missão impossível tornou-se uma das histórias mais inspiradoras do futebol mundial: três gols na campanha, incluindo dois na virada sobre a Espanha e um na final contra a Tchecoslováquia.
Além disso, fora da seleção, o atacante construiu uma carreira brilhante. Pelo Botafogo, marcou 136 gols em 201 partidas, tornando-se ídolo da torcida carioca. Na Itália, onde passou anos como jogador e depois como treinador, conquistou admiração profunda em Milan, Fiorentina e Roma — sendo, certamente, mais reconhecido até hoje na Europa do que em seu próprio país.
A Saúde Que o Futebol Ignorou
Os problemas de saúde de Amarildo começaram em 2011, quando recebeu o diagnóstico de carcinoma na laringe. Dessa forma, o tratamento com quimioterapia e radioterapia foi intenso e, embora tenha superado o câncer, as sessões afetaram a região cerebral. Em 2018, portanto, veio o diagnóstico de Alzheimer. Em 2023, três AVCs isquêmicos agravaram definitivamente o quadro, e ele não saiu mais do hospital.
Os custos do internamento são cobertos pelo plano de saúde da CBF. Entretanto, segundo Rildo, o suporte emocional e o reconhecimento público praticamente inexistem. As raras exceções são Paulo Cézar Caju, Carlos Roberto, Bebeto, Vanderlei Luxemburgo e Dunga — que mantêm contato com a família.
A Ingratidão Que Mancha o Futebol Nacional
Em outras palavras, o caso de Amarildo expõe uma ferida antiga e recorrente no futebol brasileiro. “O problema maior é a ingratidão. Meu pai foi colocado num total esquecimento”, desabafou Rildo. Dunga, por sua vez, reforçou a crítica: na Inglaterra, os campeões de 1966 são tratados como deuses; no Brasil, cinco títulos mundiais parecem ter diluído o valor de cada herói.
Finalmente, a frase que talvez melhor resuma a injustiça foi dita por Maradona em 1990, ao colocar a mão no ombro de Amarildo durante um evento em Milão: “O Brasil tem que agradecer muito porque ganhou a Copa de 62 por causa dessa pessoa aqui.” Uma homenagem vinda de fora — que o próprio país ainda não soube fazer.
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