O segundo nome da hierarquia republicana na Câmara dos Estados Unidos, o deputado Tom Emmer, defendeu que imigrantes somalis naturalizados americanos que tenham participado de fraudes contra programas públicos em Minnesota percam a cidadania e sejam deportados. A posição foi divulgada em nota à imprensa na noite de segunda-feira e reproduzida no boletim de política da Fox News publicado em 30 de dezembro de 2025.
Emmer é deputado por Minnesota, o mesmo estado onde tramita o caso de desvio de recursos da alimentação infantil conhecido como Feeding Our Future. A nota começa com uma frase curta:
I have three words regarding Somalis who have committed fraud against American taxpayers: Send them home
A declaração é do deputado Tom Emmer, republicano de Minnesota. Em tradução livre, ele afirma ter três palavras sobre os somalis que cometeram fraude contra o contribuinte americano: mandem-nos para casa.
No mesmo texto, Emmer separa dois grupos e propõe um caminho para cada um:
If they’re here illegally, deport them immediately; if they’re naturalized citizens, revoke their citizenship and deport them quickly thereafter. If we need to change the law to do that, I will.
A declaração é de Tom Emmer, na mesma nota. Em tradução livre, ele pede deportação imediata de quem está em situação irregular e, para quem já se naturalizou, a retirada da cidadania antes da deportação — e diz que mudará a lei, se preciso. As acusações e a proposta são dele.
Pedido de parlamentar não retira a cidadania de ninguém
É o ponto que a nota não explica. O que existe até agora é uma posição pública de um parlamentar, não uma decisão com efeito prático. Nos Estados Unidos, tirar a cidadania de quem se naturalizou não é ato de um deputado nem de uma repartição do governo: depende de processo judicial próprio, em que o poder público precisa provar diante de um juiz que a naturalização foi obtida de forma irregular. Há direito de defesa e recurso, e a decisão vale para cada pessoa, nunca para um grupo inteiro de uma vez.
Há ainda a segunda parte do pedido: mudar a lei. Uma alteração legislativa precisa ser aprovada nas duas Casas do Congresso e sancionada pelo presidente. Enquanto isso não ocorre, vale a regra atual. Se um projeto nesse sentido for aprovado, ainda teria de ser aplicado caso a caso na esfera judicial; se for rejeitado ou nem chegar a votação, nada muda. Nos dois cenários, os processos criminais já em curso seguem o próprio rito, que discute a fraude — não a nacionalidade de quem responde por ela.
Os 250 milhões de dólares que estão por trás do pedido
O escândalo citado envolve o desvio de aproximadamente 250 milhões de dólares em fundos destinados à nutrição infantil, no esquema conhecido como Feeding Our Future. Em uma entrevista coletiva em 2022, o procurador federal Andrew Luger apresentou acusações contra 47 pessoas apontadas como participantes do esquema. Segundo os promotores, dinheiro que deveria pagar refeições de crianças foi parar em gastos de luxo, imóveis e propinas.
Desde então, dezenas de pessoas foram indiciadas por participação no esquema. Vale a distinção que a nota do parlamentar não faz: indiciamento e denúncia são etapas de acusação, não condenação. Cada caso é julgado separadamente, e a defesa se manifesta antes de qualquer decisão.
Creches, câmeras e uma operação federal no estado
A frente mais recente das investigações chegou às creches: imagens de câmeras de vigilância recuperadas pela imprensa apontam o suposto envolvimento de pais em fraudes ligadas a esses estabelecimentos, o que ampliou o alcance do caso. Em paralelo, autoridades federais lançaram uma operação de grande escala em Minnesota.
Durante o auge das apurações, o site estadual de licenciamento apresentou falhas técnicas. É por esse sistema que creches e programas obtêm autorização para funcionar e receber verba pública, o que explica por que a instabilidade virou assunto político e levantou dúvidas sobre a fiscalização estadual. Para acompanhar o encadeamento dos fatos, vale ver como o escândalo de fraude em Minnesota ampliou o escrutínio sobre a gestão desses recursos.
Por que assuntos sem relação aparecem juntos
A declaração saiu em um boletim que reúne vários temas do dia em Washington, e por isso pautas sem ligação com Minnesota aparecem lado a lado. Um relatório do Departamento de Habitação apontou que programas de assistência habitacional da gestão Biden fizeram pagamentos a inquilinos já falecidos e a não cidadãos. No Congresso, o Senado se prepara para nova disputa sobre gastos federais, com o prazo de paralisação da máquina pública se aproximando, e um painel bipartidário da Câmara dedicado à China classificou os exercícios militares próximos a Taiwan como escalada deliberada. São itens do mesmo boletim, não desdobramentos do caso de Minnesota.
O que dá para acompanhar daqui em diante
Três pontos separam declaração de efeito real. O primeiro é se a proposta de mudar a lei vira projeto apresentado, com número e tramitação — sem isso, permanece manifestação. O segundo é o andamento dos processos em curso, incluindo as 47 pessoas acusadas em 2022 e os indiciamentos posteriores. O terceiro é o resultado da operação federal no estado.
Até que alguma dessas etapas avance, ninguém perdeu cidadania nem foi deportado em razão do pedido: o que houve foi uma nota de um parlamentar, dirigida a instâncias que ainda não se manifestaram.
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